Publicado por: Duarte | 13 Novembro, 2003

Ele Há Coisas do Diabo…

Todos nos interrogamos sobre factos de difícil compreensão, desistindo da sua explicação quando entendemos que os mesmos não nos afectam ou julgamos que não nos afectam.

Nestes dias conturbados que o País atravessa, dois factos têm sido evidenciados que, sem me afectarem pessoalmente, fiz questão de entender o que os motivavam e quais os objectivos e estratégias que estavam por detrás dos seus promotores.

  • O primeiro facto relaciona-se com a insistência do Dr. Durão Barroso em pretender a realização de um referendo sobre o projecto de Constituição Europeia, no mesmo dia em que se realizam eleições para o Parlamento Europeu;
  • O segundo, a persistente campanha que vem sendo promovida, de procurar criminalizar os principais dirigentes do maior Partido da oposição, só estes e não outros de menor projecção deste Partido.

Não estando pessoal, política ou profissionalmente envolvido nestas questões, não resisti, contudo, de tentar encontrar uma explicação para estes comportamentos que se revelavam aparentemente sem nexo, mas que, numa análise cuidada, levaram-me a concluir estarmos perante objectivos e estratégias claramente programadas, procurando atingir fins, que por não confessados revelam a sua ilegitimidade.

Vejamos então o primeiro caso. O Dr. Durão Barroso insiste na realização de um Referendo sobre a eventual aprovação de uma Constituição Europeia, no mesmo dia das eleições para o Parlamento Europeu, sabendo, como se sabe, que a nossa actual Constituição não o permite, salvo se esta for alterada com o acordo do Partido Socialista.

Já era do conhecimento público que a maioria política que suporta o Governo manifestava grande preocupação pelo facto de o País entrar em permanentes campanhas eleitorais, durante dois anos, a partir de Março de 2004 com a pré-campanha das eleições para o Parlamento Europeu, em Junho do mesmo ano, entrando logo após a contagem dos votos; em Julho, na pré-campanha das eleições para as Assembleias Regionais dos Açores e Madeira; que se realizam em Outubro.

No princípio de Julho de 2005 inicia-se a pré-campanha das eleições para as Autárquicas, que se realizam desta vez em Outubro, como o determina a nova Lei Eleitoral, procedendo-se, de imediato, Novembro de 2005 a campanha para a eleição Presidencial, marcada para Janeiro de 2006, e sem interrupção ocorre a pré-campanha eleitoral para as Legislativas (Assembleia da República) em Março de 2006.

Fácil é de ver que o único período, de que a maioria governamental tinha para respirar de alívio, sem estar sujeita a campanhas eleitorais, debates, comícios, e regras restritivas que a lei impõe a quem exerce o poder, para fazer publicidade sem resposta da oposição, são os oito meses que vão de Novembro de 2004 a Junho de 2005.

Ou seja, o único período disponível para a realização do Referendo sobre a Constituição Europeia são estes oito meses que, a serem destinados a este acto comprometerão, seriamente, as estratégias de sobrevivência política da actual coligação da maioria governamental, tanto mais que a situação económica e social que o País atravessa, e que tudo indica se manterá nos próximos dois anos, não o favorecem.

Está aqui, no meu entendimento, a explicação para a insistência do Dr. Durão Barroso para que o Referendo se efectue em conjunto com as eleições para o Parlamento Europeu, apesar de diversas consultas à população esta ter discordado da simultaneidade desta solução.

O segundo facto, referente à persistente campanha que pretende identificar os principais dirigentes do Partido Socialista com actos e comportamentos criminais intrigava-me por não abranger outros dirigentes do PS que também tinham exercido funções no anterior Governo.

A explicação começou a ser evidente quando me chamaram a atenção para um artigo de Inês Pedrosa, na revista do “Expresso”, de 1/11/03, a propósito do livro “Salazar – A construção do Mito” de Helena Matos, que a dado trecho refere que ” Salazar percebeu cedo que era muito mais eficaz transformar os opositores em criminosos do que escondê-los debaixo do tapete“.

Ou seja, a estratégia descrita procura demonstrar que Salazar sempre procurou passar a mensagem de que os líderes da oposição eram maus não por terem más ideias mas porque eram criminosos.

Fácil é agora de perceber qual a estratégia que “coincidiu” com o início desta coligação Governamental, quando começa logo por tentar criminalizar o Dr. Ferro Rodrigues pelas consequências dos prejuízos do abatimento do túnel do Metro no Terreiro do Paço; as acusações a Paulo Pedroso associando-o, somente em 2003, a um processo que estava identificado na Judiciária em 1999; a divulgação de escutas telefónicas ao Dr. Ferro Rodrigues, que não tendo qualquer valor para o processo em causa, visavam identificá-lo com linguagem marginal e inaceitável, e agora o anúncio público que o Ministro Bagão Félix mandou abrir um Inquérito aos actos administrativos relativos à abertura de Lojas de Solidariedade, quando Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues exerceram responsabilidades no Ministério do Emprego e Solidariedade Social.

Muitos outros ex-governantes foram escutados mas nada foi divulgado. Então, porquê só o nº 1 e nº 2 do Partido Socialista são alvo destes ataques sistemáticos e cirúrgicos?

Dizer mal ou discordar das propostas e convicções de um dirigente político situa-se na lógica democrática das democracias modernas, mas estabelecer como estratégia política, a identificação dos opositores políticos como criminosos é uma perversão que, como vimos Salazar já a praticava, é de todo inaceitável, pois põe em causa os fundamentos democráticos da nossa Constituição, nomeadamente, a existência de condições efectivas que permitam a materialização do “princípio da alternância” no exercício do Poder.

Torna-se evidente que as duas questões que coloquei não estão desligadas uma da outra.

Os jovens estrategos dos gabinetes de “marketing” partidário, como refere Inês Pedrosa, esqueceram-se daqueles que estão nestas andanças há muitos anos e como diz o ditado popular “o diabo sabe muito, não por ser mais esperto mas por ser velho“.

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