Publicado por: Duarte | 7 Março, 2003

A Guerra, a Paz e Maquiavel

A comunicação social tem vindo a divulgar, até à exaustão, os preparativos para uma  guerra no Iraque, dando a mesma por adquirida face à determinação dos Estados Unidos da América em a promover, e à sua condição de super potência.

Os motivos evocados, pelos EUA, revelam-se cada vez menos consistentes aos olhos de grande parte da opinião pública mundial, como o evidenciam as sondagens e as posições públicas de personalidades com grandes responsabilidade institucionais nos seus países e instituições, como é o caso de Jacques Chirac,  Gerhard Schoerder,  Vladimir Putin , Inácio Lula, Kofi Annan, Nelson Mandela e João Paulo II, entre muitos outros.

Alguns opositores à guerra evocam em defesa das suas posições, valores fundamentais como o direito à vida e à paz, outros têm em mente interesses estratégicos da Europa, em particular do projecto da União Europeia, antagónico da hegemonia dos EUA.

Os primeiros tendo como primado valores cristãos e de uma forma mais abrangente de outras correntes religiosas, consideram que a guerra é a negação da paz, com o seu horror de sofrimento humano, de devastação económica e ambiental, e que nada se sobrepõe ao direito à vida.

Os defensores do projecto europeu, cuja natureza e valores destacam o respeito pela dignidade humana, a liberdade, democracia, estado de direito e direitos do homem,  visam uma sociedade pacífica, praticando a tolerância, a justiça e a solidariedade.

Como objectivo, o projecto europeu assume a promoção da paz, dos seus valores e do bem-estar dos seus cidadãos, e da justiça social.

Os valores humanistas, políticos e sociais que irradiam do projecto europeu têm vindo a constituir um farol que atrai a atenção dos povos de todo o mundo, com destaque para os que se sentem oprimidos e subjugados, ou que aspiram a uma melhor situação económica e social.

Neste quadro, o projecto europeu está em clara oposição aos interesses império económico que os EUA representam. Os interesses estratégicos da Europa não são coincidentes com os interesses dos EUA, como facilmente se comprova com a necessidade que a UE teve, de criar um espaço único sem barreiras, um parlamento europeu, uma constituição, directivas comunitárias vinculativas, moeda única, um exercito e um conjunto de políticas económicas, sociais, educativas, administrativas e culturais, com respeito pela diversidade cultural e linguística, assim como de diferentes formas de organizar a produção, partindo do princípio de que é na base da competição técnica, económica, cultural e política que a sociedade se desenvolve.

Numa lógica de definição de estratégia, qualquer discípulo de Maquiavel (um dos grandes mestres da ciência política), que se identifique com as duas posições descritas, a defesa da paz e o projecto europeu, concluirá que é indiferente  que a decisão dos EUA seja a guerra ou a paz, para este conflito com o Iraque.

Se a opção for a paz, prevalecerão os valores humanistas, dando lugar à diplomacia, ao diálogo, e  ao direito internacional, que estão na base das proposta dos grandes lideres europeus, de que me permito destacar o Papa João Paulo II, consolidando o papel de liderança da UE.

Se a opção fôr a guerra, mesmo que vitoriosa, apressará a queda do último Império que os EUA representam, pois é evidente que o seu isolamento, nesta opção, perante a comunidade internacional, terá repercussões devastadoras difíceis de reparar, pois a imagem que subsiste, neste processo, é  a pretensão de controlar as reservas petrolíferas do Iraque, que, como sabemos, são as segundas maiores do mundo, não obstante o Iraque ser “governado” por um ditador que viola os mais elementares direitos democráticos do seu povo.

Também não é líquido que esta guerra a ocorrer, se é que ocorre, venha a resultar em grandes benefícios económicos para a economia dos EUA, pois não se pode confundir os benefícios das empresas produtoras de armas com a economia de um país. Produzir material de guerra e vendê-lo a outros países, é o mesmo que vender tractores. É um bem que se reproduz, pois recebe-se, em troca, bens e serviços ou matérias primas.

Mas produzir material de guerra, e este ser utilizado pelo país que o produziu, é o mesmo que, após a sua produção, ser colocado no caixote de lixo da fábrica, pois foi um bem que não se reproduziu.

Nesta eventual guerra, os EUA não têm parceiro, pois é duvidoso que o governo Inglês consiga manter a sua actual posição, com a crescente oposição da opinião publica do seu país.

Em artigo que publiquei em 1998, por ocasião da guerra do Golfo, em que referia que os EUA têm reservado para si o papel de polícias do mundo, sem que para tal tenham recebido mandato da Nações Unidas, recordava as pinchagens nas paredes, no período de 75/76, com uma frase dos anarquistas que dizia: “quem nos defende são os polícias. Mas quem nos defende dos polícias?“.

Os EUA  “perdem” esta batalha aceitando o primado da negociação e da paz como o defende a UE. “Perdem”, igualmente, fazendo a guerra à revelia da comunidade Internacional.

Desta forma, qualquer das duas situações destacam, aos olhos do mundo, que a defesa dos valores universais dos povos está com a União Europeia, evidenciando assim o seu papel de reserva moral da Humanidade.

Parafraseando a fábula, podemos concluir que os EUA serão “presos” por ter cão ou por não o ter, daí o concluir ser indiferente, em termos estratégicos, e na perspectiva da Europa, qualquer dos desfechos já equacionados.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: