Publicado por: Duarte | 17 Setembro, 2008

A Crise Económica

O tema “crise económica” tem tido destaque diário em todos os órgãos de comunicação social e nas conversas dos cidadãos, onde se tenta imputar responsabilidades para as dificuldades económicas que atravessamos, o Estado, as empresas e os cidadãos.

Alguns partidos políticos culpam o governo português como forma de obter fáceis dividendos eleitorais.

O governo, sem esconder as dificuldades internas, que são muitas, invoca a crise económica internacional, que por tabela nos atingiu.

Quanto ao cidadão menos informado responsabiliza tudo e todos pelas dificuldades que atravessa no seu dia a dia. Importa assim que se faça uma análise mais rigorosa, de forma a clarificar esta questão, para não andarmos a disparar em todas as direcções.

É já inquestionável que os países mais desenvolvidos, EUA, Japão e União Europeia vivem a maior crise económica, depois da Grande Depressão de 1929/1933, que tinha sido até aí a maior crise de sempre, pela falência de milhares de grandes e médias empresas, uma inflação galopante e milhões de desempregados, com reflexos no nível de vida da população em geral, que não só dos trabalhadores.

Os dados não oferecem dúvidas. Nos EUA, só em Agosto perderam-se 84.000 empregos e nestes 8 meses de 2008, 605.000 empregos, quando em condições normais o país criava 150.000 mensais. O desemprego que situava em torno dos 3% está agora nos 6,1%.

Todo este processo teve inicio com o colapso em Agosto de 2007, nos EUA, das hipotecas do crédito à habitação (subprime), que levou mais de 20 pequenos bancos à falência e a eminência de falirem dois dos gigantes do crédito bancário hipotecário, o segundo e terceiro em dimensão, o Fannie Mae e o Freddie Mac, que só não ocorreu porque o governo americano decidiu “nacionalizar” estas duas instituições para evitar a sua bancarrota, injectando biliões de dólares dos dinheiros públicos para evitar a derrocada do sistema financeiro dos EUA.

No entanto as más notícias na América não paravam por aqui, o Indy Mac também foi alvo de intervenção directa do Tesouro Americano, para evitar a sua derrocada e no segundo trimestre deste ano, o banco de investimento Bear Stearns foi adquirido pelo JP Morgan, num processo que também teve intervenção de dinheiros públicos.

Por falta de disponibilidade financeira o governo americano já não conseguiu salvar da falência o Lehman Brothers, o quarto maior banco, tendo sido evitada a falência da Américan Internactional Group (AIG), que é a maior companhia de seguros americana, porque o Governo injectou nela 85 mil milhões de dólares, assumindo 85% do capital.

Esta decisão teve em conta que nos EUA não existe Segurança Social Pública, o sistema de pensões é privado e a AIG é onde a maioria dos americanos têm capitalizado as suas reformas, que deixariam de as ter se esta seguradora falisse.

A par destes grandes grupos económicos, nos EUA entraram em falência dezenas de milhares de pequenas e médias empresas.

O Brasil e a Argentina deixaram de utilizar o dólar nos seus circuitos comerciais e muitos outros países, sem o ter declarado passaram a fazer o mesmo, o que agravou a situação financeira dos EUA, retirando credibilidade à sua moeda.

A falência do sistema financeiro americano tem vindo a atingir o Japão e a Europa.

No caso do Japão a sua economia teve uma queda de 3% entre Maio e Junho deste ano, face ao mesmo período de 2007, constituindo a maior queda desde de 2001.

Quanto á economia europeia está a entrar em recessão como é o caso da Alemanha, Espanha (com o desemprego a subir a cima dos 10%), Itália (graves conflitos sociais e estagnação económica), Inglaterra (cujo défice público regressou aos níveis de há 38 anos, altura em que o governo de então teve que recorrer a um programa de emergência do FMI) e a Irlanda (a situação de recessão mais grave da Europa), situações acompanhadas de um rol de falências e compras dos pequenos bancos pelos grandes.

A justificação do Comissário europeu Joaquim Almunia aponta para os preços elevados da energia (petróleo), dos produtos alimentares (cereais) e agora da crise dos mercados financeiros (subprime).

Perante este cenário, que poderia ser muito mais exaustivo, ainda será possível que se diga que as dificuldades económicas no nosso país nada têm a ver com a já designada, pela ONU, crise económica mundial ?

Quanto a Portugal é inquestionável que vínhamos a recuperar economicamente, nos últimos três anos, após ter sido posto as Contas públicas em ordem como se descreve no quadro seguinte:

Anos

Défice Orçamental Formação Bta Capital Fixo Taxa de Desemprego PIB – ProdutoInterno Bruto

2003

– 5,3 %

– 7,2 %

6,3 %

– 0,8 %

2004

– 5,5 %

+ 5,1 %

6,7 %

+ 1,5 %

2005

– 6,0 %

+ 1,0 %

7,6 %

+ 0,9 %

2006

– 3,9 %

+ 2,5 %

7,7 %

+ 1,4 %

2007

– 2,7 %

+ 4,4 %

8,0 %

+ 1,9 %

1º Semest 2008

– 2,2%

+ 3,5 %

7,2 %

+ 0,8 %

 

São assim evidentes os reflexos que a crise económica e financeira mundial estão a ter na nossa economia, não obstante, revelarem-se inferiores aos que ocorrem na maioria dos países da UE, de tal modo que o crescimento do PIB em Portugal, no 2º trimestre de 2008, foi de 0,5 décimas superior à média dos países da zona euro, permitindo que, pela primeira vez nestes últimos 6 anos, tenhamos convergido em relação aos outros países da zona euro.

O problema que nos deve preocupar é o facto de que esta crise mundial, tal como a de 1929/33, está para durar, o que vai impor muito rigor nas contas públicas, de forma a poder apoiar as populações mais carenciadas.


Responses

  1. Convém caracterizar a crise financeira dos EUA: ela não é de liquidez (como pretendem Bernanke-Paulson) e sim de insolvência.

    Esta caracterização é importante porque a partir de diagnosticos errados só se podem ter terapias incorrectas.

    É este precisamente o caso do plano Bush de injectar US$700 mil milhões nos bancos e de reflacionar os activos imobiliarios do pais. Tal plano é para salvar os banqueiros e não a economia do pais.

    Os problemas continuarão com o endividamento agravado da população dos EUA e reflexos por todo o mundo (afundamento do dólar, etc).

    Verifica-se historicamente que as dividas impagáveis teem de ser CANCELADAS. A tentativa de manter a ficção de que algum dia serão pagas corroi, desgasta e pauperiza os povos submetidos a tal tratamento, com reflexos nefastos sobre a economia real.


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