Publicado por: Duarte | 30 Abril, 2004

Ali, o Cómico

Um articulista da nossa Comunicação Social referia esta semana, o caricato que revestiam as afirmações do então Ministro da Informação iraquiano, Muhammed Al- Sahaf, que dizia que ” a guerra ainda não começou” e que os tanques americanos já estavam nas ruas de Bagdade, o que lhe valeu o titulo de “Ali, o cómico” atribuído por alguma comunicação social.

Perante as últimas notícias, que vêm do Iraque, somos levados a pensar sobre  quem é que estava a fazer o papel de bôbo , se Muhammed Al-Sahaf ou os que nos pretenderam vender uma operação militar “triunfante“, em nome da segurança internacional, contra armas de destruição maciça e o fim de um tirano.

As imagens de violência a que estamos a assistir, diariamente, nas televisões, são de uma brutalidade só comparável aos bombardeamentos com aviões e mísseis americanos e ingleses, no início da operação no Iraque, em que morreram milhares de civis (os chamados “danos colaterais“), com destaque para as crianças, mulheres e idosos.

O Presidente do Parlamento Europeu, em recentes declarações públicas, referiu que “é claramente exagerado comparar a presente guerra no Iraque com a guerra do Vietname, porque a actual guerra do Iraque é muito pior“.

Será que afinal “Ali, o cómico” tinha razão quando dizia que “a  guerra ainda não começou“, como o demonstra o elevado número de mortos das tropas de ocupação do Iraque e o elevado nível de destruição e sofrimento de milhares de homens, mulheres e crianças, sem fim à vista ?

Não posso deixar de transcrever algumas partes de um artigo de opinião que publiquei, em Fevereiro de 2003,  40 dias antes da invasão do Iraque:

Numa lógica de definição de estratégia, qualquer discípulo de Maquiavel (um dos grandes mestres da ciência política), que se identifique com a defesa da paz e o projecto europeu, concluirá que é indiferente  que a decisão dos EUA seja a guerra ou a paz, para este conflito com o Iraque.

Se a opção for a paz, prevalecerão os valores humanistas, dando lugar à diplomacia, ao diálogo e  ao direito internacional, que estão na base das propostas dos grandes líderes europeus, de que me permito destacar o Papa João Paulo II, consolidando o papel de liderança da UE.

Se a opção for a guerra, mesmo que vitoriosa, apressará a queda do último Império que os EUA representam, pois é evidente que o seu isolamento, nesta opção, perante a comunidade internacional, terá repercussões devastadoras difíceis de reparar, pois a imagem que subsiste, neste processo, é a pretensão de controlar as reservas petrolíferas do Iraque que, como sabemos, são as segundas maiores do mundo, não obstante o Iraque ser “governado” por um ditador que viola os mais elementares direitos democráticos do seu povo“.

A recente vitória eleitoral de José Luis Zapatero, em Espanha, veio reforçar a corrente europeísta, na qual os valores humanistas, políticos e sociais, que irradiam do projecto europeu têm vindo a constituir um farol que atrai a atenção dos povos de todo o Mundo, com destaque para os que se sentem oprimidos e subjugados ou que aspiram a uma melhor situação económica e social.

Neste quadro, o projecto europeu , agora com 25 países, está em clara oposição aos interesses do último Império que os EUA representam.

 Os interesses estratégicos da Europa não são coincidentes com os interesses dos EUA, como facilmente se comprova com a necessidade que a UE teve  de criar um Espaço Único sem barreiras, um Parlamento Europeu, uma Constituição, Directivas Comunitárias vinculativas, Moeda Única, um Exército e um conjunto de Políticas Económicas, Sociais, Educativas, Administrativas e Culturais, com respeito pela diversidade cultural e linguística, assim como de diferentes formas de organizar a produção, partindo do princípio de que é na base da competição técnica, económica, cultural e política que a sociedade se desenvolve.

No citado artigo referia ainda que  “Os EUA  “perdem” esta batalha aceitando o primado da negociação e da paz como o defende a UE. “Perdem”, igualmente, fazendo a guerra à revelia da comunidade Internacional.

Desta forma, qualquer das duas situações destaca, aos olhos do mundo, que a defesa dos valores universais dos povos está com a União Europeia,  evidenciando o seu papel de reserva moral da Humanidade.”

A presente incapacidade das tropas americanas , expulsas de algumas cidades iraquianas, leva-nos a perguntar quem é que fez o papel de cómico, Al-Sahaf ou o Sr. Bush e  alguns políticos e articulistas portugueses que têm vindo a defender, sem se saber bem porquê, as posições dos EUA ?

A pretensão dos EUA de reservarem  para si o papel de polícias do mundo, sem que para tal tenham recebido mandato da Nações Unidas, leva-me a repetir a frase dos anarquistas, no período de 75/76, quando diziam: “quem nos defende são os polícias. Mas quem nos defende dos polícias?“.

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