Publicado por: Duarte | 23 Agosto, 1999

O Cuco, Os Ovos e Os Votos

Com alguma regularidade, em vésperas de actos eleitorais, quem pretende evitar a vitória eleitoral de quem está a exercer  o poder vem com a frase “os portugueses (tal como os cucos) não metem os ovos todos no mesmo cesto”, pretendendo com esta alegoria duas coisas:

  • 1. convencer os eleitores de que é perigoso para a democracia concentrar o poder de todos os Órgãos do Estado na mesma força política;
  • 2. tranquilizar os seus correligionários porque os cidadãos, na sua sabedoria, não vão correr esse risco.

Em teoria político-eleitoral, para já não falar no senso comum, esta leitura do comportamento do eleitorado e dos cidadãos não resiste a uma elementar análise técnico-científica,.

De facto, os eleitores não são pássaros que funcionam por instintos primários e a sua intervenção pode, hoje, ser determinada com muito mais rigor do que alguns pensam. Diga-se ainda que, em ciência política, estas questões têm um tratamento técnico na base de uma realidade material e não emocional, subjectiva e muito menos superficial.

Hoje está claramente demonstrado que as pessoas votam, ao longo da sua vida, sempre na mesma força política, salvo quando estão colocadas perante o que, tecnicamente se designa por “interesses cruzados”.

É exactamente esta situação de “interesses cruzados”, que mais à frente pormenorizamos, que leva à alteração dos resultados eleitorais em  prazos relativamente curtos e para órgãos diferentes.

De facto, as pessoas votam sempre na mesma força política, pois, após terem assumido a sua primeira posição política, vão pretender demonstrar, a si próprios, que não se enganaram, passando a ter uma postura que os sociólogos designam por bloquear às mensagens do outro, encontrando sempre uma justificação para a decisão que tomaram inicialmente e encontrando nas mensagens da força política em que votaram a justificação para o seu anterior voto.

Qualquer indivíduo bloqueia a uma mensagem que ponha em causa os seus valores, mesmo que essa mensagem seja uma verdade ou esteja correcta.

Um filho bloqueia, não assimilando a mensagem quando se diz mal da mãe ou do pai, um cristão tem comportamento idêntico quando se põe em causa Jesus Cristo, ou um muçulmano se lhe dizem que Maomé não foi profeta.O preconceito está no nosso quotidiano.

Posto isto, seriamos levados a concluir ser possível determinar, com antecipação, qual o resultado dos actos eleitorais, bastando, para o efeito, determinar qual o eleitorado base ou eleitorado natural de cada partido.

É aqui que entra o factor que permite alterar os resultados eleitorais, ou seja, os “interesses cruzados”, que levam, transitoriamente, um eleitor a votar de forma diferente do habitual.

Procuraremos descrever de uma forma abreviada e simples, algumas situações que podem revestir a figura de “interesses cruzados”:

  • – a promessa de dar um emprego se for eleito;
  • – a promessa de que, se for eleito, construirá um bairro, um pavilhão (ou qualquer outro equipamento, escola ou arruamento);
  • – prometer aos pequenos comerciantes que vai fechar as grandes superfícies ao domingo;
  • – o voto útil é também um interesse cruzado, pois o receio de que outros venham a ganhar pode levar muitos eleitores a votar no “mal menor”, mas melhor posicionado;
  • – a própria imagem de maior credibilidade ou capacidade de um candidato pode funcionar como interesse cruzado, bem como muitas outras situações.

Poder-se-á argumentar que, se todos prometerem a mesma coisa, como o bacalhau a pataco, o interesse cruzado anula-se, voltando todos a ter o eleitorado base. O problema é que nem todos estão em condições de prometer as mesmas coisas, particularmente os que estão a terminar o mandato, pois facilmente serão questionados do porquê de não terem feito o que estão agora a prometer.

Isto para dizer que o problema dos “interesses cruzados” é muito mais complexo, e exige aos estrategas, das equipas eleitorais dos partidos, uma grande capacidade de analise, procurando anular “interesses cruzados” criados pelas outras forças políticas nos seus eleitores naturais, e criar, a seu favor, “interesses cruzados” no eleitorado das outras forças políticas.

Por vezes, esse esforço é inglório face a situações materiais e conjunturais sócio-económicas, particularmente adversas para quem está no poder. O caso mais flagrante verifica-se quando três indicadores económicos (índice de rendimento; índice de investimento; e índice de poupança) estão negativos, o que determina, invariavelmente, a queda de quem está no poder. Esta situação ocorre, normalmente, em qualquer país da Europa ou da América do Norte.

De facto, a descrença na capacidade dos que estão a exercer o poder para sair da situação de crise, leva, normalmente, a que os eleitores sejam receptivos à mensagem de outra força política que lhes prometa sair da situação económica e social grave em que se encontra a sua empresa ou a sua família e, frequentemente, o seu emprego.

Se nos recordarmos, a situação económica e social em 1985, aquando da vitória do PSD (Prof. Cavaco Silva), ocorre quando os três indicadores estavam negativos. Em 1995, a situação era idêntica, o que facilitou a vitória do PS (Eng.º António Guterres). Nestas situações quem está no poder não pode prometer o que não fez, sendo muitas vezes “vítima” de conjuntura económica internacional desfavorável.

Voltamos assim à questão inicial – os eleitores não são pássaros (cucos), e não têm receio de dar os votos à mesma força política.

As regras são ditadas em função de eleitorados base de cada força partidária e dos “interesses cruzados” que se venham a criar, em relação a determinados estratos do eleitorado, que possam levar estes a votar de forma diferente do habitual.

Posto isto, há que fazer um levantamento mais ou menos rigoroso dos eleitorados naturais. Rapidamente se conclui que o partido que tem o maior eleitorado base é o PS (40%), seguido do PSD (30%), e a uma considerável distância o PCP (12%), e CDS/PP (8%), os outros partidos ficam com o restante (10%).

Esta situação resultou, logo em 1975/76, quando nos primeiros actos eleitorais os eleitores foram chamados a definir-se e de então para cá, não se verificaram alterações significativas.

Estamos em véspera de um novo acto eleitoral, em que a conjuntura económico-social é particularmente favorável ao Governo, pelo que, dificilmente, os partidos da oposição estão em condições de criar “interesses cruzados”, que alterem o actual quadro político.

Vai sendo tempo de os partidos políticos entenderem que a ciência política pode perspectivar outro tipo de intervenção, das suas estruturas, fugindo às posturas imediatistas, quando analisam somente o que está ao alcance da sua vista, incapazes de verem mais além, e qual a consequência das suas posturas, não somente hoje, mas amanhã ou uma década mais tarde.

Ter eleitorado base implica ganhar, desde muito cedo, os jovens nas suas primeiras manifestações políticas e estas têm uma relação muito estreita com os seus interesses sócio-económicos e também emocionais.

As questões objectivas e materiais, assim como as subjectivas e espirituais,  para este efeito, não estão tão afastados como alguns pensam.


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