Publicado por: Duarte | 31 Março, 2011

O Gás Natural nos Transportes

A recente paragem dos transportes rodoviários de mercadorias no nosso País, exigindo uma redução do preço do gasóleo, veio mais uma vez alertar para a necessidade de deixarmos de estar dependentes do petróleo importado, tal como muitos técnicos têm vindo a evidenciar, em particular a Associação Portuguesa de Viaturas a Gás Natural (APVGN).

Refere esta associação na sua última revista de divulgação, o papel importante que o Gás Natural (não confundir com o GPL que é produzido a partir do petróleo e utilizado em garrafas nas cozinhas), pode ter nos transportes em termos ambientais, com a redução dos gases com efeito de estufa e do ruído nos centros urbanos, assim como dos seus benefícios económicos, tendo em conta que em Portugal a importação de petróleo corresponde a 27% do défice da nossa Balança Comercial, e que 53% do petróleo importado destina-se ao sector de Transportes.

Mas o mais grave é que o nosso sector de transportes depende em 99.1% do petróleo.

Na Europa e no mundo são numerosos os países que têm programas ambiciosos para alterar este panorama, recorrendo ao Gás Natural ou a outras energias alternativas mais vantajosas em termos ambientais e económicos, reduzindo por esta via a sua dependência do petróleo.

Países há onde o parque automóvel, ligeiro e pesado, já utiliza o Gás Natural numa percentagem elevada, como é o caso do Paquistão em 82%, o Bangladesh 62%, a Arménia 30%, a Bolívia e o Irão 18% ou a Argentina 16%. Em Portugal as viaturas movidas a gás natural correspondem a 0,01% ou seja, 450 viaturas.

Sem que se pretenda por em causa o projecto governamental do carro eléctrico, que também é parte da solução, é no entanto inquestionável que o mesmo não resolverá só por si, a nossa dependência do petróleo pois, como refere a APVGN, baseada nos dados oficiais, os carros eléctricos têm um potencial de 10% ou seja 500 mil viaturas ligeiras, o que permitirá somente uma poupança de 2,2% do petróleo importado.

Sabendo-se que 20% das viaturas pesadas consomem 80% do combustível no sector dos transportes, pois os carros pesados e máquinas consomem mais de 5 vezes que um ligeiro, o porquê que se começou pelo sector de menor impacto?

Fica evidente que a existir um projecto nacional de redução da factura na importação de petróleo, a solução passa obrigatoriamente pelo Gás Natural, no sector com maior expressão na redução da factura energética.

Se conjugarmos esta alteração estratégica com a utilização do Biogás, que no norte da Europa está a ter uma utilização crescente, com evidentes benefícios ambientais e económicos pois o mesmo é de produção local, poder-se-á dar um grande contributo para a nossa independência energética.

O Biogás, tal como o Gás Natural, para além de ter um custo de metade do gasóleo e da gasolina, tem a mesma composição física e química que o Gás Natural, com a vantagem de ser uma energia renovável e não poluente, de emissões neutras, tal como a eólica, a fotoeléctrica e a hídrica.

A crescente utilização do Biogás em países como a Suécia, Suiça e Alemanha, misturado com o Gás Natural ou utilizado sem mistura, como ocorre nos transportes colectivos de diversas cidades como Gottenburh na Suécia, Lille em França, e agora Madrid em Espanha, e na maioria dos Postos de Abastecimento na Suíça e Áustria, resulta de elevado acréscimo na produção do Biogás na base do tratamento da mistura de matéria orgânica (de cantinas, restaurantes, mercados e matadouros), com esgoto doméstico e na recolha de resíduos sólidos urbanos.

Na Alemanha as empresas de abastecimento de Viaturas Gás Natural (VGN), assumiram o compromisso com o governo de, até 2020, adicionar 25% de Biogás no abastecimento de VGN.

Ou seja, todos os países têm condições para produzir mais de 50% da energia que necessitam para assegurar o funcionamento dos transportes rodoviários, na base do Biogás, situação que desagrada a grandes grupos económicos como é fácil de entender.

De destacar que presentemente ocorre um uso crescente do Gás Natural e do Biogás no estado Liquefeito, nos transportes Marítimos, ferroviários e também na aviação, o que permite que as viaturas pesadas tenham uma autonomia superior a 1.000 Km.

Importa referir que a maior parte do gás natural que o País importa é descarregado no Porto de Sines, já no estado Liquefeito, o que constitui uma vantagem económica.

A expansão deste sector em muitos países, como é o caso do Brasil, Argentina, Índia, China, Itália, Alemanha, EUA, tem criado uma poderosa indústria de componentes e transformadores, geradora de um grande volume de empregos, situação que no nosso País poderá revelar-se estratégica ao contribuir para a redução da factura energética e a obtenção de evidentes benefícios ambientais, para além da dinamização económica e social.

Na Europa, nos transportes públicos, existem mais de 28.000 viaturas que utilizam o Gás, sendo que 65%  destas utilizam já o Biogás.

A Comissão Europeia em 14 de Setembro de 2010, no final do seminário do projecto BIOGASMAX incluiu o Biogás na lista de combustíveis alternativos, o que constitui um passo importante para a indústria de VGN.

Ainda hoje (30/03/2011) vem no Diário Económico online que o Presidente Obama definiu como objectivo “possível e necessário” reduzir em 33% as importações de petróleo em 10 anos, dando como alternativa o ”potencial enorme” que os EUA têm no Gás Natural, com reservas para um século.

Portugal, como o refere a APVGN aqui, tem reservas comprovadas de Gás natural no offshore do Algarve, calculadas para 15 a 20 anos de consumo do País, mas inexplicavelmente o concurso público para exploração de dois Blocos no sotavento algarvio e adjudicados, passaram oito anos sem que tenha sido assinado o respectivo contrato, constando que por pressões do sector de turismo algarvio.

No entanto, os espanhóis do outro lado da fronteira marítima, no golfo de Cadiz, prosseguem a exploração de Gás Natural desde 1976, sem que os operadores turísticos de um lado e do outro se sintam prejudicados.


Responses

  1. Importante divulgar-se esta situação e estas realidades.
    De maior actualidade este texto.
    Abraço,
    Albergaria

  2. Bravos Dr. Duarte Nuno !
    E’ preciso reiterar muitas vezes essas verdades elementares para que entrem
    na cabeça daqueles que teem poder de decisao. Eles muitas vezes teem esse poder mas nao teem a compreensao necessaria para verificar quais sao as boas soluçoes.

    Quanto a nos, o unico poder que temos e’ o da RAZAO ja’ que nao temos orçamentos para fazer lobby ou campanhas de publicidade e marketing.
    Um abraço do
    Jorge Figueiredo

  3. Bravos Dr. Duarte Nuno !
    E’ preciso reiterar muitas vezes essas verdades elementares para que entrem
    na cabeça daqueles que teem poder de decisao. Eles muitas vezes teem esse poder mas nao teem a compreensao necessaria para verificar quais sao as boas soluçoes.

    Quanto a nos, o unico poder que temos e’ o da RAZAO ja’ que nao temos orçamentos para fazer lobby ou campanhas de publicidade e marketing.
    Um abraço do
    Jorge Figueiredo


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: