Publicado por: Duarte | 4 Dezembro, 2001

Há Quem Confunda Desejos Com Realidades

Em Setembro de 1999 publiquei um artigo de opinião, de análise técnico-política sobre a forma de votação dos eleitores.

Com o presente texto, pretendo fazer uma análise aos resultados eleitorais no Município de Odivelas (valores que, em percentagem, são similares aos do Município de Loures), conjugada com a interpretação técnico-política sobre o sentido do voto dos eleitores.

Para o efeito torna-se importante clarificar as noções de “eleitorado base ou natural” de cada partido e de “desmotivação” do eleitor, para que se entendam os resultados eleitorais em cada acto eleitoral.

Referia já, nessa ocasião, que “hoje está claramente demonstrado que as pessoas votam, ao longo da sua vida, sempre na mesma força política, salvo em duas situações”:

Quando estão colocadas perante o que tecnicamente de designa por interesse cruzado ou quando, por desmotivação em relação à sua força política, decidem abster-se”.

São exactamente estas duas situações, os “interesses cruzados” e a “desmotivação”, que a seguir pormenorizamos, que levam à alteração dos resultados eleitorais em prazos relativamente curtos, para órgãos diferentes.

O eleitor, quando deixa de estar perante as situações referidas, reassume o seu sentido de voto tradicional.

De facto, as pessoas votam sempre na mesma força política pois, após terem assumido a sua primeira posição política, vão pretender demonstrar, a si próprios, que não se enganaram, passando a ter uma postura que os sociólogos designam por “bloqueio às mensagens do outro“, encontrando sempre justificação para a escolha que assumiram inicialmente.

As pessoas bloqueiam às mensagens que ponham em causa os seus valores, funcionando aqui, claramente, o “preconceito“.

Os filhos não aceitam uma mensagem que diga mal dos pais, um cristão reage da mesma forma, quando se põe em causa a mensagem de Jesus Cristo ou um muçulmano em relação aos ensinamentos de Maomé.

Esta realidade tem em conta que as nossas opções, sempre que temos que tomar uma decisão ou escolha, resultam de um exercício mental de rejeição do que não queremos. O que fundamentou a rejeição, continuará a condicionar fortemente as decisões futuras.

É neste contexto que o “interesse cruzado” desempenha um papel determinante na alteração dos resultados eleitorais, ao levar, naquele acto eleitoral, um eleitor a votar de forma diferente do habitual.

São diversas as situações que revestem a figura do “interesse cruzado“, nomeadamente, a promessa de dar um emprego se for eleito, ou de que construirá um pavilhão (ou qualquer outros equipamento), para os moradores de uma povoação a quem se está a fazer a promessa. Promessa específica a uma classe profissional ou empresarial, também pode constituir “interesse cruzado”.

O voto útil é também uma forma de “interesse cruzado“, levando muitos eleitores a votar no “mal menor“, mas melhor posicionado para impedir a vitória de quem não se pretenda vitorioso. A imagem mais “forte” ou de maior credibilidade ou de capacidade de um candidato, pode funcionar como “interesse cruzado“.

A outra situação que tem peso na alteração dos resultados eleitorais é a abstenção, resultante da “desmotivação” dos eleitores, que raramente atinge da mesma forma ou, simultaneamente, diferentes forças políticas.

Posta esta questão prévia, importa analisar os resultados eleitorais das três principais forças políticas no actual Município de Odivelas, para a Assembleia da República, tendo em conta que são as eleições de âmbito nacional, aquelas que funcionam melhor como aferidor dos eleitorados “base/naturais” de cada partido.

É fácil verificar que o PS tem o dobro do eleitorado do PSD (+43%), e o triplo do da CDU (+73%).

Valores idênticos encontram-se também nas eleições de âmbito nacional, para o Parlamento Europeu, mais 45% e 68%, respectivamente.

Analisando, contudo, os resultados eleitorais para as autarquias, nas freguesias que constituem o actual Município de Odivelas em 1993 e 1997, correspondentes ao gráfico seguinte, vemos que para a Câmara, a CDU duplica a sua votação e o PS e PSD têm uma redução de +/- 15.000 votos cada.   

De referir que para a Assembleia Municipal e para as Assembleias de Freguesia o PS em relação à CDU, teve mais 1034 votos em 1993 e mais 964 em 1997, no primeiro caso, e menos 358 votos em 1993 e mais 1.017 votos em 1997 que a CDU, nas Assembleias de Freguesia.

O que desde sempre tem intrigado os “comentadores” destas matérias é o porquê desta disparidade?

Os estrategas do PS e do PSD tiveram sempre grande dificuldade em encontrar as causas. Uma análise mais cuidada teria permitido, há muito, determinar que o “interesse cruzado” exercido pela CDU, sobre o eleitorado das outras forças políticas, foi o da promessa de “recuperar e legalizar os bairros clandestinos” (AUGIs), numa altura em que o PS não tinha uma política definida para esta área e o PSD dizia que eram para demolir, confundindo bairros clandestinos com bairros degradados (1978/79).

Não se teve em conta que este “interesse cruzado” estava a ser exercido sobre uma população alvo de 100.000 habitantes, ou seja, 1/3 dos 300.000 habitantes que, na ocasião, o Concelho de Loures tinha.

Esta situação é particularmente evidente nas zonas onde predomina a construção clandestina, onde a CDU tem acréscimos de votação entre 50% a 100%, enquanto que nos municípios onde não existe construção clandestina esse crescimento da votação varia entre 1% a 5%, salvo raras excepções em que o “interesse cruzado” reveste outras figuras.

As principais forças políticas, na oposição, não foram capazes de perceber que as centenas de milhares de cidadãos que construíram clandestinamente, sentiram a necessidade de defender a família, o seu património, as poupanças, o trabalho de sábados, domingos e feriados e de que a casa era a segurança do lar, o tecto e o bem estar da família.

A aposta muito forte da CDU, junto destes eleitores naturais do PS e PSD, esteve na base do interesse cruzado que os tem levado, compreensivelmente, a votar naquela força política.

Na base deste quadro, analisando os resultados eleitorais das freguesias de Loures e, agora, de Odivelas, percebe-se bem que não tendo a freguesia de Moscavide nenhuma AUGI, o PS foi sempre maioritário, assim como na freguesia da Portela, neste caso maioritariamente PSD, ou a freguesia de Lousa, que também não tendo AUGI’s, a CDU nunca ganhou. Nos casos de Fanhões e Bucelas, a CDU só veio a obter a sua presidência depois de ser maioritária na Câmara há mais de um mandato e de ter criado outro tipo de “interesse cruzado“, que foi o caso de apresentar “cabeças de lista” independentes e credíveis que, na primeira situação, tinha sido presidente da Junta numa lista do PS.

O caso de Santo António dos Cavaleiros também é revelador pois, sendo um núcleo urbano, na sua quase totalidade, de construção legal, tem votado maioritariamente PS.

Mas o caso paradigmático verificou-se na freguesia de Odivelas antes da sua divisão em quatro. Quando era a grande Odivelas ganhava, sistematicamente a CDU, mesmo quando trocava de cabeça de lista. Mas no ano em que foi criada a freguesia da Pontinha, por desanexação de Odivelas, e levou 16 bairros de génese ilegal, assim como as freguesias de Famões e da Ramada, com as suas 22 e 23 AUGI’s, respectivamente, nesse mesmo ano, a CDU perdeu Odivelas, e nunca mais a conseguiu ganhar, pois esta passou a constituir um núcleo urbano maioritariamente legal.

A CDU manteve, no entanto, aquelas freguesias em que o peso do eleitorado dos bairros de génese ilegal era determinante.

Vale a pena referir que a forma de anular um “interesse cruzado” é prometer, quando possível, o mesmo. Se todas as forças políticas o fizerem, acabam por ficar cada qual com o seu próprio eleitorado. Deste modo, as estratégias das diferentes forças políticas será, então, o de criar novos “interesses cruzados“.

Compreende-se, agora, a alteração progressiva da posição do PS e PSD, nesta matéria, defendendo a recuperação e legalização das AUGI’s que, no Município de Odivelas, abrangem 45.000 habitantes.

A Comissão Instaladora do Município de Odivelas, de presidência do PS, tem imprimido uma grande dinâmica nesta área, como o revelam os dados entretanto publicados, com 30 bairros legalizados em dois anos, muitos que procuravam atingir este objectivo há mais de 20 anos, e mais de 1800 casas já licenciadas, o que tem permitido libertar esses moradores da dependência em que se encontravam, para já não falar dos apoios financeiros, para infra-estruturas e equipamentos que, neste período, já ultrapassam o meio milhão de contos (cerca de 2.500.000 €).

Não pretendo, com esta análise, que se conclua que os resultados eleitorais se resumem à problemática das AUGI’s, pois outros factores têm de ser tidos em conta. Não se pode, no entanto, esquecer que os “interesses cruzados” revestem muitas e variadas figuras, em que os candidatos e o seu trabalho são peças importantes.

O determinante é que não se confundam desejos com realidades

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