Publicado por: Duarte | 16 Dezembro, 2004

A Importância da Agricultura na Economia Nacional

Começo por recordar um episódio protagonizado pelo Rei D. Dinis, quando os comerciantes de Lisboa lhe solicitaram autorização para importarem trigo de Espanha e de França, com a alegação de que era mais barato do que adquirirem o mesmo aos produtores nacionais de trigo.

Passado alguns dias e após ouvir os seus conselheiros, o Rei respondeu com um rotundo não, alegando que os benefícios que os comerciantes obtinham, com esta operação, eram muito inferiores ao somatório dos benefícios económicos desses comerciantes, mais os dos agricultores, dos ferreiros e de um conjunto vasto de actividades locais que intervinham na produção do trigo nacional.

Destacou ainda que a capacidade de o país se abastecer, a si próprio, era determinante para a salvaguarda da sua independência e segurança, assim como para um vasto conjunto de actividades laborais.

Hoje somos “bombardeados” por conceitos mercantilista e neo-liberais para o conjunto da economia, em particular para a problemática da agricultura, com consequências graves para a situação económica e social do país.

Evoca-se a torto e a direito que temos de “deixar vigorar as leis do mercado“, “a importância da produtividade” e “os interesses dos consumidores” para justificar a importação de produtos agrícolas, muitos fora da EU, pela indústria agro-alimentar e pelas grandes cadeias comerciais.

A concretização deste objectivo, por parte de grandes interesses económicos ligados à importação de produtos agrícolas, conduziu à actual situação do país que, segundo dados oficiais, não chega a produzir 50% do que se consome em produtos agro-alimentares.

A ignorância de alguns responsáveis políticos e técnicos, da importância da agricultura como factor de criação de valor acrescentado na economia, é lamentável, pois uma análise mais cuidada permite-nos equiparar a obtenção dos produtos agrícolas da natureza, à obtenção do petróleo bruto, em contraste com muitos sectores da actividade industrial, que para obterem um produto final implica a aquisição de quantidades elevadas de matérias primas e energia.

Tomemos em conta o seguinte quadro:

  Produto final (como exemplo) Matérias Primas e factores que são necessários adquirir Equipamentos infra-estruturas   e Instalações Mão de obra
Indústria Mobiliário
  • - Madeira
  • - Colas e tintas
  • - Ferragens
  • - Vidros
  • - Energia
-Maquinaria  sofisticada de custo elevado-Instalações de grande dimensão-Infra-estruturas inergéticas e de saneamento   -Numerosa e muito qualificada
Extracção Petrolífera Petróleo Bruto -Energia -Maquinaria de custo elevado-Equipamentos e Instalações de custo elevado-Grandes Infra-estruturas de  custos elevados -Mão de obra muito qualificada
Agricultura Batatas ou trigo -Sementes-Adubos-Pesticidas-Combustíveis -Pouca maquinaria-Pequenas Instalações -Mão de obra menos qualificada -Pouco numerosa

 

A análise deste quadro permite-nos concluir que o bem produzido  na agricultura e na extracção petrolífera e o correspondente valor acrescentado bruto é, em grande parte, obtido da natureza, e na agricultura pela conjugação de pouca maquinaria e mão de obra não qualificada e pouco numerosa.

Inversamente, na produção de mobiliário, por exemplo, é necessário adquirir grandes quantidades de matéria prima e energia, de custos elevados quando incorporadas na produção de bens e equipamentos.

É, deste modo, importante que a nossa agricultura seja encarada como “o nosso petróleo” e não uma actividade económica marginal e sem interesse, bastando ir aos supermercados para se comprar batatas, fruta e outros produtos alimentares.

É importante que se saiba que todos os países desenvolvidos têm excesso de produção agrícola, sendo esta uma das condições para se terem tornado ricos, pois o facto de serem auto-suficientes na produção agrícola, actividade geradora de grande valor acrescentado tem sido determinante, a par de outros, para os  elevados níveis de prosperidade.

É com a percepção desta realidade que a ONU (FAO) tem defendido, como forma de estimular a produção agrícola nos países pobres., a exigência à OMC de que seja suprimido, nos países ricos a atribuição de subsídios à produção agrícola, acabando com a venda abaixo do custo real nas exportações agrícolas para o terceiro mundo, responsáveis por arrasar a agricultura dos países pobres.

Se os países pobres tivessem, na actualidade, dirigentes com a visão de D. Dinis, há muito que teriam decidido recusar os produtos agrícolas mais baratos, dos países desenvolvidos, que ponham em causa a produção interna, incentivando a produção nacional, geradora de um valor acrescentado e de mais valias que, no seu conjunto, superam as mais valias resultantes da comercialização dos produtos importados.

Esta questão é válida para o nosso país pois, como já referimos, não produz 50% do que consome.

É, deste modo, inadmissível a forma como a PAC (Política Agrícola Comum da UE), é aplicada no nosso país da responsabilidade do actual governo, que paga a alguns agricultores para produzir, a outros para não produzir e à maioria não paga nada.

O mais grave, no entanto, é que subsidia produtos como o trigo onde, por questões climáticas e de aptidão dos terrenos, temos produções menos rentáveis, em vez de privilegiar os apoios à nossa produção agrícola de excelência como são: a cortiça, o vinho, o azeite, os queijos, as frutas, as hortícolas, os frutos secos e a produção animal, produtos estes que, em grande parte, estão excluídos das ajudas comunitárias, ou têm apoios insignificantes..

Portugal tem 412.600 produtores agrícolas mas os 1.655 agricultores mais ricos deste país, que representam 0,6% dos apoiados pela PAC, recebem cada um mais de 143.000 euros por ano (28.600 contos), e 86% dos agricultores recebem entre zero e 344 euros por ano (69 contos).

É fácil de adivinhar quem são os que não estão interessados na revisão da PAC.

Na próxima campanha eleitoral, não basta ver as intervenções e afirmações que venham a proferir os responsáveis pelo agravamento desta situação, pois os neo-liberais e conservadores, são hábeis em afirmar e prometer uma coisa e fazer outra.

Do que necessitamos é de quem tenha uma visão clara sobre a importância económica, social, ambiental e ecológica da agricultura, como em parte teve D. Dinis, e que na actualidade temos visto ser defendida pelos deputados do Partido Socialista no Parlamento Europeu.

Os agricultores merecem o nosso respeito, pelo grande contributo que dão a uma actividade socialmente sustentável e de grande importância económica para o país, impondo-se que seja recompensado quem trabalha na agricultura, com decisões administrativas públicas que incentivem a sua actividade e não decisões políticas, como presentemente ocorrem, que têm levado ao abandono dos campos.

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Responses

  1. [...] A Importância da Agricultura na Economia Nacional Dezembro, 2004 4 [...]

  2. [...] resposta pode ser dada através de uma imagem que já utilizei num artigo de opinião que publiquei aqui em 2004, intitulado “A importância da agricultura na economia nacional” que agora [...]

  3. gostei bastante pork tive a informacoes suficientes.

  4. Q legal eu ñ sabia disso fiquei bem informado

  5. foi uma coincidência poder vê esta página, fiquei a saber mais, e também actualizado


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