Publicado por: Duarte | 6 Outubro, 2008

A Dona Branca está de Volta

O Jornal Público online noticia aqui que os “Mercados antecipam contágio da crise financeira ao resto da economia“, o que nos permite concluir que já não está só em causa a banca e os seguros.

Muitos estão recordados da célebre Dona Branca que há alguns anos, no nosso país, dava juros mais elevados que o sector bancário, a quem lhe entregasse dinheiro.

O sistema funcionou durante alguns anos, enquanto o dinheiro que ela ia recebendo era superior ao valor dos juros que pagava, mensalmente.

Eram muitos os que estavam encantados com o elevado rendimento das suas aplicações, a ponto de recomendarem a amigos e conhecidos que procedessem de igual modo.

A burla faliu quando o dinheiro que entrava passou a ser inferior aos juros que a Dona Branca dava, e os depositantes começarem a deixar de receber juros, levando muitos a pretender de volta as verbas que tinham entregues e nada receberam. A pirâmide tinha ruído.

Já perceberam que o que está a ocorrer com a banca e seguros, nos Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Suíça e Holanda, é uma situação tipo Dona Branca, mais sofisticada mas com os mesmos efeitos.

As regras impunham que os bancos emprestassem dinheiro, num montante que tinha em conta o seu capital e o valor dos depósitos a prazo, na instituição.

A verdade é que o neo-liberalismo e o vale tudo, levou a banca dos grandes grupos económicos a enveredar por emprestar “dinheiro contabilístico“, não físico, numa proporção que ultrapassava em muito os activos desses bancos e as verbas neles depositados.

O “subprime” foi a gota de água, pois também ele foi um processo Dona Branca.

Quando um cidadão americano comprava uma casa e pedia emprestado dinheiro ao Banco, estava convencido que a sua relação era só entre si e aquele Banco.

O que sucedeu foi que esse banco vendeu esses créditos a outro, mais tarde este segundo banco vendeu a outro, numa cadeia tipo Dona Branca que foi mantida enquanto o dinheiro que entrava no processo era superior aos dividendos que esta cadeia bancária absorvia.

Saturado o mercado imobiliário nos EUA, por se ter reduzido o número de compradores, o dinheiro que entrava no sistema passou a ser inferior aos juros e dividendos que o sistema Bancário tinha que pagar uns aos outros.

Na evidência da ruptura, os mais avisados começaram a retirar os seus valores em quanto puderam, o que acelerou o descalabro da banca, nestes países.

No sector de Seguros o processo foi idêntico, o cidadão segurava o seu carro, a sua casa ou os seus planos de reforma, julgando que a sua relação era só com aquela companhia de seguros em quem confiara as suas poupanças.

Estava enganado, pois esta seguradora tinha segurado a sua carteira noutra companhia, a outra noutra, até à maior delas a AEG americana.

Aqui também o sistema funcionava enquanto o dinheiro que entrava dava para pagar todas estas comissões, até que alguns bancos e investidores do imobiliário pretenderam ser compensados dos prejuízos e não o conseguiram, o que se revelou ser mais um processo Dona Branca no seu melhor.

Aparentemente estamos só perante um problema da Banca e dos Seguros, então porquê que o Jornal o Público já fala de que “os mercados antecipam contágio da crise financeira ao resto da economia“.

Outra pirâmide Dona Branca está em fase de ruir, nas palavras de António Bustorff Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira, e é constituída pelos “hedgefunds”, fundos de alto risco, processo este idêntico ao da Banca e dos Seguros, pois também aqui as aplicações em fundos de alto risco têm sido vendidos sucessivamente a outros fundos, num processo Dona Branca, a ponto de não se saber já quais são os seus activos subjacentes, mas que, segundo António Bustorff, representam 3,5 vezes o PIB Mundial.

A actual queda das Bolsas não tem só a ver com a queda dos Bancos e Seguros, reflecte já em parte o desinvestimento em aplicações de Fundos de alto risco, pirâmide que a ruir arrastará, por contágio, toda a economia como refere o Jornal o Público.

Felizmente que grande parte dos países emergentes não estão envolvidos na mesma proporção, nesta “economia de casino” como Barack Obama lhe chama, assim como os mais pobres, mas é evidente que todos vamos ser atingidos.

É curioso ver que todos aqueles que, no nosso país, exigiam o fim da intervenção do Estado na economia estejam agora calados.

Diziam que o Estado só atrapalhava, percebe-se agora que o Estado atrapalhava as “Donas Brancas” que por aí andam.


Responses

  1. Muito bem. Até agora não vi melhor análise.


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