Publicado por: Duarte | 14 Abril, 1998

Consequências Políticas e Éticas da Visão Instrumental da Informação (II)

Predominando uma concepção instrumental da informação, em muitos sectores da opinião pública e da política, fácil é cair-se na ideia que a realidade nesta área continuaria hoje a ser sensivelmente a mesma que no passado, ou seja, “dos média dependeria a função de a alimentar, e de a enriquecer com informações acerca dos acontecimentos que ocorrem no mundo exterior”, como o refere o Prof. Adriano Rodrigues na obra citada na I Parte deste artigo. Ou seja, as tecnologias da informação limitar-se-iam, à maneira dos reagentes químicos a decantar a realidade exterior, sem intervir na sua constituição.Um grande contributo para a clarificação da situação foi dado pela evolução tecnológica criando dispositivos mediáticos da informação (ao vivo), libertando a experiência informativa do “tratamento e manipulação da informação” que a transformaria numa comunicação.

É notória a dificuldade com que os políticos e as suas estruturas partidárias, ou o Estado, têm para controlar as situações que resultam da informação transversal, permanentemente renovada, que lhes retira campo de manobra.

Estamos assim longe de um passado recente em que as situações, ou acontecimentos, eram comunicados com recurso aos “filtros”, na base de códigos, regras, ou preconceitos sempre usados pelos detentores do poder (político, económico ou do Estado).

A natureza incontrolável deste influxo transversal está na origem da actual falência dos mecanismos políticos, incapazes de gerir e controlar a repercussão de muitos movimentos que emergem hoje de forma imprevisível, à escala planetária.

Esta situação é descrita pelo Prof. Adriano Rodrigues como o paradoxo entre a globalização e o retorno aos particularismos tribais.

Se tivermos em conta que o relativo antagonismo entre: por um lado a planetização do sistema informativo (saberes mediáticos disponíveis); e por outro lado a emergência crescente dos particularismos culturais (fundamentalismos, nacionalistas), depressa nos apercebemos que os “muros” que separavam as comunidades são substituídos por outras barreiras culturais arcaicas, que desde sempre separavam os povos, á medida que a informação se globalizava e atravessava as barreiras nacionais.

Esta confusão entre a mundialização mediática da informação e o exacerbamento dos particularismos regionais, nacionais e locais, não ajuda a distinguir claramente o que é Informação, daquilo que é Comunicação.
É contudo inegável que estamos perante um novo quadro de que destacaremos dois aspectos.

O primeiro corresponde ao surgimento de novas formas de solidariedade, autónomas em relação á partilha de um espaço e de uma história comum. São exemplos o ressurgimento dos valores da Família, de Grupos ou da Religião, dividindo países, ou criando movimentos para além das fronteiras tradicionais.

O segundo refere-se à criação de novas barreiras entre habitantes do mesmo prédio, de uma cidade ou da mesma família. Vejam-se as filiações sindicais , ou políticas, que dividem as famílias, situação ainda há pouco inadmissíveis pois o grupo, ou clã, não o permitia, sem reagir, por vezes, com violência.

Quem Produz e Controla a Informação?

Desempenhando assim a Informação, na modernidade, um papel determinante, importa que nos debrucemos sobre quem participa na sua produção, ou no seu controle.

Até agora, nas sociedades democráticas o poder de informar era partilhado pelo Poder Político e pelas chamadas empresas de Comunicação Social de controlo pessoal ou familiar, como é o caso dos grupos Gonett, Hearst, News (Murdoch), Fininvest (Berlusconi) e no nosso país o Correio da Manhã (Carlos Barbosa), Lusomundo (Luís Silva), Expresso (Francisco P. Balsemão) como o referiu em recente conferência o próprio Dr. Pinto Balsemão.

Com a Revolução da Informação a situação modifica-se rapidamente. O poder político perdeu o monopólio da rádio e da televisão. O poder económico passou a investir nas várias fases de produção, transmissão e recepção da actividade informativa.

Surgem, assim, novos protagonistas, bancos, companhias de águas, grupos industriais, (juntando oportunidades de investimento), ou seja, a possibilidade de influir no que é divulgado, ou não.

Teremos assim que considerar, que os detentores dos órgãos de Comunicação Social são, cada vez mais, fornecedores de informação e, cada vez menos, produtores de informação.

Caminhará a sociedade civil para a uniformização? Será que a aldeia global, que Al Gore refere no seu livro “A Terra à Procura do Equilíbrio”, é negativa, porque uniformiza, ou positiva, porque universaliza?

A Interactividade, nova forma de potenciar a Tecnologia, provoca novos desafios aos emissores de informação, forçando a uma conduta rigorosa que os conduzirá a uma especialização feroz e eventualmente redutiva ao proporcionar ao cidadão, a escolha da informação que pretende obter em primeira mão.

A colocação de Câmaras de Vídeo em diferentes posições, em jogos, espectáculos, comícios, assim como em cada carro em competição, podendo o espectador comodamente em sua casa escolher a câmara, ou alternar, dando-lhe a informação em primeira mão, permitindo diferentes versões da iniciativa e não só uma única visão da mesma, vem reduzir a actual capacidade de “manipular” a informação.

Cada vez mais se exige a quem elabora a informação que tenha comportamentos deontológicos e já não corporativo, pois o julgamento dos seus actos é feito pela opinião pública, e por quem pode democraticamente controlar a informação, a sociedade civil.

A Informação Como Fonte da Desconcentração do Poder

Referimos, por último, os grandes movimentos ou vagas que, de repente, se propagam por todo o planeta, atenuando diferenças culturais, através da internacionalização de temas e campanhas de interesse comum, embora de relevância graduável, da SIDA ao Ozono, dos centenários dos homens da cultura, de guerras ou descobertas, passando pelo fundamentalismo, o aborto, ou avanços Tecnológicos.

O esbatimento das diferenças culturais, torna-nos mais acessíveis, mais permeáveis ao que se passa noutros locais, à maneira como pensam outras pessoas, como vivem outras comunidades, derrubando-se assim algumas das fronteiras protectoras das identidades nacionais ou regionais.

Como alternativa válida às tentações uniformizantes de uma universalização baseada na Comunicação, à que contrapor a Informação, com novos saberes enciclopédicos, ou como refere o Dr. Pinto Balsemão na já referida conferência, “pelo direito à diferença como factor de articulação de uma sociedade que, cada vez mais, se organiza em rede e não como até aqui em pirâmide”.

A informação mediática e interactiva, através do aumento da circulação da informação é uma poderosa fonte de desconcentração do poder de decisão e de execução.

Numa sociedade cada vez mais complexa, como aquela em que vivemos, é a circulação da informação que possibilita, viabiliza e justifica o próprio funcionamento das instituições. É por isso que a Informação tem de circular em todos os sentidos, a diversos níveis e em diferentes áreas.

Tal como se refere no Relatório “Aposta no Homem”, editado pelo Engº. Carlos Pimenta “a informação não só mediatiza como legitima o poder”.

É com esta realidade que a classe política e os poderes públicos têm que contar, que, como refere o Prof. Adriano Rodrigues, embora lhe retire campo de manobra, não joga obrigatoriamente contra eles.

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