Publicado por: Duarte | 29 Abril, 2010

Especuladores atacam Portugal

Nos últimos dias o País tem sido vítima das agências americanas de Rating (que avaliam a capacidade de cada País de pagar as suas dívidas) e dos especuladores bolsistas, tal como o estão a fazer com outros países europeus.

Muitos interrogam-se sobre o que está por detrás desta ofensiva, dado que os indicadores económicos e financeiros, tendo tido algum agravamento face à necessidade de combater os efeitos económicos e sociais da crise mundial que também nos afectou, não são preocupantes, como o têm reafirmado as entidade europeias tendo em conta as medidas que já foram tomadas para o corrigir.

A explicação pode ser encontrada num artigo de opinião que publiquei em Dezembro de 1998, já lá vão 12 anos, intitulado “A queda do último império”.

Referia então aspectos que determinariam o fim do poder económico do último Império, os EUA, como era o facto de este País estar em vias de perder o instrumento que está na base do seu poder económico, o de país emissor do papel-moeda (dólar), utilizado na trocas internacionais, situação que lhe permitiu elevados padrões de rendimento, para os seus cidadãos e para as suas empresas.

Com o aprofundamento da Globalização dos sistemas financeiros e o crescente protagonismo dos Países Emergentes, com destaque para os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), os problemas de liderança do sistema financeiro mundial agudizaram-se.

A actual situação económica do mundo global moderno só teve paralelo na década de 30 do Século passado, e iniciou-se com uma crise financeira, passando a uma recessão com agravamento do desemprego, culminando na actual crise cambial.

Esta fase é a mais critica de todo o processo porque corresponde a uma guerra de sobrevivência de algumas moedas que durante largas décadas tiveram um papel determinante como moeda, de trocas e pagamentos internacionais, primeiro a Libra inglesa e depois o dólar americano.

Há 10 anos a um euro correspondia 80 cêntimos do dólar, hoje para 1 euro o dólar só vale 65 cêntimos ou seja, menos 15 cêntimos.

É neste campo que se trava uma “luta de morte” entre duas moedas, com o euro a pretender ocupar e beneficiar do papel que o dólar teve e ainda tem, mas em clara perda de protagonismo a nível global.

A grande ofensiva que estamos a assistir contra o euro é uma tentativa desesperada dos detentores dos dólares americanos, para impedir que este passe a ter um papel secundário, tal como no passado ocorreu com a libra, daí o pretender-se pôr em causa o euro.

Evoca-se que a Grécia está excessivamente endividada, o que é verdade, mas de acordo com dados publicados no El País, em 21 de Fevereiro deste ano, o défice e a dívida pública dos EUA e da Inglaterra são insustentáveis, pois são vários os Estados dentro da América com uma dívida pública superior à da Grécia.

O Presidente do banco Central Europeu Jean-claude Trichet, referiu que “o défice da zona euro é de 6%, metade do défice dos EUA ou do Reino Unido, países que têm valores semelhantes aos da Grécia e superiores aos da Espanha”.

Referiu ainda que “a dívida europeia em função do PIB não chega a 80%, pelo que é inferior à dos EUA ou Inglaterra”.

No entanto, o perfil da dívida destes dois países, no longo prazo, é terrível, pior do que a do bloco europeu no seu todo, de acordo com as projecções do Banco de Compensações Internacionais, em Basileia, que é uma espécie de Banco Central dos Bancos Centrais.

Tenha-se em conta o comunicado da Agência Federal de Segurança Financeira que durante o ano de 2009 entraram em falência 121 bancos nos EUA.

Segundo Luís Garicano, da Escola de Economia de Londres “o rendimento médio dos títulos da zona euro estão a evoluir melhor do que os norte-americanos” mas que “ Londres e Washington ainda têm um banco central poderoso, pronto a varrer quem apostar contra ele”.

Veja-se os ataques contra o Sistema Monetário Europeu em 1993, ao México em 1995, à Coreia em 1998 e agora novamente contra o euro.

Pergunta-se no El País, que tenho vindo a citar, “porquê agora o ataque contra a Grécia, cuja dívida pública é metade da do Japão e igual à do Reino Unido?”

A resposta está na tentativa de gerar grandes benefícios para alguns e impedir a consolidação da moeda europeia.

No fundo o euro sempre foi visto como suspeito na costa oeste do Atlântico e no outro lado do canal da Mancha (EUA e G.B.) como é visível nas declarações do Inglês Martin Feldstein, de Harvard, por ocasião do lançamento do euro, ao dizer “que a União Europeia iria tornar-se um super-Estado e se resultasse numa guerra financeira com os EUA e lhes provocasse danos, davam azo ao desencadear de uma guerra civil na Europa”.

Conclui o El País que “parece que o sangue vai chegar ao rio” que é o cenário que estamos a assistir.

As graves hesitações da Europa nesta questão não têm ajudado, mas os europeístas estão em maioria e acabarão por se impor, apesar das ofensivas das agências americanas de rating.

Neste contexto, a nível nacional é importante que o PSD como maior partido de oposição tenha agora colocado o interesse nacional acima dos interesses partidários, nesta matéria, revelando grande sentido de Estado, o que contrasta com a anterior liderança deste partido e com os restantes partidos da oposição.

A Ciência Política é a “arte do possível” e só quem tem noção desta realidade é que pode aspirar a ter condições para exercer o poder, o que claramente não acontece com líderes da oposição que evidenciam posturas de intransigência e meramente reivindicativas, obreiristas, populistas e desligadas dos interesses nacionais, assumindo-se como dirigentes sindicais e não políticos.


Responses

  1. Relativamente ao seu artigo ” Especuladores atacam Portugal” mais uma vez acho interessante a abordagem e concordo com o fundamental. Deixe-me dizer atitulo de “desabafo” que fiz toda a minha vida profissional , mais de 30 anos olhando para bolsas de referencia mundiais ( Chicago ) todos os dias e longe vai o tempo em que me entusiasmava com tanta “perfeição”tecnica. Também achava que os especuladores eram necessarios( fundamentais ) para assegurar liquidez às tais bolsas ( bebi isso nos manuais ameri
    canos, quando por lá andei): Enfim, hoje fruto do tempo e refexão sei bem como tudo isto , apesar da sofisticação, confere a esta economia que nos Governa o caracter de um CASINO , termo- passe o lugar comum-que julgo mais adequado .Passando ao artigo gostaria de enfatizar que o nosso principal problema ´( e dos paise do Sul )é a divida externa e não a deficit publico embora sejam gemeos. Na origem da galopada do nossa divida externa julgo que a adesão ao euro ( quanto a mim prematura) tem a sua maior causa. A destruição do tecido produtivo ( que produz os tais bem transacionaveis que está agora na moda falar) ajudou a compor o ramalhete. Dinheiro barato( maior poder de consumo ), investimento nem sempre reprodutivo alimentaram uma procura que teve no exterior a principal “fonte”. No fundo é isto que Krugman conclui no seu artigo The Anatomy of an Euromess ( creio )escrito no New Yourk Times e onde faz também referencia ao superavits externos que se registaram no mesmo periodo na Alemanha. Creio que o caso do Japão que refere não deixa de ser um caso particular , talvez não comparavel a mais nenhuma economia, quero dizer que financia o seu brutal deficit orçamental com o seu brutal superavit da balança externa ( não será ? ). Os EUA por seu lado financiam o seu deficit publico graças ao seu imperio do dolar, como muito bem refere no seu artigo. E NÓS como resolvemos a equação ?? Vou pensar…

  2. Concordo inteiramente. Foi pela mesma razão da “sobrevivência do dolar” que levou os USA a invadir o Iraque. O Sadan tinha começado a usar o Euro, em vez do dolar, nas transacções de venda de Petroleo. Isto seria o princípio do fim do Império Americano!
    E a Inglaterra sempre fez o jogo americano; apoiou a invasão do Iraque e tão pouco aderiu ao Euro, moeda única europeia!
    Só não sei é se o Presidente da Comissão Europeia (Durão Barroso), que apoiou a invasão do Iraque, não estará a fazer o jogo dos américas!

  3. Começa a ser quase “obsceno” a forma absolutamente óbvia e descarada como esta questão não é explicada pela imprensa, partidos de oposição e até mesmo o governo…porque só não vê quem não quer… excelente artigo e análise aliás como já é habitual.

  4. Neste campo de batalha estamos perante 3 frentes, uma com uma estratégia claramente ofensiva; uma segunda frente reactiva ao ataque; e por ultimo uma terceira que como se diz no mais comum dos lugares “veio só para ver a bola”.

    Os acontecimentos permitem me fazer uma analogia com uma conversa que tive á muitos anos, frequentava eu o secundário, com o senhor meu pai sobre a razão e o teor da 2º Guerra Mundial, onde a conclusão foi que o a guerra foi “simplesmente” mais uma como tantas outras – onde o objectivo inicial era a busca de território, de poder. O que se põe em causa nessa mesma guerra são os valores que alimentavam o ideal, uma vez que eram valores desumanos, destrutivos e irracionais. A comparação que pretendo fazer não está tanto no “último suspiro” de uma moeda com passado de glória que ataca o oponente com o objectivo de se manter líder, e a mais poderosa, mas sim nos meios utilizados para esse combate.

    O “ultimo suspiro” da velhinha e graduada moeda dólar feito á muralha mais débil deste castelo Europeu (sim a nossa história é tão grande que até tem castelos, não é invenção de desenhos animados) não foi mero acaso, e não se pode condenar uma vez que falamos ma luta pela sobrevivência, como se de um documentário do Discovery Chanel se tratasse. O meio utilizado é esse sim o questionável, pois utilizar agencias de Rating (ainda para mais americanas) para dizer o que países europeus conseguem ou não pagar é muito questionável, ainda nesta fase. Ainda está fresco o que essas mesmas agencias de Rating fizeram ao sistema capitalista Americano, e Mundial, com as suas fraudes de sobrevalorização de capital de risco “enganando meio mundo”… (hum isto já não é o que era) …enganado o Mundo, com cotações falseadas que se baseavam na valorização de activos que não tinham qualquer valor, levando á falência empresas, bancos, um pouco por todo o lado com consequências até ao Tibete (mesmo sem possuir mercado de valores). Não é ao acaso que a pergunta foi feita por algum Sr. da Comissão Europeia sobre “que credibilidade tem essa agência de Rating?”.

    A UE como bom jogador que tem sido apresentasse nesta batalha sem retaliações pessoais, mas sim, mais uma vez atreves do valor do homem. Procurando soluções para o problema interno, discutindo, analisando e aplicando planos de modo a que todos os seus saiam a ganhar. O facto é que a EU fala a uma só voz e isso é algo que é inalterável. Os assuntos aqui não são tratados e resolvidos por um salvador da Pátria (Obama), ou por algum cowboy do Texas (Bush), nem os assuntos são tratado em “cima do joelho” (câmara dos comuns UK). Os valores são algo que se tem que manter e fomentar, e perante tantas adversidades a Europa mostra a cada dia essa harmonia, essa irmandade, o espírito de União Europeia.

    Por ultimo, temos os países emergentes, os chamados BRIC, aqueles que para já estão só a ver a bola (o jogo é EUA vs EU), que passaram a ser donos e senhores das suas terras, começando a cobrar impostos e a reter capital que outrora lhes passava mesmo em frente ao seu nariz sem o poder provar. A sua dimensão chegou então a níveis consideráveis e a sua “ameaça” é potencialmente gigante uma vez que são países que apresentam factores que outrora eram motivos de gerar uma guerra: Território e Trabalhadores; os dois combinados são uma dupla explosiva no processo de desenvolvimento, uma vez que não necessitam de mais território para se expandir nem de imigração, ou programas de fomento a taxa de natalidade, para produzir cada vez mais. Lembremo-nos o caso da França (com a chegado de 1 milhão de portugueses para trabalhar, depois desta ter gasto 0 no seu desenvolvimento pessoal), EUA (com a chegada de milhões anualmente oriundo de países subdesenvolvidos), Inglaterra em 1900 (com a industrialização) ou até mesmo a Alemanha Nazi que para crescer procurou terras alem das suas fronteiras, etc.

  5. […] O seu dia mais activo do ano foi 29 de Abril com 219 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Especuladores atacam Portugal. […]


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