Publicado por: Duarte | 15 Maio, 2012

A ratoeira onde caiu a Europa

Os conceitos e práticas neoliberais que se instalaram nos EUA e na Europa estão na base do atual panorama de desastre económico e financeiro, também designada de “crise económica” que os grandes países do chamado mundo ocidental atravessam.

Inversamente já ninguém consegue disfarçar que os chamados países emergentes designados por BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e outros como o Irão, África do Sul, Argentina, Venezuela e Coreia do Sul estão a ter um papel determinante no crescimento da economia mundial.

Os estados da OCDE têm atualmente 60% do PIB mundial, mas passarão a ter apenas 40% em pouco mais de 15 anos, enquanto que os países emergentes alcançarão os outros 60%. A economia chinesa ultrapassará a americana no PIB algures entre 2025 e 2030, segundo coincidem em prognosticar vários e prestigiados organismos, mas já se admite que ocorra muito mais cedo.

A pergunta que o simples cidadão faz é a de que: “o que ocorreu de mal para que os países ocidentais estejam a ser ultrapassados, num tão curto espaço de tempo, pelos citados países emergentes”.

A resposta pode ser dada através de uma imagem que já utilizei num artigo de opinião que publiquei aqui em 2004, intitulado “A importância da agricultura na economia nacional” que agora reproduzo.

Começava então por recordar um episódio protagonizado pelo rei D. Dinis, há mais de 800 anos, quando os comerciantes de Lisboa lhe solicitaram autorização para importar trigo de Espanha e de França, com a alegação de que era mais barato de que adquirirem o trigo aos produtores nacionais.

Passado alguns dias e após ouvir os seus conselheiros, o rei respondeu com um rotundo não, alegando que os benefícios que os comerciantes obtinham com esta operação, eram muito inferiores ao somatório dos benefícios económicos desses comerciantes, mais os benefícios dos agricultores, dos ferreiros e de um conjunto vasto de atividades locais que intervinham na produção do trigo nacional.

Destacou ainda que a capacidade de o País se abastecer a si próprio, era determinante para a salvaguarda da sua independência e segurança, assim como para um vasto conjunto de atividades laborais.

Só depois de 1867 é que Karl Marx determinou a teoria da mais-valia que explica na modernidade que o valor acrescentado só é criado na produção, ou seja nos sectores primário e secundário da economia (indústria, agricultura e pescas).

Definia Karl Marx que o sector terciário da economia (comércio e serviços) não geravam valor acrescentado pois ao adquirirem um produto ao fabricante e vendê-lo ao consumidor não acrescentam nenhum valor a essa mercadoria, apropriando-se no entanto de uma parte das mais valias geradas na produção.

Num passado recente os grandes industriais e agricultores eram as maiores fortunas na sociedade, o que se compreendia pois é na produção que se cria o valor acrescentado.

Na atualidade as maiores fortunas estão no comercio (Continente e Pingo Doce) e na Banca (BES, BPI, BCP…) atividades terciárias que não geram valor acrescentado.

Fácil é agora de perceber que os comerciantes não conseguiram enganar o rei D. Dinis mas que os neoliberais, na atualidade, conseguiram autorização para montar fábricas no países emergentes e importar os produtos que anteriormente eram feitos no nosso país, porque são mais baratos.

Ou seja na Europa e particularmente no nosso país desmantelaram-se as fábricas (construção naval, ind. ferroviária, turbinas hidráulicas, calçado, têxtil, vidro, metalúrgicas, etc.) na agricultura arrancaram vinhas, olivais, pomares e subsidiavam-se agricultores para não produzir e nas pescas desmantelaram a frota pesqueira nacional com a alegação que se pescava em excesso e que o pescado importado era mais barato.

Hoje importamos quase tudo dos países emergentes (e submarinos do norte da Europa) e aí é gerado o valor acrescentado. Isto explica o facto de eles crescerem economicamente e nós empobrecemos…. Caímos numa grande ratoeira.

Presentemente somos bombardeados por conceitos mercantilista e neo-liberais para o conjunto da economia, com destaque para o consumo (comercio) e para o crédito (serviços), com consequências graves para a situação económica e social do País.

Evoca-se a torto e a direito que temos de “deixar vigorar as leis do mercado“, “a importância da produtividade” e “os interesses dos consumidores” para justificar a importação de produtos manufaturados, agrícolas e pescado, muitos de fora da UE pelas grandes cadeias comerciais que, segundo dados oficiais não chega a produzir 50% do que se consome em produtos agro-alimentares, conduzindo à atual situação do País.

A ignorância de alguns responsáveis políticos e técnicos, da importância da produção industrial, agrícola e da pesca nacional, como fator de criação na economia de valor acrescentado, tem sido demolidora para o equilibro da nossa balança externa e das contas públicas.

Foi nesta ratoeira que nos colocaram os neoliberais que são, no nosso País representados pela atual maioria de direita parlamentar PSD/CDS, defensores de um mercado desregulado e de afastamento do Estado da economia, afirmando despudoradamente que “o Estado na economia só atrapalha”, com o resultado que se vê, o termos que pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro para adquirir-mos os produtos que importamos, por termos deixado de os produzir.

Se os países do sul da Europa, nomeadamente Portugal, tivessem dirigentes com a visão do rei D. Dinis, há muito que teriam encontrado meios de apoiar a produção industrial, agrícola e as pescas, e dificultado as pretensões dos grandes grupos do sector comercial de obter lucros, nem que seja à custa da destruição da produção nacional geradora de um valor acrescentado e de mais valias que, no seu conjunto, superam em muito as mais valias resultantes da comercialização dos produtos importados.

Do que que a Europa e Portugal necessitam é de quem tenha uma perspetiva clara sobre a importância económica, social, ambiental e ecológica da produção industrial, agrícola e das pescas nacionais, como em parte teve o rei D. Dinis.


Responses

  1. Tal como a Europa fez em 1962 para proteger a agricultura europeia, criando a PAC, dos baixos preços da agricultura mundial, deve fazê-lo agora para a indústria ou levantar barreiras alfandegárias aos produtos, essencialmente, chineses – antes que eles comprem tudo o que está à venda por cá…

    http://desabafosdeumtraido2.blogspot.pt/2012/04/china.html

  2. Existe só um pequeno detalhe que os meus caros estou a não relevar, o facto da maioria das empresas que geram lucros fabulosos nos mercados emergentes ser de origem ou parceria europeia ou norte americana. O paradoxo é tal que empresas conceituadas de material desportivo topo de gama e outras (e já estão a ver do que estamos a falar…) obtém resultados extraordinários na margem final, nos países asiáticos e nos seus países de origem, os seus concidadãos alimentam as filas do desemprego.
    Os resultados são excelentes desde que a mão-de-obra seja paga com uma malga de arroz e não deve ser muito cheia…
    Cordialmente
    M

  3. Esta ratoeira é criada pelo comportamento egoísta e primário das pessoas, cada um quer saber do seu interesse imediato e está-se nas tintas para as consequências a prazo. Para os nórdicos, este comportamento típico dos povos do Sul é visto como um sinal da sua inferioridade rácica e cultural e, portanto, o facto de nos condenar à extinção a prazo é visto como consequência natural das leis de seleção natural. Não estamos nesta situação por culpa dos outros, não foram os outros que destruiram o nosso tecido produtivo, fomos nós. Estamos habituados a uma cultura em que o “chefe” tem a responsabilidade dos interesses colectivos para que cada um de nós deles se possa desresponsabilizar e agir só em função dos seus; os nórdicos vivem em sociedades sem “chefes” para que a responsabilidade colectiva seja de todos.

  4. A ratoeira foi a aceitação pelos estados da globalização sem quaisquer regras ou protecção às economias nacionais mais frágeis. O resultado está à vista. Desequilíbrio na balança com o exterior, consequente falta de liquidez, recurso a endividamento externo, encargos asfixiantes, crise económica, etc.. Agora… remédio? Precisamos é de remédio para a cura, que não mate a economia.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: