Publicado por: Duarte | 23 Outubro, 2009

Como optimizar os Recursos Humanos no SNS ?

A Comunicação Social tem referido que diversos sectores do Serviço Nacional de Saúde (SNS), estão desfalcados de médicos, sem que se encontre solução final para este problema, nos tempos mais próximos.

As causas apontadas são diversas, insuficiência do número de novos licenciados nesta área, face às necessidades crescentes de uma população cada vez mais envelhecida, conjugada com a reforma de clínicos ou ainda por duas novas ordens de razão: a transferência de médicos para o sector privado (presentemente mais de 700 estão a tempo inteiro) ou para a emigração, onde só na Inglaterra já trabalham 108 médicos portugueses, estando a decorrer a contratação de mais 15 clínicos.

Os últimos governos, com início em António Guterres, procuram encontrar soluções, como foi o caso da abertura de novos cursos nesta área e aumentar o numero de vagas nos já existentes, solução que só terá resultados significativos após 10 anos, face à duração e especialização destas licenciaturas.

Outra das medidas tomadas foi a contratação de médicos no Estrangeiro, solução que teve maior visibilidade quando recentemente se concretizou, de uma só vez, a contratação de 44 médicos cubanos, apesar de já trabalharem em Portugal cerca de 4.400 médicos estrangeiros, correspondendo a 11% dos clínicos inscritos na Ordem dos Médicos.

Esta não é uma situação exclusiva de Portugal, pois EUA, Inglaterra e países do Norte da Europa, recrutam frequentemente médicos no estrangeiro para colmatar a falta de médicos no sector público ou privado, na ordem de dezenas de milhares.

Perante este panorama, como é que a falta de médicos está a ser discutida nestes países?

A resposta está na abordagem de uma melhor gestão dos Recursos Humanos no SNS e não só.

Ainda recentemente o Jornal espanhol “El País” abordava esta questão, referindo que “em Espanha projecta-se redefinir o papel dos enfermeiros, para aproveitar melhor as suas capacidades” destacando que noutros países os enfermeiros já prescrevem alguns medicamentos e realizam algumas tarefas que anteriormente eram da exclusiva responsabilidade dos médicos.

Citam para o efeito o caso de Inglaterra, onde há muitos anos os enfermeiros realizam as endoscopias digestivas, libertando dessa tarefa os médicos, com resultados similares ás endoscopias efectuadas pelos clínicos, como o revelam os estudos publicados pelo British Medical Jornal, que analisou esta situação desde 2002 até ao início de 2009.

Refere ainda o “El País” que “todos os sistemas de saúde desenvolvidos, incluindo o espanhol, estão a procurar redefinir as tarefas dos seus profissionais de saúde” como é o caso da França, Inglaterra e Canadá, entre outros, que avançam para uma nova organização dos respectivos Serviços de Saúde, de forma a optimizar os Recursos Humanos que dispõem nesta área.

Defendendo que podólogos e enfermeiros possam fazer determinadas prescrições farmacêuticas, como é o caso dos fármacos que não requerem prescrição facultativa, mas que são muito utilizados, nomeadamente os antipiréticos, calmantes, antiácidos, laxantes e anti-inflamatórios, assim como dar seguimento a certos tratamentos, especialmente de enfermidades crónicas, como a hipertensão, diabetes, naturalmente sob a supervisão de um médico, como o referem todos os consultados sobre esta matéria.

Destaca ainda o “El País”, que esta solução não é inédita pois dos 800.000 enfermeiros do Reino Unido 50.000 já prescrevem receitas de certos medicamentos e acessórios  de saúde, desde 1992, designada por “prescrição suplementar”.

No nosso País é conhecida a resistência que a Ordem dos Médicos colocou a que qualquer outro profissional de saúde utilizasse o “desfibrilhador automático” em ambiente extra-hospitalar, nas paragens cardíacas.

Mais tarde aceitou o seu uso por enfermeiros, e recentemente o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) foi incumbido de dotar de “desfibrilhadores”, as ambulâncias do INEM e as conduzidas pelos bombeiros, que passam a ser manipulados pelos seus tripulantes, após uma formação específica para a sua utilização.

Em Espanha a discussão que neste momento se trava é a de que: faz sentido que nas consultas de geriatria os pacientes de elevada idade, estejam todos os meses, durante horas, nos centros de saúde para obter uma receita de anticoagulante que necessitam, porque só o médico o pode fazer ?; faz sentido que parte do tempo das consultas, o médico se ocupe a renovar as baixas médicas?; será que só os médicos ou enfermeiros têm capacidade para manejar um complexo aparelho de diagnóstico de imagens. Não haverá outros técnicos com capacidade para o fazer ?

Refere ainda um economista, no Jornal Madrileno, que um dos problemas de Espanha, é o de que existe uma deficiente utilização do Sistema de Saúde pois o número de consultas por habitante/ano, é muito mais alto que, por exemplo, nos países nórdicos. Referindo que talvez a causa esteja no mau funcionamento dos Serviços de saúde quando obriga a multiplicar as visitas ao médico, quando alguns enfermeiros poderiam receitar determinados medicamentos e assegurar os tratamentos dos pacientes crónicos, o que seria um alívio para os médicos e para a estrutura piramidal do Sistema de Saúde.

A situação em Portugal, com a reforma de Correia de Campos, em 2006, gerou uma situação mais positiva, particularmente com a criação das Unidades de Saúde Familiar (USF), constituídas por equipas multiprofissionais, integrando médicos, enfermeiros e administrativos, que se organizam voluntariamente para prestar cuidados de saúde, nos anteriores Centros de Saúde

As USF que se prevê venham a ultrapassar o número de 200 até ao final do ano, são uma solução pioneira a nível mundial, procurando agregar muitas das experiências positivas que têm ocorrido por outros sistemas de Saúde, e terem o mérito de acabar com as inaceitáveis filas nos Centros de Saúde, pela madrugada, para se obter uma consulta médica.

É desejável que esta temática, no nosso país, tenha uma abordagem na base dos interesses dos doentes, do País e dos profissionais do sector e não somente destes últimos.


Responses

  1. É pá, esqueceste-te de sugerir que, dado o elevado níve cultural e de conhecimento científico dos portugueses, a contratação de “bruchos” e de outros ditos “videntes”, poderia ser um forte contributo para a solução do problema. Em alternativa aplicar o método de gestão de recursos humanos utilizado pela France Telecom, pagando, claro está, os direitos enerentes à respectiva patente.l

  2. Caro Nuno,
    A abordagem que fazes parece-me prudente e tendente a colocar as questões no terreno dos chamados estragulamentos sistémicos.
    Os exemplos que apontas, as situações de que te socorres, parecem-me, não só interessantes, como ilustrativas do que ocorre no mundo e nos vários Serviços Nacionais de Saúde.
    A reacção da Ordem dos Médicos percebe-se à luz da sua cultura corporativa e tribal, que esconde um sentimento de ganância despudorada.
    Agora, já é preciso mesmo ser bruxo para perceber o que vêm fazer os videntes e o louco Presidente da France Telecom, que já se demitiu, aqui – em comentário ao teu post.
    O aproveitamento das competências criticas, explicitas, comprovadas, ou induzidas, sempre foram o grande desafio de quem lidera pessoas e grupos.
    Veja-se o trabalho do actual treinador do Benfica, Jorge Jesus, com os mesmos jogadores que estiveram na passada época futebolística ao serviço de Quique Flores!
    É toda uma diferença:um mundo novo de resultados e de desempenhos.
    Não conhecendo o Senhor António Ribeiro poderia eu depreender que estará mais próximo da escola de Quique Flores?
    Posso, claro que posso.
    Abraço,
    J.A.


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