Publicado por: Duarte | 30 Dezembro, 1998

A Queda do Último Império

Todos os Impérios tiveram os seus momentos de glória e declínio, desde os persas, com Alexandre o Grande, passando entre outros pelo egípcio, grego, romano, maia, português, francês, alemão, inglês, soviético e, por último, o americano (EUA), em que os últimos se caracterizaram mais por uma política imperialista do que pelo domínio físico do território.

Todos se pautaram por comportamentos de “quero, posso e mando“. Uns mais violentos e repressivos, outros desempenhando um papel importante na divulgação do conhecimento, mas que terminavam todos de forma idêntica: provocando a sua própria autodestruição, face às contradições internas que os minaram, o que os tornou vulneráveis à luta dos povos a eles submetidos ou subordinados.

É inegável que o último país com postura “imperialista“, os EUA, também designado de “super potência“, está em fase de declínio e em clara perda de poder, o que o leva a ter posturas do uso da força militar para impor a sua autoridade, pois a sua intervenção política nem sempre consegue obter o consenso da comunidade internacional.

O recente conflito com o Iraque é uma clara evidência desse comportamento, independentemente de ser notório que o país agredido, é governado por um Homem que não respeita os mais elementares direitos do seu povo. São inúmeros os ditadores por esse mundo, que não só não são alvo de medidas punitivas, como são suportados, económica, militar e politicamente, pelos EUA.

Não podemos deixar de transcrever os comentários de personalidades de grande autoridade moral, social e política, quanto a este conflito. Divulga a comunicação social, que o Vaticano, através das próprias palavras do Papa João Paulo II, defende “que a agressão ao Iraque acabe o mais depressa possível e que a ordem internacional seja restabelecida, pois são um acto de ameaça para a paz no Médio Oriente“. Quanto ao Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, apressou-se a considerar “que era um triste dia para as Nações Unidas e para o Mundo“. Citava por último o Dr. Mário Soares, tendo em conta a grande autoridade moral de que se revestem as suas posições, quando diz que “o ataque ao Iraque, foi decidido à revelia das Nações Unidas e da União Europeia, pelos governos dos EUA e do Reino Unido. Só por isso é inaceitável. Acresce que parece legítima a suspeição de que o Presidente Americano agiu para afastar o perigo iminente da sua destituição. A situação Internacional assim criada é de uma evidente gravidade, moral e política. A posição dos países livres -e nomeadamente a sua diplomacia- não pode ser assumida na subserviência, no distanciamento em relação a actos condenáveis ou mantendo um silêncio ambíguo. Os amigos dos EUA devem ter a coragem de lhes dizer, com frontalidade, o que pensam. Não é tolerável que ignorem os seus aliados ou que os ponham perante factos consumados, de importância internacional, como se fossem os donos do mundo. A hipocrisia ou a mistificação não podem ser erigidas em regras internacionais“.

Este texto, do Dr. Mário Soares, complementa, com clareza, o que o Papa João Paulo II e Kofi Annan, secretário geral da ONU, afirmaram.

Praticar a Violência para Exibir Poder

Se a condenação deste acto imperial começa a ser geral, sem deixar de se reconhecer que o Iraque vive em regime de ditadura e que se deve ajudar o seu povo a libertar-se do ditador que o “governa”, teremos que fazer outra leitura para explicar as causas deste conflito.

A explicação só pode ser encontrada na tentativa de todos os impérios demonstrarem pela força que são quem manda e esta necessidade é por demais evidente se nos recordarmos que no dia 1 de Janeiro de 1999 foi formalizada a moeda única europeia, o EURO, que se tornará, na fase final do processo dentro de dois anos, na moeda mais forte do mundo.

Os EUA estão em vias de perder o instrumento que está na base do seu poder económico, o de país emissor do papel-moeda (dólar) utilizado para as trocas internacionais, situação que lhe permitiu elevados padrões de rendimento, para os seus cidadãos e para as suas empresas. Este papel, que lhes foi consentido pelo mundo ocidental, tinha em conta que cabia aos EUA a função de conter o poder militar da então União Soviética.

Com a queda do império soviético, o mundo ocidental e em particular a União Europeia, considerou que não tinha que continuar a financiar a economia americana, que é cada vez menos competitiva em relação à UE. Esta situação, perda de competitividade, só não é mais evidente face aos elevados benefícios que resulta de emitirem milhões de notas, com valor facial de dezenas ou centenas de dólares, mas com um custo de cêntimos.

Se todos os países exigissem aos EUA bens e serviços pelos dólares em seu poder, a América do Norte seria incapaz de satisfazer esse compromisso, pois há muito que o dólar deixou de ter correspondência com o ouro depositado no FED, o Banco Central Americano.

É pública a afirmação do chefe da Reserva Federal Americana, Alam Greenspan, de que “a América vive acima dos seus meios“.

A UE já alcançou os EUA enquanto potência económica, como se verifica no quadro seguinte (publicado pelo Diário de Notícias no passado dia 29 de Dezembro), e vai-se constituindo, progressivamente, como entidade política, cultural e social.

Dimensão económica

EUA

Japão

UE

 Proporção do PIB mundial         20,7           8,0       20,4
 Proporção do comércio mundial         15,2           6,1       14,7

Importância das moedas

     
 Comércio mundial         48,0           5,0       31,0
 Obrigações         37,2         17,0       34,5
 Dívidas dos PVDs         50,1         18,1       15,8
 Reservas cambiais oficiais         56,4           7,1       25,8
 Transacções nos mercados cambiais         41,5         12,0       35,0

 

É dos livros que, na esfera internacional, o poder político é resultante do poder militar e o poder militar resulta do poder económico e financeiro.

Estando os EUA à beira de perder o seu principal instrumento financeiro, o dólar, como principal moeda de trocas internacionais, para o EURO, há que demonstrar que quem tem o poder militar, ainda, são os EUA.

Por quanto tempo têm ainda os americanos essa capacidade económica e financeira, para suportar o seu enorme aparelho militar? Produzir material de guerra e vendê-lo a outros países, é o mesmo que vender tractores. É um bem que se reproduz, pois recebe, em troca, bens ou matérias primas. Mas produzir material de guerra e este ser utilizado por quem o produziu, é o mesmo que, após a sua produção, ser colocado no caixote de lixo da fábrica, pois foi um bem que não se reproduziu.

Esta “agressão” ao Iraque, utilizando o termo do Vaticano, com centenas de mísseis, em que cada míssil de cruzeiro Tomahawk, custa 170.000 contos, estamos a assistir ao gastar dos últimos cartuchos de um Império que, como todos os outros, ruíram porque foram incapazes de se reformar e agir de acordo com a comunidade internacional.

Todos os projectos imperiais e federais, no passado, caminharam para uma prática de uniformização cultural e de organização da sociedade, que levou à sua queda, de que o último exemplo são os EUA. Felizmente que o projecto Europeu, que caminha para o federalismo, baseia a sua intervenção na diversidade cultural e linguística, assim como nas diferentes formas de organizar a produção, partindo do princípio de que é na base da competição técnica, económica, cultural e política que a sociedade se desenvolve.

Os EUA têm reservado para si o papel de polícias do mundo. Recordo-me das pinchagens nas paredes, no período de 75/76, de uma frase dos anarquistas que dizia: “quem nos defende são os polícias. Mas quem nos defende dos polícias“. Vai sendo tempo de a Europa concretizar um dos pilares importantes da EU, uma estrutura militar própria e unificada, na base da União da Europa Ocidental (UEO), pois os seus problemas de defesa não podem ser entregues a um país (EUA), que em breve se vai considerar ameaçado, no seu poder económico e financeiro.

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