Publicado por: Duarte | 5 Maio, 1998

Terceira Idade, que Poder?

Aquilo que não era imaginável há algumas décadas está a acontecer. A Terceira Idade volta a reassumir um papel determinante na sociedade. De facto, tendo em conta a perda do importante papel social que os “mais velhos” outrora usufruíram e que na sociedade actual deixaram de ter, era imprevisível o retorno à situação anterior.O Idoso, devido sua sabedoria e experiência de vida, era, no passado, uma pessoa respeitada e vocacionada para transmitir aos jovens os conhecimentos adquiridos ao longo de toda a vida, que hoje sabemos que era curta.

Compreendemos melhor a importância do idoso, na antiguidade, se considerarmos o nível de longevidade dos homens ao longo das diferentes épocas. Devido às condições de vida particularmente adversas então existentes (guerras, doenças, fome) está perfeitamente demonstrado que nas sociedades recuadas os velhos eram raros.

A esperança média de vida à nascença, que era na Idade do Bronze de 18 anos, na Antiga Roma de 22 anos, na Idade Média de 33 anos e no século passado de 44 anos é, presentemente, de 66 anos, sendo na Europa de 79 anos e no nosso país de 73 anos para os homens e 80 anos para as mulheres, de acordo com o PNUD (Plano da Nações Unidas para o Desenvolvimento, 1996).

Fácil é concluir que, no passado, o único meio de transmitir a experiência aos jovens era através dos “idosos” que, como já vimos, no século passado tinham 44 anos de esperança média de vida à nascença. Como na época não havia instituições ou escolas para o fazer, eram os mais velhos, os idosos, que desempenhavam o papel determinante na formação, e na transmissão das experiências e do conhecimento. Daí a sua importância social.

O aumento da longevidade, e as transformações sociais, económicas e culturais sofridas após a revolução industrial, que se ficaram a dever ao desenvolvimento tecnológico e científico, levaram a uma organização social com uma maior especialização e a uma estratificação e segregação etária que atingiu, particularmente, a Terceira Idade.

O Idoso passou a ser, para muitos, um peso, um obstáculo, um encargo para a sociedade. Na actualidade a situação alterou-se profundamente e a 3ª Idade tornou-se uma população “poderosa”.

Não há qualquer exagero na afirmação, pois é previsível que o seu poder se reforce em resultado da “explosão demográfica” da 3ª Idade.

Quando falamos de idosos, referimo-nos à faixa etária com 65 anos ou mais. Em 1890, por cada 100 jovens havia 17 idosos tendo essa relação passado a ser em 1960 de 100 para 68,6. Tendo em atenção os actuais índices de longevidade, para os quais a medicina muito contribuiu, no final do século o número de idosos será o dobro do existente em 1990, ou seja, duplicará no prazo de uma década.

Esta nova importância social que confere ao idoso poder, resulta de um conjunto de factores, nomeadamente:

Económicos – porque os seus consumos são cada vez mais elevados, devido às suas crescentes disponibilidades económicas e de rendimentos, embora estas variem significativamente de caso para caso;

Cultural – pelos seus conhecimentos que em nada se assemelham com a situação existente no início do século. Aos 65 anos o idoso tem presentemente uma grande capacidade física e intelectual e fácil acesso à informação, factores que facilitam a aquisição de conhecimentos e que, no futuro, se tenderão a aprofundar;

Interventora – pela sua disponibilidade de tempo, o que lhes dá uma maior capacidade de intervenção social;

Ética – pelo seu descomprometimento, sem nada a perder, hierarquias, cargos, privilégios ou carreiras;

Social e Política – pelo seu número e as consequências que este tem nos actos eleitorais e na constituição dos órgãos de Estado.

É nesta última vertente que se estão a verificar maiores reflexos no poder da 3ª Idade. De facto, em muitos países da Europa e nalgumas zonas do nosso País, como é o caso de Lisboa, o número de eleitores com mais de 65 anos ultrapassa os 50%, atingindo o de votantes, frequentemente, os 60%, pelo facto de muitos jovens ou trabalhadores no activo, se absterem de votar.
O idoso, como afirmação de vida, faz questão de participar em todos os actos eleitorais.

Podemos assim salientar que, sendo os jovens fundamentais e determinantes para a criatividade e a inovação, tendo em conta o seu vigor e uma maior facilidade para ultrapassar tabus, são contudo os idosos que, pelo seu peso eleitoral, passaram a ser determinantes na constituição dos órgãos políticos.

As Assembleias Legislativas, os Governos, as Autarquias, vão reflectir de forma crescente os valores, os interesses e os direitos da 3ª Idade. São as tradições culturais e morais da terceira idade que passam a ter destaque nalgumas áreas de intervenção do Estado, governo e autarquias.

A crescente criação de estruturas associativas de Reformados, Pensionistas e Idosos, pelas suas características de vivência organizada, de grupo com interesses comuns e pelo intercâmbio que efectuam com estruturas similares de outras zonas do País, é premonitória de um papel mais activo na vida política e social, muito para além da mera vivência lúdica e recreativa desta faixa etária.

A esta realidade não pode ser alheia a estratégia das forças partidárias. Nos países da Europa Ocidental é notória a crescente votação em forças conservadoras, só contrariada em situações em que a sociedade entra em crise económica ou social.

Esta forma crescente da 3ª Idade reassumir o poder, tem também em conta o facto de ser acompanhada por uma grande quebra da natalidade. Presentemente, a taxa de fecundidade já se situa muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher, valor necessário para a reposição da população. Em Portugal a taxa de fecundidade é de 1,5 (a mais baixa da Europa) ou seja, estamos perante uma grande alteração da Pirâmide da população, que se reflecte no encerramento anual de numerosas salas de aula do primeiro ciclo do ensino básico. Esta situação é já um fenómeno universal, estando nós em sintonia com o mesmo. É hoje reconhecido que quanto maior for o bem estar económico das famílias, associado à actividade profissional das mulheres que veio torná-las mais independentes, menos filhos tem o casal.

Temos assim as duas situações que se revelam determinantes para o crescente poder da terceira idade:

  • O seu aumento em números absolutos, resultante de um aumento da sua longevidade, em Portugal nos últimos 30 anos, foi de 600 mil;
  • A redução na natalidade, que provoca um acentuado aumento percentual da 3ª Idade na sociedade, situação esta que continua em pleno desenvolvimento.

Segundo a opinião do Professor Almerindo Lessa, prestigiado médico que é tido como uma referência em questões de gerontologia e geriatria, a situação descrita terá novos e mais profundos contornos no futuro já que a idade cronológica de uma pessoa não tem nada a ver com a sua idade biológica, pois fomos programados geneticamente para viver até aos 120 anos.

De acordo com os técnicos na matéria, não estará longe do dia em que o “adulto envelhecido”, que hoje se situa entre dos 50 anos aos 80 anos, se situe entre os 100 e os 130 anos. A menopausa nas mulheres situar-se-á entre os 60 e os 100 anos, quando presentemente se situa entre os 40 e 60 anos.

Entre a classe científica é aceite o seguinte quadro, como descrevendo a evolução demográfica para a qual rapidamente nos aproximamos.

Tecto de Longevidade do Género Humano:

Período

Longevidade actual

Longevidade Futura

Da Infância à Puberdade

  de      0   a      20 anos   de       0    a     30 anos
Jovens adultos   de    20   a      40    “   de     30    a     60   “

Idade madura – menopausa

  de    40   a      60    “   de     60    a   100  “

Adultos envelhecidos

  de    60   a      80    “   de    100   a   130   “

 

Perante este novo cenário, novos desenvolvimentos poderão colocar-nos problemas inteiramente novos, como por exemplo, em que idade os casais virão a ter os filhos. É conhecido que os casamentos se dão em idades cada vez mais avançadas e que os casais fogem de ter filhos nos primeiros anos de matrimónio. São também em número crescente os nascimentos fora do casamento. É cada vez mais frequente a referência, na comunicação social, a partos de mulheres com mais de 40 anos, nalguns casos ultrapassando os 50.

Cabe perguntar qual o papel que a 3ª Idade virá a ter no índice de fecundidade. O mundo tem tido profundas alterações nas últimas décadas em campos tão variados como a economia, a física, a química, a electrónica, a cibernética, a medicina ou a biologia.

Nenhum dos cenários apresentados constitui ficção, antes pelo contrário, são já realidades do nosso tempo.

Temos assim, obrigatoriamente, que encarar os nossos idosos não como inválidos, incapazes e fora do mercado de trabalho, mas sim como pessoas criativas, e social e politicamente participativas.

O “conflito de gerações” resultante da mudança de valores da geração dos avós para a dos pais, e da destes para a dos filhos, pode vir a ter outra leitura, outros desenvolvimentos, pois vamos encontrar homens e mulheres que aos 65 anos estão cada vez mais lúcidos e vigorosos, disputando o poder aos mais novos, pela sua importância económica, cultural, interventora, ética, social, política e numérica.

A solidariedade entre gerações é determinante para o homem e para a sociedade. A solidariedade não pode ser encarada como mero respeito de uns para com os outros. A solidariedade tem muito a ver com a sobrevivência do homem e da sociedade. A 3ª Idade não vai pretender compreensão, vai reivindicar participação. Mas pela sua cultura e ética vai, certamente, ser solidária com as outras faixas etárias.

As questões apontadas vão começar a ter uma importância crescente, impondo às estruturas partidárias outra visão desta problemática e, fundamentalmente, um maior respeito por aqueles que nos legaram um vasto património cultural e material e que foram determinantes na educação das actuais gerações.


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