Publicado por: Duarte | 28 Janeiro, 2009

Falar Verdade sobre o TGV

Nos últimos dias tenho recebido diversos e-mails com um texto anónimo, que pretende pôr em causa a construção do TGV, referindo diversas questões como o seu elevado custo e de que o mesmo é inútil e desnecessário, dando como exemplo a Holanda, a Suécia e a Noruega que não optaram por tal solução, apesar de serem ricos.

Algum argumentário tem validade mas globalmente não é válido pois não tem em conta algumas questões importantes, tais como:

1ª – A Holanda è servida pelo TGV, ao contrário do que é dito no referido e-mail;

2ª – Portugal tem cerca de 11 Milhões de Habitantes e uma densidade de 114 Hab/Km, e recebe anualmente 12 milhões de turistas e pretende passar a receber 24 milhões;

3ª – A Suécia tem menos 1 milhão de Habitantes que Portugal e uma densidade de 20 Hab/Km2, inferior à do Alentejo (26 Hab/Km2) e um turismo residual.

4ª – A Noruega tem menos de metade da população do nosso país e uma densidade de 12 Hab/Km2 (10 vezes inferior à nossa), e os turistas são raros.

Deste modo, fazer comparações com o que não é comparável, é pouco sério.

A única questão que é aceitável discutir é a oportunidade para fazer o investimento no TGV neste período de crise mundial, que também está a atingir-nos, mas também esta questão está ultrapassada pois a fase de execução da obra só terá inicio em 2010.

De referir que as verbas Comunitárias, muito volumosas, atribuídas a fundo perdido para o TGV (1.300 milhões de euros), e para o novo Aeroporto (verba ainda superior), não serão atribuídas se estes equipamentos não forem executados.

Destaca-se ainda que o TGV representa um valor acrescentado bruto de 14,5 mil milhões de euros (sendo 90% da responsabilidade da indústria nacional), e a criação de 90 mil novos postos de trabalho directos e indirectos, dados facultados pelo então governo de Durão Barroso, quando assumiu o compromisso com Espanha e a EU, para a concretização deste projecto, como se refere aqui.

O referido e-mail não diz mas nós consideramos que importa valorizar a vantagem ambiental do TGV, traduzida na poupança de milhões de toneladas de CO2, se tivermos em conta que substituirá parte do transporte aéreo e rodoviário, cujos custos ambientais serão cada vez mais onerosos.

É  lamentável que nesse e-mail se tente passar a mensagem de que estas linhas do TGV, no território nacional, servem só para ligar duas capitais (Lisboa e Madrid), escondendo que estas linhas fazem também as ligações ao novo aeroporto de Lisboa, Évora, Elvas, Badajoz, Mérida e Cáceres (situação idêntica na ligação Porto/Vigo), e que serão a grande oportunidade que temos para modernizar esta infra-estrutura de transporte ferroviário, no país, com a introdução na rede ferroviária nacional da bitola europeia.

Escondem também que estas linhas do TGV, terão também a valência de transporte de mercadorias, potenciando os portos de Lisboa, Setúbal e Sines (assim como Leixões e Viana do Castelo) que passarão a ser mais utilizados pelas empresas espanholas de importação e exportação, gerando grandes receitas ao nosso país pela utilização destas vias e dos portos portugueses, receitas que serão determinantes para a rentabilidade destes equipamentos e para o país.

Omite-se também que o projecto do TGV já tinha sido acordado com Espanha, que já tem em desenvolvimento no país vizinho, as linhas Vigo-Valença e Madrid-Badajoz que, a não ser cumprido pelo Governo Português, põem em causa a credibilidade internacional do Estado Português.

Os autores anónimos do texto, no referido e-mail, revelam um baixo nível técnico e uma forte dose de demagogia que a não ser desmontada atinge o objectivo daqueles que defendem que, “Uma mentira dita muitas vezes passa a ser uma verdade“.

Lamentavelmente alguns responsáveis políticos têm vindo a especular com o endividamento público que estas obras originam, com a construção de grandes infra-estruturas, por hipotecar o futuro dos nossos filhos, o que é uma mistificação pois o nosso actual endividamento resulta dos investimentos feitos nas gerações anteriores, assim como os investimentos feitos hoje serão pagos por esta e as próximas gerações.

Sempre foi assim, salvo no tempo de Salazar com as consequências já conhecidas, pois a solução não é juntar dinheiro para depois fazer as obras, mas fazer as obras com recurso ao crédito e pagar as mesmas com a rendibilidade que as mesmas vão gerar em toda a sociedade, nesta e na próxima geração.

É deste modo que qualquer empresário faz quando quer aumentar o seu nível de competitividade, compra máquinas a crédito e é com as receitas adicionais das mesmas que as vai pagar.

Quem defende que não se deve fazer nada porque não há dinheiro, se estivesse no poder e procedesse desse modo é que estava a comprometer o futuro, pois mais tarde os vindouros responsabilizariam a actual geração de não ter feito, investimentos que eles, com grande atraso, teriam que os fazer. Para reforçar o que tem sido dito, destaco ainda o que o governo tem afirmado, “que neste período de crise internacional o determinante para garantir empregos é de que o governo faça um esforço de investimento, na execução de pequenas, médias e grandes obras públicas“, o que não é nem mais nem menos que levar à prática as teorias de Keynes, o grande teórico que permitiu superar a grande Depressão de 1929/33, com teorias que têm servido de base para a resolução de todas as posteriores crises, quando defendeu a intervenção do Estado na economia, na atribuição de trabalhos públicos em infra-estruturas, como forma de reduzir o desemprego, e a protecção de sectores económicos, assim como a ajuda ás empresas, em determinadas situações, em contradição com o liberalismo então reinante.

A resposta que se deve dar se sim ou não ao TGV, está no ditado que refere “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje


Responses

  1. Ó Duarte Nuno estás na onda. Há uns anitos atrás a construção de um pavilhão desportivo em Loures era considerada por ti “uma obra magalómena”, recordaste?
    Bom, está bem.
    Sobre o processo do TGV não conheço o suficiente para emitir uma opinião fundamentada.
    Sobre as actuais “nacionalizações dos bancos” talvez fizesses bem leres as declarações produzidas hoje por Soros e Stiglitz em Davos.
    Um abraço

  2. Caro Nuno, pensa um pouco, o que fazer com as politicas que levaram ao desastre? Aplicar as mesmas receitas? Errado, como mudar de vida dentro de um sistema que implica seguir regras viciadas?
    Por ventura ouviste o Roque do Banif afirmar que foram os bancos que “permitiram” que os pobres vivem-se em casas novas sem as poderem pagar? Uns verdadeiros salvadores da pátria meu caro.
    “Henry Paulson, o secretário do Tesouro norte-americano, não é seguramente o campeão da regulação pública, muito menos da nacionalização. Mas, neste momento de crise aguda do sistema, os escrúpulos ideológicos têm simplesmente que ser colocados de lado. Salvar o capitalismo, custe o que custar, é o único problema que interessa. Eu caracterizaria esta nova manifestação de capitalismo de Estado como a última fase daquilo a que Marx chamou «a abolição do modo de produção capitalista no interior do próprio modo de produção»”.
    Quem tal afirma sabe do que fala, é Andrew Kliman, escreveu recentemente uma obra de leitura obrigatória.
    Ai poderá ler uma sua tese desinibida onde afirma que os socialistas podem governar melhor para os trabalhadores mas que não haja ilusões, para serem competitivos tem de aplicar os métodos de produção dos vizinhos capitalistas.
    Quem paga a diferença dos menos produtivos?
    Consumir mais do que do que a poupança criada resulta em bolha, certo? E quando esta estoura?
    Um abraço meu caro Nuno.

  3. Fico contente de saber que nao estou so na minha tao singular forma de pensar e que nao me deixei arrastar por tantas opinioes que nunca encontrei fundameno. Obrigado senhor Duarte Nuno. Gostaria no entato de salientar qure nao tenho cor partidaria assim como nao tenho clube de futebol. O meu respeito pela politica e as personagens que atuam sobre ela, nao e consideravel, e tao pouco me interessa o que que move o Primeiro ministro, o Presidente da Republica ou a senhora Manuela Ferreira Leite. No entanto, como no caso do TGV, ha politicas que considero de uma importancia suprema. Sem duvida que ha uma componente economica muito forte ligada a tal investimento, no entanto nao quero opinar sobre materias que nao conheco, embora encontre bastante logica e sensatez nas palavras do senhor Nuno e descorde das palavras do senhor Presidente da Republica, que insiste em todas as suas intervencoes dirigidas aos Portugueses, maior parte das ocasioes ate deslocado do cotexto onde se encontra, referir-se sobre hipotecas para os filhos dos nossos filhos, senhor presidente nao vale dar empurroesinhos, afinal foi eleito Presidente como independente. Afinal essa visao futura, a meu ver, nem e de todo longincua, tendo em consideracao todas as questoes hambientais adjacentes, ja par nao falar de problemas que tivemos por tal dependencia do petroleo e que iremos ter de novo no futuro, lembro que nao e fonte inesgotavel. Bom, mas isso sao questoes economicas que deixo para os entendidos. Para explicar por completo o porque da razao que darei meu sim a todos os projetos, sejam de tranportes ou nao, iria por certo aborrece-los, e nunca chegaria a explicar-me tao bem como um senhor (Exmo) que se da por nome de Al Gore que foi Vice-presidente dos Estados Unodos e infelizmente perdeu as eleicoes para o Bush. Desde entao, o senhor Al Gore dedicou-se por esse mundo fora a explicar os efeitos do aquecimento global provocado pelas emissoes de CO2 e os efeitos de estufa. Explicado de uma forma que pode ser entendida por gente estupida como eu, ou por economistas, nao ha para mim qualquer duvida do meu total apoio a todos projetos que diminuam as emissoes de CO2 como o TGV (quanto mais TGVs melhor). Fico feliz em saber que a Europa e algumas pessoas em Portugal estao empenhadas em deixar para os filhos dos nossos filhos um planeta melhor e onde possa haver uma economia, sem planeta nao ha economia, como se refer de forma bem clara o senhor Al Gore no seu filme-documentario entitulado “An inconvinient truth”. O filme referido foi feito em 2005, garantido esta que ate 2009 a situacao nao esta melhor, mas sao projetos como este que podem fazer uma diferenca. Antes que seja tarde de mais.

    Bem hajam

  4. Ao contrário que muito pensam, Portugal não é um País periférico mas o centro entre a Europa, o continente Americano e o Africano.

    Portugal não faz grandes investimentos para termos portos, aeroportos e caminhos-de-ferro que permitam aos empresários do mundo fazerem deste País numa plataforma de entrada e saída de produtos, criando desta forma riqueza.

    Temos uma estrutura de caminhos-de-ferro muito antiga e desactualizada, o aeroporto de Beja que eu saiba seria para ser uma plataforma de entrada e saída de produtos, o único porto com profundidade para grandes barcos é em Sines e necessita de obras.

    Acredito que não necessitamos de Comboio de alta velocidade para ligar Lisboa ao Porto, deve-se sim melhorar o que existe, mas uma única ligação entre Lisboa e Madrid para os próximos anos seria indispensável para não ficarmos de fora da rede de alta velocidade.


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