Publicado por: Duarte | 15 Dezembro, 2009

A “quebra de valores” ou não ?

É vulgar encontrar-se na Comunicação Social escrita ou falada a afirmação, de comentadores superficiais, de que estamos a atravessar uma “quebra de valores”, quando se está perante notícias de violência doméstica, pedofilia, corrupção, criminalidade, restrições à liberdade, maus tratos de idosos e a crianças.

Esta interpretação fácil para estas situações levam-me a recordar uma palestra a que assisti, na Gulbenkian em 1998, feita pelo grande Humanista espanhol Federico Mayor, há data Director-Geral da UNESCO em torno do tema e a “não notícia”.

Referia Federico Mayor que, lamentavelmente, as “não notícias” raramente a comunicação as divulgava, correspondendo as mesmas a grandes avanços comportamentais da sociedade, nomeadamente nos valores morais e sociais, assim como nos económicos, na saúde, na educação, na justiça e no emprego, entre outros.

Destacava ainda existir pouco espírito crítico quando a Comunicação Social noticiava casos de forma sensacionalista, pois muitos davam por adquirido serem verdadeiras e corresponderem a uma “quebra de valores”, as situações pontuais de violência doméstica relatada, quando o que se deveria destacar é um aumento do repúdio na sociedade por estas práticas no seio das famílias, situações estas que num passado recente eram vulgares, que poucos questionavam.

Havia um ditado que dizia “entre marido e mulher não metas a colher”, mas hoje, a Lei já assume que a violência doméstica é um crime público, pelo que qualquer um já o pode e deve denunciar.

A “não notícia”, é que nos dias de hoje a generalidade das pessoas já se indigna perante estas práticas, o que corresponde a um reforço destes valores da civilização e não o contrário.

Pretendia deste modo Federico Mayor, que os cidadãos reforcem a sua capacidade crítica perante os pessimistas e profetas da desgraça, visíveis naquela Comunicação Social sensacionalista e tablóide, e que tenham em conta a “não notícia”, olhando para um passado recente em que a violência doméstica, a pedofilia, a corrupção, a privação das liberdades e outras, eram moeda corrente, práticas que nem sequer eram posta em causa, salvo por uma pequena minoria.

Os grandes avanços da civilização, que Federico Mayor refere, como a “não notícia”, leva-nos hoje a criticar pontuais dificuldades no acesso aos serviços de saúde, de educação, de justiça, de emprego, o que revela um reforço destes valores na sociedade, de que estes direitos devem ser universais, quando há umas décadas muitos não se atreviam sequer a reivindica-los.

Eu, como muitos com a minha idade, não esqueço que colegas da escola primária iam para a escola descalços, por não terem sapatos.

Alguma Comunicação Social, quando aborda estas situações deveria enquadrar as mesmas numa perspectiva mais vasta, de modo a reforçar a auto estima dos cidadãos na condenação de práticas sociais inaceitáveis e não de que estamos a assistir a uma “quebra de valores” ou seja, de que a guerra está perdida.

As sociedades precisam de conhecer os seus êxitos, assumindo o lado positivo da vida, como forma de consolidar a sua vocação solidária e cooperante, fazendo questão de ser parte da solução dos problemas e não o seu contrário.


Responses

  1. Há mesmo uma quebra de valores e ceguês política.

    Tanto edifício público abandonado e tão por perto de nós, mas as instituições continuam sem espaços dignos para funcionar.

    Uma sociedade surda e mudo. Violenta psicologicamente: uns nada fazem e tudo têm; outros desmpregados e o ordenado mínimo. O que muitos gastam num almoço.

    Mas há dinheiro para tudo. Veja-se nas últimas eleições autárquicas as obras que foram feitas em poucos meses, custando os olhos da cara!

    Tudo vale para para manter o poder, cada vez mais na mão de 2 grupos: um incapaz e o outro capaz de tudo.

    Um mundo alucinante, em que só os alucinados que procuram dar “sermão” a gente sem direitos e com grandes problemas de vida.

    Li o artigo e não reflecti muito para tirar as minhas conclusões. Os meus desabafos, embora pareçam despropositados, procuram levar aos carris antigos pensamentos que modifiquem as práticas, sobretudo daqueles que teimam pintar de azul um mundo em penunbra latente.


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