Publicado por: Duarte | 19 Janeiro, 2009

Como se Comportam os Eleitores ?

Em recente artigo de opinião abordei o tema “Como Interpretar as sondagens“.

Pretendo agora analisar o “normal” comportamento dos eleitores, interpretação que já tinha publicado há mais de 10 anos e que considero importante reafirmar dada a proximidade de três actos eleitorais, no País.

Hoje em dia podemos determinar, com algum rigor, qual o sentido de voto dos eleitores, pois a abordagem desta matéria, em Ciência Política, tem um tratamento técnico na base da realidade material e não emocional ou subjectiva, e muito menos superficial, como a vemos tratada na Comunicação Social por alguns comentadores ou até analistas políticos e dirigentes partidários.

Deste modo, podemos hoje afirmar que os eleitores votam, ao longo das suas vidas, sempre na mesma força política, salvo em duas situações:

1ª – Quando estão colocados perante o que, tecnicamente, se designa por “interesse cruzado“;

2ª – Quando, por “desmotivação” para com a sua força política, decidem abster-se.

São estas duas situações que, mais à frente pormenorizamos, levam à alteração dos resultados eleitorais em prazos relativamente curtos e para órgãos diferentes.

Voltemos no entanto à questão inicial, de que os eleitores votam sempre na mesma força política (salvo as duas excepções referidas), o que pressupõe que os Partidos têm um “eleitorado base” ou “natural“, impondo-se por isso que se clarifique esta afirmação.

A existência de um “eleitorado base” parte do princípio que os eleitores quando assumem a sua primeira posição política, numas eleições, vão pretender demonstrar a si próprio, posteriormente, que não se enganaram, passando a ter uma postura que sociologicamente se designa por “bloquear à mensagem do outro“, quando esse põe em causa os seu valores ou convicções, encontrando sempre uma justificação para a decisão que tomaram inicialmente, no seu primeiro voto.

Os filhos não aceitam uma mensagem que diga mal dos pais, um cristão reage da mesma forma quando se põe em causa a mensagem de Jesus Cristo ou um muçulmano em relação aos ensinamentos de Maomé.

Esta realidade tem em conta que as nossas opções, sempre que temos que tomar uma decisão ou escolha, resultam de um exercício mental de rejeição das opções que não queremos ou seja, a rejeição é um processo mental elaborado, que implica a fundamentação do que não queremos.

Por exemplo, quando entramos numa pastelaria e olhamos para a vitrina dos bolos para escolher um, e se não temos uma ideia já definida, começamos por rejeitar uns porque têm muitos cremes, outros por terem muito açúcar, a nossa escolha acaba por resultar da exclusão do que não queremos, o que corresponde a uma decisão fundamentada.

Este exercício mental é válido para qualquer outra compra ou até para decidir para onde se vai de férias.

No último artigo que publiquei sobre sondagens, inseri um quadro que volto a reproduzir para facilitar esta análise.

Votos obtidos pelos 5 maiores partidos e coligações nas Legislativas desde 1975

 

PS

PSD

PCP/CDU

CDS/PP

BE

Outros

Abril 1975 2.162.972 1.507.282 711.935 434.879 44.877 (6)236.318
Abril 1976 1.911.769 1.336.697 786.701 877.494 91.691  
Dez. 1979 1.642.136 (3)2.554.458 (5)1.129.322 (3)23.523 130.842 141.227
Out. 1980 (1)1.673.279 (3)2.706.667 1.009.505 (3)13.765 83.204 147.644
Abril 1983 2.061.309 1.554.804 1.031.609  716.705 (2)  
Out. 1985 1.204.321 1.732.288 898.281 577.580 (2) (7)1.038.893  
Julho 1987 1.262.506 2.850.784 689.137 251.987 (2) (7)278.561
Out. 1991 1.670.758 2.902.351 504.583 254.317 (2) (8)96.096
Out. 1995 2.583.755 2.014.589     506.157 534.470 (2)  
Out. 1999 2.385.922 1.750.158  487.058 451.643 (4)132.333  
Mar.2002 2.068.584 2.200.765 379.870 477.350 149.966  
Fev. 2005 2.589.195 1.652.942 433.210 416.080 364.922  

 

Nota: (1) O PS integrou a FRS, (2) A UDP dispersou-se noutras formações, (3) Constitui-se a AD (PSD, PPM e parte do CDS), (4) O BE integrou diversas Org. da extrema esquerda, (5) OA CDU passou a integrar o PCP, Verdes e MDP/CDE, (6) MDP/CDE, (7) PRD, (8) PND.

Verifica-se, claramente, que os dois maiores Partidos tiveram um ligeiro acréscimo do seu Eleitorado Base (e o aumento do numero de eleitores foi de 2 milhões) e que as alterações significativas que ocorrem nos dois grandes partidos políticos, nalguns actos eleitorais, resultaram do facto do Partido que perdeu votos, nesse acto eleitoral, ter tido o seu eleitorado desmotivado.

Voltando à segunda questão (a que dá origem à alteração dos resultados eleitorais), o “interesse cruzado” e a “desmotivação“, no primeiro caso são diversas as situações que revestem a figura do “interesse cruzado“, nomeadamente a promessa de dar um emprego se for eleito ou de que construirá um pavilhão ou qualquer outro equipamento, para os moradores de uma povoação, assim como prometer benefícios a uma classe profissional ou empresarial.

O voto útil é também uma forma de “interesse cruzado“, levando muitos eleitores a votar no “mal menor” mas melhor posicionado para impedir a vitória de quem não se pretende ver eleito.

 A imagem “forte” de maior credibilidade ou capacidade de um candidato, pode funcionar como “interesse cruzado“.

Se em próximo acto eleitoral estas situações não se colocarem, ele volta a votar no Partido com quem se identificou inicialmente. As excepções são irrelevantes.

Quanto à “desmotivação” de um eleitor na sua força política, leva normalmente à abstenção o que provoca alterações determinantes para o resultado eleitoral, como se pode ver pelo quadro seguinte, para as eleições presidenciais.

      1º + Votado 2º + Votado
Ano Votantes % Cand Votos % Cand Votos %
1976 4.881.125 75,47 Eanes 2.967.137 61,59 Otelo 792.760 16,46
1980 5.840.332 84,39 Eanes 3.262.520 56,44 Carneiro 2.325.481 40,23
1986-1ª V 5.742.151 75,38 Freitas 2.629.597 46,31 Soares 1.443.683 25,43
1986-2ª V 5.937.100 77,99 Soares 3.010.756 51,18 Freitas 2.872.064 48,82
1991 5.098.768 62,16 Soares 3.459.521 70,35 Basílio 696.379 14,16
1996 5.762.978 66,29 Sampaio 3.035.056 53,51 Cavaco 2.595.131 46,09
2001 4.449.800 49,71 Sampaio 2.401.015 55,55 Ferreira 1.498.948 34,68
2006 5.529.117 62,61 Cavaco 2.745.491 50,59 Alegre 1.124.662 20,72

 

Pelos números verifica-se que Cavaco Silva é o Presidente eleito, no primeiro mandato, com o menor número de votos, fazendo no entanto o pleno do eleitorado base dos dois Partidos que o apoiaram (PSD e CDS, 2.700.000 votos) e Manuel Alegre e Mário Soares no total tiveram 1.903.031 votos, quando o eleitorado base do PS anda em torno dos 2.500.000 ou seja, 600.000 dos seus eleitores, por “desmotivação“, ficaram em casa, pois como se vê não aparecem na votação do Presidente Cavaco Silva.

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas os apresentados são bastantes para demonstrar que a principal medida de estratégia eleitoral, dos dois principais partidos, passa por motivar o seu “eleitorado base” e em segundo lugar, ter propostas que funcionem como”interesse cruzado“, o que não è fácil dado que basta todos prometerem o mesmo, para que este seja anulado.

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