Publicado por: Duarte | 6 Outubro, 2000

Socorro! Vem aí o Lobo…

Com diferentes versões, todos nós conhecemos a história do jovem pastor que se divertia a enganar os habitantes da sua aldeia, gritando a pedir socorro para as suas ovelhas porque vinha o lobo para as devorar.

Descreve a história, a zanga dos aldeões quando munidos de forquilhas e machados verificavam que, mais uma vez, tinham sido enganados pelo aldrabão atrevido.

A história terminava com o rebanho dizimado pelos lobos porque o jovem pastor ao pedir mais uma vez ajuda à aldeia, e não estava a mentir, ninguém acreditou nele.

Moral da história, mentir tem ganhos a curto prazo, mas o seu efeito perverso acaba por atingir mais tarde, negativamente, quem recorre a essa prática.

Esta pequena história vem a propósito duma saga que tem atingido os portugueses nos últimos dois anos, propalada aos quatro ventos, misturando desejos com realidades, o presente com futurologia, procurando passar a mensagem de que “o pais está em crise económica, num pantanal à beira da catástrofe”.

Estas mensagens, no início repetidas mensalmente, depois algumas vezes na semana e diárias nos últimos tempos, com os jornais a fazerem eco de declarações de dirigentes partidários, da oposição ao Governo ou economistas ligados aos mesmos interesses, conduziu inicialmente a manifestações de preocupação dos cidadãos e, posteriormente, a uma descrença na mensagem de crise, pois não encontram na sua vida quotidiana a imagem de descalabro económico e a tão apregoada catástrofe.

Naturalmente que existem alguns indicadores económicos para os quais importa tomar medidas correctivas, mas também é inegável a existência de outros indicadores económicos e sociais, positivos, que em grande parte compensam os anteriores.

A utilização abusiva destes indicadores, desenquadrados de outros de sinal positivo, ou a fuga aos métodos comparativos, com parceiros ou com anos anteriores, tem servido a campanha de desinformação com objectivos meramente partidários, pelo que vale a pena citar alguns exemplos: 

I – O Endividamento das Famílias

Tem-se utilizado este dado financeiro como mensagem negativa, escondendo, propositadamente, que o mesmo resulta, em grande parte, da compra de habitação, ou seja, de investimento que se traduz em poupança e no aumento do património (riqueza), dos cidadãos e do país.

Grave era se esse endividamento fosse, fundamentalmente, para consumo ou outras despesas correntes.

É caso para perguntar, aos profetas da desgraça, se a solução de alugar casa é mais barata para o cidadão que necessita de habitação?

II – A redução da Poupança e dos Depósitos a Prazo

Qualquer leigo em economia sabe que quando os juros estão baixos para a obtenção de crédito, para compra de habitação ou investimentos no sector produtivo ou mesmo no consumo, estão também baixos na remuneração dos depósitos a prazo. Daí que as pessoas em vez de fazerem depósitos a prazo compram património imobiliário, títulos, acções ou investem em iniciativas lucrativas, ou seja, poupam de forma diferente, fazendo investimento.

Pelo que também aqui, a mistificação de que não há poupança é evidente.

III – O Agravamento dos Juros para o Crédito à Habitação 

A forma especulativa com que este assunto tem sido tratado chega a rondar a ignorância, senão vejamos as Taxas de Juro em:

Mês /  Ano

1995

1996 1997 1998 1999 2000
Janeiro
15 % 12 % 8 % 7 % 5 % 4,5 %
Agosto       6 %   6 %
Setembro         3,5 %  

 

Fácil é de verificar que somente os que adquiriram casa em data posterior a Janeiro de 1999 é que viram agravados os juros, com destaque para os que o fizeram em Setembro de 1999. Mas todos os que o fizeram antes de Agosto de 1998 ainda estão a beneficiar em relação aos juros que, inicialmente, contrataram para o empréstimo de compra da sua habitação.

É caso para perguntar àqueles que tiveram grandes responsabilidades governativas antes de 1995, porque é que mantinham taxas de juro, no crédito à habitação, superiores a 15%, dado que nessa altura quem determinava as referidas Taxas era o Banco de Portugal.

É ainda de referir que existem bancos que praticam taxas de 7% e outros, para os mesmos montantes, 5%, pelo que é também abusivo evocar as taxas mais altas do Mercado.

IV – O Governo Não Consegue Cumprir com a Taxa de Inflação dos 2% que Prometeu

A prática tem vindo a demonstrar que a pretensão do Governo de situar a inflação em 2% não será atingida, como aliás não virão a ser atingidas as taxas médias previstas para o conjunto dos países da U.E., face a dois indicadores externos ao espaço europeu, o aumento do preço do petróleo e a valorização do Dolar.

Não sendo estas situações endógenas, é contudo deprimente como alguns   comentadores se auto-satisfazem com o facto de que esta meta não tenha sido atingida.

Omite-se, no entanto, um factor positivo, o de que a inflação este ano será, previsivelmente, inferior à do ano passado. A utilização de métodos comparativos, neste caso, não interessa a quem pretende outros fins.

Os Portugueses Também Sabem Gerar Riqueza

Outras situações se poderiam citar, limitámo-nos contudo a enumerar um conjunto de indicadores, também eles positivos, que nos podem ajudar a desmontar os cenários de crise, pantanal e catástrofe que nos querem impingir.

Taxa de Desemprego (dados do INE)

Mês / Ano

1995

1996

1997

1998

1999

2000

Janeiro

7,5 %

7,4 %

7,2 %

6 %

4,8 %

4 %

Junho

 

 

 

 

 

3,8 %

 

Tenha-se em atenção os efeitos sociais positivos que este indicador induz.

População activa (dados do INE)

A população activa teve um crescimento médio de 3,4 % , nos últimos dois anos, atingindo os 51% no primeiro semestre de 2000 correspondendo à criação diária de 200 novos empregos. 

Comércio a retalho  – (Dados do INE)

Nos últimos 12 meses o comércio a retalho de Bens Duradouros cresceu 7,4%, revelador de estável e crescente capacidade financeira da população.

Investimento estrangeiro em Portugal em milhões de contos..

1998

1999

2000  ( 4 meses )

2.282

2.319

1.068

Fonte : Banco de Portugal

Este indicador é importante porque revela um retorno do investimento estrangeiro, com reflexo na criação de empregos, e na evolução tecnológica, sendo também um factor importante para o equilíbrio da balança de pagamentos externa

Vendas na Indústria (dados do INE)

De acordo com o INE a indústria registou um crescimento nominal de 7,5% no volume de negócios, no primeiro semestre de 2000, com destaque para o mês de Junho que foi de 12%.

De referir que 7,7% das vendas corresponderam a bens de investimento.

Indicadores do conjunto da Economia Nacional (dados do IPI)

O Índice Coincidente Nacional (ICN), que reflecte a situação actual da economia portuguesa apresentou um crescimento de 3,6% durante os últimos 12 meses e referentes ao mês de Maio.

Este índice que integra sete coordenadas teve cinco positivas (emprego, consumo de gasolina, vendas de aço, produção industrial de bens de investimento e receita do IVA), duas negativas (produção industrial de bens intermédios, ocupação de camas no turismo).

Quanto ao Índice Avançado Nacional (IAN), que dá uma perspectiva da performance da economia portuguesa, antecipando-a em 14 a 16 meses, registou um ganho de 0,8% de Abril a Maio.

Estes dados vêm publicados na última edição do Expresso.

Não à Teoria do Oásis 

Não se pretende com este texto reeditar a teoria do oásis, nem justificar a actuação do Governo, mas sim permitir uma melhor leitura de um conjunto de indicadores menos positivos, que feitos isoladamente têm levado a mistificações com consequências perversas.

Contudo não podemos deixar de referir que os diversos responsáveis governamentais, nestas áreas têm-se revelado incapazes de esclarecer os cidadãos.

Não podemos esquecer que o sistema económico capitalista, baseado na oferta e na procura, está sujeito a crises face à forma desregulamentada do funcionamento de muitos dos seus segmentos.

No entanto, não podemos é estar a encontrar crises de forma artificial, sob pena de que quando ocorram a população não acredite, na convicção de que mais uma vez os enganam, correndo-se o risco de não surtirem efeito os apelos à contenção como forma de ultrapassar uma verdadeira crise, tal como na história do rapaz e do lobo.

São ainda muitos e graves os problemas dos portugueses, mas por favor, contribuam para a sua solução e não para o seu agravamento, como foi caso paradigmático do assalto a uma artista de teatro, recentemente ocorrido, que permitiu a alguns lideres partidários da oposição passar a mensagem, para o estrangeiro, de que o país estava dominado por marginais, afectando a nossa imagem turística, com graves reflexos económicos.

É do conhecimento que a criminalidade no nosso país é cinco vezes inferior à do Reino Unido e das mais baixas da Europa.

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