Publicado por: Duarte | 3 Novembro, 1998

A Humanidade do Rebelde

O homem ao constituir-se em sociedade iniciou, desde então, um processo lento, mas persistente, da sua organização, transformando-a, procurando que a mesma aumentasse a sua capacidade de defesa, condição determinante para a sua própria segurança e sobrevivência.

Inicialmente, na base da experiência empírica, em que o mais forte fisicamente desempenhou papel determinante, mais tarde, através dos mais fortes, culturalmente, como o demonstraram as figuras bíblicas de David e Golias.

Neste artigo procurarei distinguir o papel e a intervenção do Rebelde, na transformação da sociedade, ao longo de todas as épocas, tal como o destacou o psicanalista Roll Mays, no texto que tem exactamente o nome deste artigo, ou seja, “A Humanidade do Rebelde”.

É importante que se assinale, desde já, a diferença entre Rebelde e Revolucionário, dado que a mesma é significativa, pois, segundo este autor, o Revolucionário procura uma mudança política externa e as revoluções (mudança de governo ou política), nem sempre significam que se passou para melhor, enquanto que o Rebelde, podendo favorecer mudanças políticas não tem isso por meta principal, mas sim, romper com os costumes, as tradições, ou seja, não procura substituir o poder político ou o governo, como o revolucionário.

O Rebelde é aquele que se opõe à autoridade ou as restrições:

  • O Rebelde é a perpétua inquietação, é a mudança interna, é um “incomodo” para o Estado e o Poder. Em suma, o Rebelde não pretende substituir-se à autoridade, mas sim alterar o seu comportamento.
  • A revolta pressupõe o poder
  • A rebelião pressupõe um valor.

Perante o problema da escravatura, o escravo quando se revolta e mata o amo, não acaba com a escravatura. Mas a rebelião, contra a escravatura, quando coroada de êxito, põe termo às duas indignidades, a de escravo e a de escravizador.

Segundo Roll Mays a capacidade de rebelião é lutar contra as injustiças e não as aceitar.
O Rebelde resiste à tentativa de normalizar a vida de todos nós. O Rebelde defende sempre o direito à diferença.Muitas das “verdades” de hoje foram no passado orgulhosas recusas que se ergueram coléricas diante do vulgar, do injusto, produzidas pela sociedade de então.

Temos assim que a função do rebelde é necessária, como elemento vital da cultura, como as próprias raízes da civilização. Importa não confundir com a delinquência, pois esta é, frequentemente, simples confusão ou ataque cego e destrutivo, ao inimigo errado.

A função do Rebelde é ainda a de sacudir os costumes estabelecidos. Foi assim com Adão e Eva e a rebelião à não permissão de comer maça; ou quando os Deuses funcionavam como inimigos do homem, ao pretenderem mantê-lo subjugado a credos e práticas religiosas que impediam a sua liberdade física e espiritual.

As sociedades em todas as épocas sempre martirizaram o Rebelde numa geração e veneraram-no na seguinte, como foram os casos de Sócrates, Jesus, Buda, Krishna, etc..

Com o distanciamento dos séculos vemos hoje que as civilizações sempre foram ingratas, por matar os seus profetas, revelando o absurdo da ingratidão face ao comportamento do Rebelde. A dialética rebelde/sociedade leva o Rebelde a colocar-se contra o grupo, que representa o conformismo.
O processo dialético entre: o indivíduo e a sociedade; a pessoa e o grupo; ou o homem e a comunidade, desenvolve-se ao longo da vida de todos nós.

O Rebelde teve sempre em todas as sociedades um papel determinante no “crescimento” do Homem, “para baixo e para cima”, ou seja, em profundidade e em altura. O Rebelde bate-se por transformar a sociedade numa comunidade.

É de Hannah Arendt, a afirmação que “o Rebelde combate a opulência de uma sociedade afluente” , porque “uma abundância de riqueza pode desgastar o poder, e a riqueza é particularmente perigosa para o bem-estar da república”. À pergunta sobre o que faz, com que um indivíduo dê o passo que o separa da massa condicionada e o converte num Rebelde, alguns autores referem ser “a dialética da indignação contra as tendências conformistas e niveladoras da sociedade”.

A arte é uma forma de rebeldia. Enquanto o artista através da pintura, da escultura ou da representação cria, outros são levados a actos de destruição. Para Roll Mays “os mesmos impulsos que levam algumas pessoas à violência, levam o artista a criar“.

Esta nova maneira de ver a intervenção do Rebelde leva a concluir que a arte consiste na descoberta do passado e do presente, à luz do futuro.

Os Limites do Rebelde

Para Roll Mays o Rebelde tem, também ele, limites. A sua primeira limitação é a universalidade da própria visão do Rebelde o que leva a desprezar a vingança pessoal, como motivo para as suas dificuldades.
O que caracteriza o Rebelde é a capacidade que revela para ultrapassar o seu próprio orgulho ferido e o seu ideal universal.

Outro dos limites do Rebelde é a compaixão, causa primeira que o leva a tornar-se Rebelde.
O seu envolvimento e identificação com as pessoas, os problemas e sofrimento destas, absorvem-no de tal modo que põem frequentemente em causa o seu bem estar e o dos seus familiares. Para o Rebelde o diálogo é determinante e em circunstância alguma pretende silenciar os seus adversários.

O Rebelde considera determinante o diálogo com o “inimigo”, como fonte de outras formas de pensar e agir. Considera ainda que nem sempre os adversários têm más soluções ou estão inteiramente errados.
O diálogo permite as soluções alternativas e integradoras sendo por isso peça importante para o Rebelde.
Temos assim que “a mais elementar formar de rebelião expressa, paradoxalmente, uma aspiração de ordem”, como o refere A. Camus, a propósito da defesa que o Rebelde faz do diálogo.

Quem detém o poder político é tentado a usá-lo, não cofiando na visão do Rebelde, procurando agarrar-se ao poder, opondo-se ao Rebelde e à defesa que este faz do diálogo. A história demonstra que as vitórias duradouras sempre foram as do Rebelde, porque transformaram mentalidades, porque a sua luta foi assumida pela comunidade, não na base da imposição violenta, como a que defende o revolucionário, mas pela prática do diálogo com todos, no respeito pela diferença, na partilha de valores.

O Rebelde que há em todos nós, vai sendo determinante para desmontar a intolerância e o egoísmo, que alguns, por estratégia de assumir o poder político, nos pretendem impor através de “verdades absolutas”. Os povos têm vindo a demonstrar não pretenderem aceitar as verdades imutáveis e deterministas.
A diferença entre o ” discurso” e a “prática”, permite-nos determinar quem são aqueles que querem substituir os que estão no poder, daqueles que pretendem transformar a sociedade.
Criticar os que exercem o poder, só por si, não é uma postura de Rebelde. Frequentemente, é, isso sim, uma forma de substituir o poder.

É neste contexto que interpreto o auto-retrato, que Severiano Falcão publica no Diário de Notícias da passada semana. A dignidade desse texto, traz à memória do porquê que, Severiano Falcão, era incómodo para alguns, na presidência da Câmara de Loures. O seu papel de contenção de mandos e desmandos, tinha muito a ver com a postura do Rebelde.

Finalmente e voltando a citar Roll Mays, o Rebelde não pretende o poder mas sim transformar a sociedade.

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