Publicado por: Duarte | 24 Junho, 1998

Em Que Medida o Comportamento Religioso Influencia o Comportamento Eleitoral?

Estando o país em vésperas de um Referendo, em que a questão em apreço é a despenalização da prática do aborto até às 10 semanas após a concepção, pretende-se com este artigo ter a percepção do seu resultado tendo em conta que uma Instituição social, da sociedade Portuguesa, com papel relevante, a Igreja Católica, já declarou o seu apoio aos promotores do “Não”.

Têm sido publicadas diversas sondagens na comunicação social sobre qual a posição dos simpatizantes ou eleitores, dos diferentes partidos políticos, pelo que não seria difícil concluir pelo resultado do referendo.

É também conhecida a posição dos diferentes líderes partidários, com realce para o partido Socialista que esta questão é uma questão do foro íntimo de cada cidadão e não uma questão estratégica na política partidária.

Importa pois que se consiga determinar qual a influência do voto religioso nos diferentes partidos políticos para que, por esta via, se possa estimar se o peso do voto religioso terá a dimensão nos dois maiores partidos políticos de forma a introduzir alterações inesperadas nos resultados apontados pelas sondagens. que dão uma larga vantagem ao sim.

Para o efeito recorremos a um trabalho académico, feito em 1996, na qual participei, em que se pretende explicar a votação dos eleitores da região de Lisboa e Vale do Tejo (RLVT), através da percentagem de missalizantes (participantes em actos religiosos), procurando comprovar se o comportamento político dos eleitores é influenciado pelas suas práticas religiosas.

Para a concretização desse trabalho considerou-se a votação nos processos eleitorais, ou comportamento político, como variável dependente. Para tanto recorreu-se aos dados do Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE), relativos às eleições para a Assembleia da República realizados nos anos de 1980, 1983 e 1995, nos 51 Municípios da RLVT.

Quanto à variável independente (percentagem de missalizantes), recorremos ao estudo de Luís de França “Comportamento Religioso da População Portuguesa”, relativo ao ano de 1980, nos mesmos municípios.

Pretende este estudo relacionar a percentagem de votos com a prática de missalizantes e, por essa via, determinar se sim ou não, o voto religioso serve de suporte a alguma formação político-partidária como por vezes se ouve comentar.

Será que a “fé” influência positiva ou negativamente o voto; mais do que os programas e os discursos politicos dos partidos? 

A resposta a esta questão obtivemo-la através da análise do resultado do cruzamento dos dados obtidos na base do gráfico seguinte, referente somente ao ano de 1995 dado que os gráficos das eleições legislativas de 1980 e 1983, já citados, revelam as mesmas tendências, excepto no CDS/PP que à frente explicamos.

Este quadro permite uma visão global do posicionamento dos diferentes partidos na sua relação com a prática religiosa dos eleitores (missalizantes).

Com base no gráfico podemos encontrar as seguintes explicações políticas para as correlações encontradas para as organizações partidárias nela indicadas, que no trabalho académico já referido envolve muitos outros quadros e correlações que aqui não podemos reproduzir, dada a sua limitação espacial. Assim:

O Partido Socialista (FRS/PS) é quase a negação do propósito do estudo, já que não se encontra relação assinalável entre a variável dependente e independente, ou seja, pode dizer-se que os socialistas não são especialmente católicos, ou melhor, a sua votação não é influenciada pela fé.

De facto, no gráfico é visível o que afirmamos, já que, apesar da curva de missalizantes decresce, não encontramos nenhuma tendência similar, ou inversa, no comportamento político do eleitorado socialista.

Podemos assim afirmar que o eleitorado socialista é transversal e indiferente às questões religiosas de formação católica.

Podemos também destacar, na análise global da votação socialista, que o que sobressai é sem dúvida a transversalidade do eleitorado PS, que se mantém relativamente neutro em relação ao comportamento religioso.

A coligação APU/CDU é dos quatro grandes partidos ou coligações analisados, aquela que apresenta uma relação negativa mais forte. Pretende-se com isto dizer que o comportamento político do eleitorado comunista não apresenta uma prática religiosa activa. Se observarmos, atentamente, a curva de votação, percebe-se que esta evolui na inversa proporção da curva de missalizantes. Explicado de outra forma, podemos dizer que os municípios onde a CDU obtém maior número de votos é, precisamente, naqueles onde o grau de católicos praticantes é mais reduzido, ou seja, na maior parte da península de Setúbal, como os municípios do Barreiro, Montijo , Palmela, Moita etc.

Situação inversa encontramos nos municípios com maior número de missalizantes, como é o caso de Vila Nova de Ourém, Sardoal e Lourinhã.

Desta análise decorre que se quisermos traçar o perfil do eleitorado do PCP, podemos dizer, pelo menos, que ele não é na sua generalidade católico praticante.

A análise do gráfico mostra que o PSD é o mais linear dos quatro grandes partidos ou coligações , já que a relação é directa e forte permitindo afirmar que os votos do PSD podem ser explicados, em grande parte, pela questão religiosa (missalizantes).

A estrutura da curva eleitoral é, também neste partido, e à semelhança do que observamos nos outros, idêntica para os diferentes actos eleitorais.

As votações no PSD registam-se por isso mesmo, nos municípios onde o número de missalizantes é mais alto, ou seja, nos municípios de Vila Nova de Ourém, Lourinhã, etc., acompanhando de forma linear a curva descendente de missalizantes.

O CDS não mudou apenas de nome. O Partido Popular é, de facto, um novo partido, como mostra o resultado eleitoral de 1995 e a sua interpretação.

O velho CDS era um partido da direita conservadora, logo maioritariamente católica, como é visível nos quadros referentes aos acto eleitorais de 1980 e 1985, que, por falta de espaço, não publicamos.

O novo PP, ainda que se reclame portador das ideias da direita, não têm um eleitorado sociologicamente correspondente, pois verifica-se que a sua distribuição faz-se sem grande relação com a distribuição de católicos praticantes.

Será que o PP de Paulo Portas conseguirá manter esta transversalidade, do novo eleitorado do PP como se verificou em 1995, em que conseguiu ganhar votos em municípios onde era improvável o CDS ter sucesso, tais como o Montijo onde dobrou a votação.

Naturalmente que não se pode afirmar que estes dados sejam válidos para a generalidade do país, pois abrange apenas os municípios de 5 Distritos da RLVT.

Contudo, para o universo em apreço, podemos tirar quatro conclusões tendo em conta a questão inicialmente colocada:

  • 1 – Existe uma grande relação positiva nalgumas forças políticas conservadoras e do centro direita, demonstrando que existe um eleitorado que concede o voto a quem se identifica com ele, na defesa de valores cristãos, como é o caso do PSD e CDS;
  • 2 – Existe uma baixa relação negativa, entre os votos e a prática religiosa, no caso do centro esquerda, denotando este eleitorado ser mais pragmático e permeável aos conceitos do “paraíso na terra”, como ocorre com a votação no PS;
  • 3 – Na força política mais à esquerda, a CDU, existe uma forte relação mas inversa, herdeira dos movimentos ateístas e de um forte posicionamento político-social de grande carga ideológica e de oposição às classes tradicionalmente dominantes que tiveram a Igreja como suporte ideológico;
  • 4 – A modificação do nome do partido mais à direita, de CDS para PP, tendo por base uma alteração ideológica, acarretou, ao nível do universo estudado, uma sensível modificação do eleitorado, passando este a ser menos confessional e atravessando a população de forma mais transversal.

Posto isto, importa agora concluir que sendo o PS a força política mais votada nos últimos acto eleitorais e não sendo o seu eleitorado influenciado pelos que tem uma prática religiosa, nomeadamente católica, não é previsível que os resultados das sondagens sofram alterações, face à posição que a hierarquia da Igreja tem vindo a tomar, a favor do não à despenalização do aborto quando praticado nas primeiras dez semanas após a concepção, quando a mulher assim o desejar.

Qualquer que seja o resultado do referendo, a vitória do sim ou do não, o aborto continuaria a ser praticado. A diferença está em que, se prevalecer o sim, já ninguém tem de “fechar os olhos” ao não cumprimento da lei, na penalização das mulheres, que praticam o aborto até às dez semanas após a concepção e assegurado o retorno ao princípio da legalidade no Estado de Direito, pois a Lei deixa de ser violada como presentemente ocorre.

De positivo, este referendo tem o facto de se poder concluir que todos somos contra o aborto e a favor da vida. Todos defendemos a educação sexual e os métodos de planeamento familiar. A diferença está na forma de atingir o mesmo objectivo.


Responses

  1. Duarte Nuno Pinto, feliz natal a voce e todos da familia, abaixo uma das minhas crônicas.

    EM BUSCA DA FELICIDADE.

    Os seres humanos, em toda sua historia, procuraram incansavelmente, uma maneira de ter mais conforto, mais paz, com isso ter uma vida mais cheia de felicidade. Esta tranqüilidade seria principalmente ter mais horas de descanso, mais tempo para desfrutar das coisas boas do seu lar, curtir mais intensamente sua esposa, conviverem mais com seus filhos, dando a eles mais atenção e principalmente uma melhor educação.
    Toda a luta por estes princípios foi destruída pela mídia. A partir do surgimento deste nefasto sistema de indução das nossas mente, que é feita com técnicas especiais, e nos deixam á mercê deste sistema. Não temos como evitar, todos nos somos atingidos, com mais ou menos intensidade. Alem de nos induzir ao consumismo, a mídia também deturpou nossa moral, nossos costumes os quais eram os nossos maiores e mais importantes bens.
    Hoje, os seres humanos estão todos mergulhados no turbilhão do consumismo desenfreado. Para satisfazer este consumismo, todos estão em uma grande disputa, disputa esta de fazer inveja aos mais renomados gladiadores romano. Com esta nova modalidade de vida, ninguém mais tem tranqüilidade, até as crianças sofreram modificações. Elas deixaram de serem crianças, passaram também a entrar na disputa desenfreada imposta pela mídia. Uma criança hoje, de inicio vai para a escola com dois ou três anos, penso que isso é muito prematuro, o certo seria primeiro ser criança, desfrutar desta fase maravilhosa. Participar de brincadeiras infantis, enfim, ser apenas crianças pelo menos até os sete anos. A partir dos sete anos seria o momento adequado para iniciar seus estudos.
    Com esta desenfreada disputa imposta pela mídia, as crianças iniciam Precocemente seus estudos, alem do estudo chamado hoje de fundamental, há também cursos de inglês, computação, música, balé futebol, judô e muitos outros cursos. As crianças passam a ter uma vida agitadíssima. Os pais gostam muito desta situação porque se livram dos filhos, passando ate três ou quatro dias sem velos. Os pais também por sua vez, mergulham de cabeça na disputa para ganhar mais, e mais dinheiro, para poder adquirir tudo que a mídia os induz a comprar. Este consumismo irracional levou as pessoas a não ter mais paz, a não ter mais tempo para a esposa ou para os filhos. A mentalidade atual é de disputa, se seu vizinho tem uma casa bonita, você tem que ter também, se seu vizinho tem um carro do ano você tem que ter igual, ou de preferência melhor que o dele. Outra coisa importante é que a tecnologia continua criando novas coisas para serem consumidas, há sempre novidade no mercado. Desta maneira, a coisa vai degringolando para uma situação que não podemos prever onde irá parar. Eu pergunto onde esta a felicidade tão almejada, onde esta a paz, onde esta a tranqüilidade? Tudo isto foi jogado no lixo. Á ordem agora é trabalhar igual um burro de carga, só para satisfazer o consumismo imposto pela mídia.
    Façam uma reflexão sobre isso, reflita, faça um exame de consciência, você descobrirá que o verdadeiro caminho não é este. Não pensem que vou dizer que o caminho bom é aquele através das religiões, não é nada disso. O importante na vida é ter paz. Riqueza conseguida através de uma luta desenfreada por toda a vida não da paz a ninguém. No fim da vida você ira notar que foi apenas um joguete nas mãos da mídia.

    Esta crônica foi extraída do livro, Crônicas, indagações e teorias. Autor Paulo Luiz Mendonça.
    http://pauloluizmendonca.judblog.com


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