Publicado por: Duarte | 28 Maio, 2006

Uma Carta a Paulo Bento

Por ocasião da saída de Peseiro, como treinador do Sporting, escrevi uma carta a Paulo Bento, actual treinador leonino.

As considerações que fazia, à forma de actuação de Peseiro, aplicam-se, inteiramente, ao seleccionador dos sub-21 que disputaram o mundial, pois não é a praticar futebol da década de 80 que se ganham jogos, nos dias de hoje.

Reproduzo assim, a referida carta, porque permite caracterizar a forma de jogar de Agostinho de Oliveira, praticando um futebol clássico (rendilhado) que, actualmente, já só resulta com equipas com muitos criativos, como é o caso dos brasileiros, recheados de jogadores malabaristas, quase artistas de circo.

Caro amigo Paulo Bento

Pretendo com este texto sintético e telegráfico, que lhe dirijo, duas coisas:

  • -A primeira, dar-lhe os parabéns pela oportunidade que tem, de dirigir a equipa principal do Sporting, desejando-lhe êxito nessas funções;
  • -A segunda, dar-lhe a minha visão pela forma como Peseiro dirigia a equipa, praticando um futebol dos anos 80/90 tal como Carlos Queirós, de que era discípulo, cujos os maus resultados foram visíveis no Real Madrid.

Não sou técnico de futebol mas sim espectador atento, mas sendo licenciado em Ciência Política estou em excelentes condições para analisar os jogos na base da estatística, da eficácia e da eficiência.

Pela análise estatística dos jogos é possível concluir que mais de 40% dos golos, em qualquer campeonato europeu, resultam de lances de “bola parada“.

No entanto, era lamentável ver como o Sr. Peseiro desqualificava estes lances ao defender, frequentemente, que os mesmos fossem executados com um passe para o jogador mais próximo, situação que ocorria também com a “marcação de cantos“.

A marcação directa para a “grande área” dos “livres e cantos” não só dão golos como, pela imprevisibilidade das situações, dão origem a novos lances de “bola parada“.

A sub estimação de Peseiro pela importância dos lances de “bola parada” levou-o a não preparar a equipa para os marcar e mais grave ainda, a saber defender-se deles.

Outro dado que a estatística nos dá, é o de que quem ganha o campeonato não é o que marca mais golos mas sim quem sofre menos. Veja-se o Benfica, o ano passado, segunda equipa com menos golos sofridos e muito longe de ser a que mais golos produziu.

Quanto à eficácia, nos resultados, tem sido medíocre, só não sendo mais graves pela grande qualidade dos jogadores.

Importa então encontrar as causas para a incapacidade que a equipa tem tido para marcar golos ou para evitar sofre-los. A resposta está no estilo de jogo, de “passes entre jogadores“, defendido por Pesseiro, que permite que o adversário reconstitua a sua defesa, dificultando por sua vez a penetração no meio campo adversário, onde chegam a estar 21 jogadores.

Todas as grandes equipas praticam hoje o chamado futebol directo, ou seja criando situações de imprevisibilidade, permitindo que os avançados tenham espaço para trabalhar por se encontrar na zona um pequeno número de jogadores, e os defesas do adversário, em situações de aperto, cometem erros sem ter por perto quem os apoie ou corrija.

O futebol directo tem ainda a vantagem de manter os defesas da equipa que ataca no seu meio campo, evitando as situações de contra-ataque, com o meio campo totalmente desguarnecido, como frequentemente ocorreu com o Sporting, com o Ricardo sozinho frente ao adversário.

O futebol praticado por Peseiro, de utilização sistemática de “passes entre jogadores“, procurando encontrar condições de penetração no campo do adversário, tem não só o inconveniente de permitir que este reconstitua a defesa como obrigava a defesa do Sporting a subir, deixando o meio campo desguarnecido, propiciando contra-ataques bem sucedidos.

É inquestionável que a troca de “passes entre jogadores” pode e deve desempenhar um papel importante de estabilidade na equipa e domínio do meio campo, assim como na “posse da bola“, mas deve ser de utilização limitada pois estes lances são actos previsíveis, enquanto que os “passes em profundidade” são os que criam acções de grande imprevisibilidade. 

Por último, quanto à eficiência, esta corresponde à forma de conseguir atingir os mesmos objectivos ou seja, ser eficaz, meter golos com menor esforço, utilizando menos meios, não impondo que toda a equipa tenha que subir para um ataque nem que tenha que recuar para se pôr à defesa.

A capacidade física da equipa deve ser encaminhada para a função que cada um tem em campo, os avançados para marcar golos e os defesas para os evitar.

Naturalmente que a entreajuda de avançados, meio campo e defesas, impõem-se em algumas situações, mas não pode esta ser uma forma vulgar de intervenção por levar a um desgaste físico elevado, em funções atribuídas a outros, condições físicas que depois faltam para o papel que cada um tem que desempenhar.

A eficiência é isto, utilizar os meios com o menor esforço físico possível, para que o jogador (avançado, médio ou defesa), consiga manter essa capacidade física, o maior tempo possível, na função que lhe está cometida.

Esta visão que pretende ser pragmática e objectiva, não ignora a importância da capacidade técnica e criativa dos jogadores que todos reconhecem existir no plantel do Sporting, pelo que o insucesso da equipa só pode ser atribuído à estratégia utilizada pelo treinador.

Quem comigo convive desde sempre ouviu esta interpretação da forma como o Peseiro dirigia a equipa do Sporting, que os resultados vieram confirmar, o que não é agradável para um sportinguista como eu.

Espero que o contributo, de formas diferentes de ver esta problemática lhe permita atingir a eficácia que desejamos nos resultados do Sporting.

Com votos de um bom trabalho.   ( DNC  21-10-05)

Ter bons jogadores não chega, é necessário que ao seu conjunto sejam estabelecidas formas actualizadas de intervenção, o que não sucedeu na actuação dos sub-21.

Alguns dirigentes fazem “aposta” nos jogadores, outros nos árbitros, eu defendo que se “aposte” nos jogadores e nos treinadores que tenham estratégias actuais.


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