Publicado por: Duarte | 14 Setembro, 2011

A queda do Capitalismo é comparável com o fim do Feudalismo?

Para Karl Marx e Friedriche Engels, nas suas teorias sobre o “materialismo histórico” o capitalismo teria um fim evidente, tal como ocorreu com o feudalismo, o esclavagismo ou as sociedades primitivas. O futuro estava reservado ao socialismo.

Aceitando como válida esta afirmação pecaram por defeito ao não terem defendido o mais básico nessa evolução ao funcionamento desta nova sociedade, de que a mesma deveria ter por primado a liberdade individual dos cidadãos, condição determinante para poder ser aceite de forma permanente pelo conjunto da sociedade, para todas as soluções políticas, económicas, sociais, culturais e organizativas, que pretendessem implementar.

Sendo ainda hoje consideradas determinantes muitas das suas teorias económicas e sociais, outras hão que foram desmentidas pela realidade e pela sua aplicação prática com resultados desastrosos, de que a construção do muro de Berlim é um exemplo.

Os defensores do “materialismo dialéctico” (marxistas), advogaram e concretizaram o fim das ditaduras da burguesia, na sociedade capitalista, substituindo as mesmas por um regime de “ditadura do proletariado”, assumindo claramente a supressão do princípio das liberdades individuais e colectivas, como o descreve Hannah Arendt ( filósofa política alemã, 1906/1975), defensora do socialismo democrático.

Arendt no seu livro “As Origens do Totalitarismo” demonstra como a via totalitária depende da banalização do terror, da manipulação das massas, do bloqueio das críticas às mensagens do Poder.

Defensora do socialismo democrático, compara Hitler a Stalin, como duas faces da mesma moeda, ambos “alcançando o poder por terem explorado a solidão organizada das massas populares”.

Não é de estranhar termos assistido nas últimas décadas à queda dos regimes socialistas/comunistas de Partido único, pois como refere Arendt “o Homem só é livre enquanto se está em espaço público” e que o princípio “a cada um segundo as suas necessidades e de cada um segundo as suas capacidades”, só poderá ser alcançado na base dos conceitos do socialismo democrático, com plena salvaguarda dos direitos, liberdades e garantias constantes da Declaração dos Direitos do Homem, da Revolução Francesa de 1789 e da Declaração Universal dos Direito do Homem, das Nações Unidas em 1948, pelo respeito da propriedade individual e das diferentes formas de produção material e intelectual, seja pública, privada ou social.

A negação destes direitos aos cidadãos, acabou com a negação por estes, dos regimes que suprimiram as liberdades individuas por direitos colectivos, como se constatou com a queda do muro de Berlim.

A actual crise mundial, política económica e social que o sistema capitalista atravessa, de inteira responsabilidade das teorias e práticas neoliberais, vem recuperar a importância dos conceitos do socialismo democrático na organização e gestão da sociedade, em alternativa ao capitalismo desregulador e permissivo aos grandes interesses financeiros, mas controlador e exigente para os cidadãos em geral, como se assiste nos países onde ainda domina (EUA, Europa e Japão), com reflexos muito negativos nos países de si dependentes, economicamente.

O Sociólogo Boaventura Sousa Santos, em recente artigo sobre a Crise Mundial, considerava que esta para além de Financeira era também ecológica e de valores e que “se o Capitalismo teve um início, certamente terá um fim”.

São assim muitas as vozes em todo o mundo que assinalam a necessidade de uma “nova ordem económica e social” na base dos conceitos do “socialismo democrático”, apesar do termo socialista ter sido denegrido pelos defensores da “ditadura do proletariado”.

Os defensores do Feudalismo também negavam a inevitabilidade do capitalismo como nova forma de organização da sociedade, o que veio a ocorrer, pois há época o feudalismo revelava a incapacidade dos senhores feudais para se opor às forças sociais (artesãos, industriais, burgueses e homens livres das cidades), que vinham desempenhando um papel económico e social determinante para o desenvolvimento da sociedade, como o descrevo aqui num pequeno trabalho académico por mim elaborado.

Fácil é de verificar que o início da queda de todas as sociedades antigas (primitiva, esclavagismo e feudalismo), ocorreu precisamente nas mais desenvolvidas por terem esgotado a sua capacidade de regeneração e serem confrontadas com outras formas mais dinâmicas de organização da sociedade que punham em causa os seus privilégios.

A actual sociedade capitalista também está bloqueada face à extrema dependência que tem do sistema financeiro, tal como no passado os burgueses e artesãos estavam dos senhores feudais, impedindo novas formas organizativas da sociedade.

O endividamento dos Estados, das empresas, das instituições e dos cidadãos perante o sistema financeiro é de tal forma elevado que arrasta para a ruína grande parte das empresas e dos cidadãos, levando os governos a agravar a carga fiscal para reduzir o endividamento, em vez de exigir à Banca o pagamento de impostos, no mínimo ao nível do que é exigido às outras instituições empresariais, como destaco aqui num recente artigo intitulado “Há responsáveis pelo endividamento público?”.

Esta situação que ocorre com maior evidência nos países mais desenvolvidos do capitalismo neoliberal, com o agravamento acentuado das falências, despedimentos em massa e empobrecimento generalizado das populações, prenuncia o fim do sistema capitalista, tal como ocorreu com o feudalismo.

A alternativa ao actual sistema só pode ser o socialismo democrático, protagonizado pelos partidos socialistas de raiz social democrata, que assegurem a organização da sociedade e da produção de bens e serviços por empresas públicas, privadas e sociais, competindo entre si em igualdade de situações, como refiro aqui noutro artigo que publiquei em 2003, intitulado “ À procura de novo modelo económico”.

A experiência actual dos países nórdicos e dos países emergentes, que têm reforçado o papel empresarial do Estado, das empresas industriais e comerciais privadas e das estruturas da economia social, em detrimento do sector financeiro, deve ser assumido como o futuro, pois revelam que não obstante a crise financeira mundial, estes têm continuado a progredir, económica, social, ambiental e politicamente.



Responses

  1. Será intencional ou por desconhecimento que relacionas o objectivo da “nova sociedade” com a fase de transição para ela, enquanto existirem as classes (exploradora e explorada). Quando dizes “pecaram por defeito ao não terem defendido o mais básico nessa evolução ao funcionamento desta nova sociedade, de que a mesma deveria ter por primado a liberdade individual dos cidadãos, condição determinante para poder ser aceite de forma permanente pelo conjunto da sociedade,” esqueces que a “ditadura do proletariado” é uma fase de transição que permite a passagem do poder da classe exploradora (minoria) para a classe explorada (maioria). É no fim de contas o que sucede em cada fase histórica, passagem do poder de uma classe para outra. No caso do socialismo essa denominada “ditadura do proletariado” (denominação usada por Marx, que considerava que todas as sociedades, onde existiam classes eram ditaduras) é uma democracia da classe maioritária (proletariado), tal como aquilo que hoje se chama democracia é uma “ditadura da burguesia”. Portanto, partes de premissas falsas e, cai por terra toda a restante argumentação.
    Eduardo Baptista

  2. Este é um debate com algum interesse, mas que se revela sempre inconclusivo.
    Primeiro, por que há muito preconceito a presidir ao mesmo e muita inadequação das ferramentas analíticas utilizadas.
    A categoria inventada por Marx é das invenções sociológicas mais desconcertantes, e caricatas, que alguma vez viram a luz do dia nas ditas ciências sociais, ou humanas, como se queira designar.
    A burguesia, quando se apossa do poder, de todo o poder, através dos seus representantes, não entra em negação.
    Admitindo que a classe operária alguma vez esteve no poder, como eram os seus representantes? Como se mantiveram ligados à classe ou, melhor dito, à classe operária?
    Façamos um exercício.
    Vladimir Illich, Kamenev, Trotsky, Radek, Boukarine, Kolontain, mesmo Estaline, Zinoviev, Dzerjinsky, nomeadamente, vieram de que metalúrgica, de que estaleiro naval, de que mina?
    No caso da Alemanha, de que usina vieram Karl Liebeniek e Rosa Luxemburgo?
    E os irmãos Castros, Raul e Fidel, de que fazenda açucareira eram originários?
    Podiamos ir até ao absurdo com estes exemplos, noutras geografias.
    Sabe-se hoje que Karl Marx, filho de um advogado e Rabino germânico, nunca entrou em nenhuma fábrica e várias vezes foi convidado para o fazer.
    Sabe-se que, o incontestado e muito amado líder dos comunistas portugueses, Álvaro Cunhal, licenciado em direito, filho de advogado e de uma católica quase mística, depois do 25 de Abril ( e antes, por maioria de razões…) NUNCA entrou em nenhuma usina.
    Mas, deixando estes aspectos decisivos de lado, o que ocorreu com aqueles que, “traindo” as suas classes de origem, tiveram que sofrer “muito” para se alcandorarem à consciência da classe operária e à necessidade de destruirem a velha ordem, para criarem uma NOVA sociedade e um HOMEM NOVO?
    Criaram partidos comunistas e perseguiram, e nalguns países, poucos, conseguiram-no (na dita Europa, só a Rússia o realizou… na América, só Cuba e na Ásia, só a China e o Vietname) a destruição do “capitalismo” e o substituiram, a ordem social, económica, cultural, cientifica, “religiosa” antiga…pela ditadura, não do proletariado, mas sim pela DITADURA DO PARTIDO COMUNISTA e dos seus aparelhos de Estado.
    Acabaram com TODAS as liberdades, tudo controlavam, as ideias, as consciências, os meios de produção, a distribuição…até a arte e a ciência.
    Estaline era expert em biologia, em cinema e em literatura!
    As discusões que travou com Chastokovich em torno da sua 5ª Sinfonia… são, provavelmente, a maior das caricaturas do “socialismo real”.
    Hoje sabe-se que a utopia comunista, ou da “ditadura do proletariado” são designadas de “utopias negativas”. Porquê? Por que, uma vez “concretizadas” denegam-se a si próprias: uma utopia não tem “lugar” para ocorrer!
    Depois, bem, depois, há a minha experiência individual.
    Estive na URSS entre 1979 e 1980.
    Das discussões, mitigadas, prudentes, temerosas, que então se sussurravam entre os quadros comunistas estrangeiros era a preocupação de Brejenev, de Suslov, de Ponomariov, nomeadamente, com…as liberdades formais!
    Espantados? Sem tirar nem colocar.
    O que Gorbatchov tentou fazer com a sua Glasnot e a Perestroika foi isso mesmo…mas o regime estava podre e exaurido. Não era reformável.
    Foi, como outros antes dele, para o caixote do lixo da história e é lá que ele se encontra.
    O meu comentário já vai longo.
    Mas poderiamos falar do “capitalismo” do Partido Comunista da China ou do milhão de desempregados que Raul Castro se propõe criar a partir do “encerramento” de postos de trabalho estaduais, para cortar nas gorduras da burocracia do “Ditadura do Proletariado” do Caribe.
    Como diz o brasileiro, a teoria, na prática, é outra coisa bem diversa.
    Poderiamos falar da história, do tempo e da narrativa historiográfica, com dados, com documentos, com testemunho, do maior embuste que o século XX assistiu: o Comunismo.
    Mas, para isso, precisávamos da noite toda… e, mesmo assim só estariamos no incipit dessa narrativa.

  3. Não assinei a prosa do anterior comentário.
    Aqui fica.
    José Albergaria

  4. A queda do capitalismo é comparável ao fim do feudalismo? Ao fim não sei, mas parece que o fundamento parasita é o leit motiv de ambos… e até no comunismo soviético.

  5. Juntar Marx e o facto de existir o Muro de Berlim para explicar o erro do pensamento político deste é obra.

    O novo mundo será feito por empresas estatais?

    Só acerta na essencialidade de tudo ser feito em liberdade (relativa).

    abraço.

  6. A questão fundamental em Marx é a ênfase na economia, ou na produção da riqueza social, nas formas de sua apropriação e, consequentemente, nas relações que os homens estabelecem entre si para realizá-las, o que é correto. Na forma de produção social histórica gerou até hoje somente a relação social político-econômico escravista; o escravo, o servo e o operário (os assalariados de forma geral). No caso do operário em geral, em função da introdução de novas tecnologias (forças produtivas) inéditas, gerando um grande volume de mercadorias a preços menores gerou a necessidade do pagamento ainda que subvalorizado da força de trabalho para permitir a circulação das mercadorias e, daí, a apropriação da mais-valia pelos senhores de sempre,hoje de terno e gravata, simplesmente. Marx previu, de novo corretamente, que esse sistema levaria diuturnamente a escravidão total, ainda mais severa que as anteriores, no que, pensando em um atalho, propôs a ditadura do proletariado; e aí ele errou. O sentido desse erro foi corrigido por Kaltski com a proposta de dominação do proletariado, dando a este participação nos lucros e gestão na empresarial, permitindo a existência dos patrões mas, principalmente, garantindo e aprofundando o conceito de democracia pela sua abrangência econômica. Infelizmente essa proposta foi derrotada pelos infantis vanguardistas leninistas revolucionários, e deu no que deu.
    Meu amigo, não existe socialismo democrático, nem existirá nunca porque não se pode avançar sobre a propriedade privada dos meios de produção a não ser pela força.. Essa nova tecnologia digital, que é uma revolução fantástica das forças produtivas, pela introdução do robô escravo na produção de bens materiais é inteiramente incompatível com as relações de produção e propriedade capitalista baseada na exploração econômica da força de trabalho humana. Assim, ou muda-se as relações de propriedade com os meios de produção, as futuras máquinas-inteligentes ou para-se o desenvolvimento do processo histórico com a introdução da ditadura global nos moldes do grande irmão de Orson Wells, o que para isso essa nova tecnologia presta-se muito bem e já está sendo implementada devagarinho.
    Com a defesa hoje de um capitalismo realmente democrático, no princípio econômico inclusive; com uma profunda reforma do Sistema financeiro mundial fraudulento e terrorista; com o fim dos monopólios industriais e midiáticos poderemos conseguir duas coisas importantíssimas: Parar os planos da elite financeira-industrial de implantação da ditadura mundial já em estágio avançado e permitir a sequência do desenvolvimento história que permitirá, através das novas forças produtivas digitais, resolver de vez e para sempre o dilema histórico da exploração do homem pelo seu irmão. O Estado com as suas instituições e seus aparelhos, as agremiações partidárias e religiosas existem em função dessa referida exploração que se fundamenta no princípio no direito de propriedade privada geradora e base da existência das classes sociais. Pelo exposto se conclui que o futuro será, ou a perpetuação da escravatura do Grande Irmão que tudo ouve, tudo vê e tudo pode; ou o Anarquismo que permite a cada um ser chefe de si mesmo, e só de si mesmo. Essa década é decisiva para a definição do futuro por milênios, de um jeito, ou de outro. Ou cortamos a cabeça da hidra agora, ou ela, também agora, nos engolirá.


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