Publicado por: Duarte | 25 Janeiro, 2014

Ainda sobre o acordo Ortográfico

O acordo Ortográfico está em vigor há alguns anos, no entanto assistimos com alguma frequência a comentários e tomadas de posição em profundo desacordo com o mesmo, assumidos por diversas personalidades com elevado nível cultural, o que tem lançado muitas interrogações em todos aqueles menos versados na escrita, mas que têm aceite o acordo como uma decisão responsável de quem tinha capacidade institucional para acordar o mesmo, com os outros 7 países de língua oficial portuguesa.

Passados diversos anos a maioria da sociedade portuguesa pratica as regras do novo acordo, com destaque para as instituições oficiais, a comunicação social e o ensino público e privado.

Não vou abordar os argumentos linguísticos dos que discordam ou concordam com o acordo, mas tão só aspetos de racionalidade nesta questão. Para tal socorro-me de um texto que relata, à época, os factos ocorridos no dia 5 de Outubro de 1910, que pode ser lido aqui.

Desse texto retirei um conjunto de palavras sobre a Revolução de 5 de outubro de 1910, que talvez ajude os que contestam o novo acordo ortográfico a perceber que a escrita de uma língua não é uma coisa estática, pois a forma de escrever a nossa língua tem tido profundas transformações em diversas épocas da nossa História.

Medite-se sobre o português de 1910 e o actual (antes do acordo 0rtográfico)

Redempção – redenção

Insurrecçiona – insurreciona

Republica – República

ha – há

lucta – luta

officiais – oficiais

monarchicos – monárquicos

triumpha – triunfa

enthusiasmo – entusiasmo

á – à

tambem – também

adherem – aderem

telephonica – telefónica

cavallaria – cavalaria

policia – polícia

aquella – aquela

sahia – saia

permittem – permitem

permanencia – permanência

immediações – imediações

edificio – edifício

noticias – notícias

approximar-se – aproximar-se

repellido – repelido

ninguem – ninguém

approxime – aproxime

tres – três

d`elles – deles

sahido – saído

immediações – imediações

socego – sossego

cavallo – cavalo

optimistas – otimistas

fórma – forma

transito – trânsito

triunphantes – triunfantes

telegrapho – telegrafo

tambem – também

direcção – direção

pharmacias – farmácias

pediam-n`o – pediam-no

adhesões – adesões

palacio – palácio

victoriosamente – vitoriosamente

villa – vila

Affonso – Afonso

elles – eles

occasião – ocasião

commando – comando

fóra – fora

marquez – marquês

acclamada – aclamada

apprehenderam – apreenderam

telegramma – telegrama

illuminadores – iluminadores

affirmam – afirmam

hontem – ontem

sahem – saem

auctoridade – autoridade

unico – único

veiu – veio

attitude – atitude

aquartellados – aquartelados

paralysou – paralisou

funcciona – funciona

acceso – aceso

desunil-os – desuni-los

rechaçal-os – rechaça-los

holophotes – holofotes

occupado – ocupado

panico – pânico

appareceu – apareceu

alli – ali

installado – instalado

predio – prédio

collocavam – colocavam

victoria – vitória

aprisional-o – aprisiona-lo

numero – número

soccorrido – socorrido

ecco – eco

silencio – silêncio

pallido – pálido

paginas – páginas

cortezãos – cortesãos

portuguezas – portuguesas

castellos – castelos

chronicas – crónicas

actração – atração

apezar – apesar

Será que em nome da “pureza” da escrita ainda nos vão exigir que se passe a escrever, como em 1910?

É bom que não se esqueça de que os milhares de crianças, que já passaram pelo ensino primário, não acharam nada de anormal com a nova grafia, pois tiveram a vida facilitada com algumas palavras que deixaram de ter letras que não se pronunciam, como o demonstra a redução do número de erros de ortografia. Se lhes mandássemos voltar a escrever como os pais aprenderam, diriam que estávamos malucos.

Para os que dizem que cedemos às exigências dos brasileiros, não estão a dizer a verdade pois é claramente visível que quem cedeu mais foram os brasileiros, daí vermos no Brasil muitas reservas ao novo acordo, por motivos diferentes dos que, em Portugal, contestam.

Se temos a pretensão de que o português seja uma língua de projeção mundial, falada por 300 milhões de pessoas, é evidente que teremos de fazer acordos com os outros 7 países que, presentemente, falam a língua portuguesa.

Se o acordo não se tivesse concretizado, correríamos o risco de aprofundar a presente designação do “português do Brasil” ou o “português de Portugal”, este último escrito por 10 milhões de habitantes.

Se depois de 1910 os portugueses souberam alterar a grafia, adequando-a de forma mais racional à fonética, as novas gerações também entenderão a atual Reforma, resultante do novo acordo Ortográfico.


Responses

  1. 1. O Acordo Ortográfico de 1910 foi elaborado por quem era competente (Rodrigues Lapa à cabeça); o que se propõe agora foi elaborado por incompetentes (Malaca Casteleiro e outros).
    2. No texto lê-se: “mandasse-mos, estava-mos, correria-mos” onde deveria ler-se “mandássemos, estávamos, correríamos”. Consequências do actual Aborto Ortográfico ?

  2. Caro Duarte, quando fala da racionalidade como critério por detrás da alteração da ortografia portuguesa, e defende essa crença através desse levantamento de palavras mudadas em 1911, devo então depreender que considera o inglês uma língua irracional? Porque façamos uma comparação:

    Redempção – redemption
    officiais – officials
    monarchicos – monarchists
    triumpha – triumph
    enthusiasmo – enthusiasm
    adherem – adher
    telephonica – telephonic
    approximar-se – approximate
    optimistas – optimists
    telegrapho – telegraph
    pharmacias – pharmacies
    victoriosamente – victoriously
    villa – villa
    occasião – occasion
    commando – command
    acclamada – acclaimed
    apprehenderam – apprehended
    telegramma – telegramme
    affirmam – affirm
    illuminadores – illuminating
    attitude – attitude
    paralysou – paralysed
    holophotes – holophotes
    occupado – occupied
    installado – installed
    collocavam – collocated
    victoria – victory
    soccorrido – succoured
    pallido – pallid
    chronicas – chronicles

    O Duarte tem o direito ao seu ponto de vista, mas eu temo que os ingleses se estejam a marimbar para um bloguista português que pensa que a língua deles é irracional.

    O Duarte tem toda a razão em dizer que uma “língua não é uma coisa estática,” pois ela muda, mas eu diria que as mudanças mais prementes são as que involvem a criação de novo vocabulário, suprindo lacunas em áreas da vida que anteriormente não existiam. Por exemplo, todo o vocabulário informático que entrou na língua nas últimas décadas, resultante da acrescida importância dos computadores no mundo moderno. Isso é a língua a mudar, de forma relevante, com impacto real no mundo. Agora, mudar pharmacia para farmácia, para que serviu isso? Não há um teste científico que possa provar que esta forma seja mais racional, objectiva ou prática. Foi uma alteração puramente subjectiva fabricada por alguém que achava que ficava melhor assim. Eu, que escrevo inglês todos os dias, subjectivamente acho que pharmacia é uma óptima grafia e não me importaria de voltar a usá-la.

    Duarte, quando afirma que “a forma de escrever a nossa língua tem tido profundas transformações em diversas épocas da nossa História,” não está de todo errado. Mas convém notar o seguinte. A ortografia antes do século XVI era fonética, depois com o prestígio de classicistas como Camões e Sá de Miranda, passou a recorrer ao critério etimológico. Note que ninguém forçou ninguém a escrever português com etimologias greco-latinas; foi o prestígio dos nossos grandes poetas que fez com que quem soubesse escrever os imitasse – toda a gente culta obviamente queria escrever como o grande Camões. Isto é uma forma de mudança que eu tolero, o prestígio, porque é livre, é democrático. Quando Samuel Johnson escreveu o seu famoso dicionário, no século XVIII, e fixou a grafia inglesa como hoje a conhecemos, a Coroa não obrigou ninguém a usar essa grafia, foram os escreventes que a adoptaram por livre vontade, porque Johnson era uma figura pública admirada. Quando o Noah Webster introduziu mudanças no inglês americano, no século XIX; o governo americano não obrigou ninguém a adoptá-las, o povo fê-lo de livre vontade. Está a ver aonde eu quero chegar? Só uma pessoa que acha que o estado tem o direito de meter o nariz na esfera privada, e eu não sou essa pessoa, é que defende um estado que obrigue 200 milhões de falantes a mudar de ortografia.

    Outra questão, Duarte, quando escreve que os milhares de crianças, que já passaram pelo ensino primário, não acharam nada de anormal com a nova grafia,” não está a fazer uma grande revelação. Se uma criança aprendesse a escrever socego em vez de sossego, também acharia normal. As crianças acham aquilo que aprendem em crianças normal, é por isso que a educação ocorre quando se é pequeno e não em adulto. Mas já agora, e voltando ao tópico da racionalidade, porque é que morcego não se escreve morsego? Morcego tem o mesmo som que sossego.

    Mas também afirma que a reforma ortográfica resultou numa “redução do número de erros de ortografia.” Tem alguma prova disso? Já foi feito algum estudo? Ou é uma suposição, uma esperança?

    Mais um ponto, Duarte: “Para os que dizem que cedemos às exigências dos brasileiros, não estão a dizer a verdade pois é claramente visível que quem cedeu mais foram os brasileiros.” Esquece-se do seguinte: no acordo de 1945, Portugal fez muitas alterações à grafia, da mesma maneira que o Brasil deveria ter feito, se tivesse honrado a sua parte do acordo. Portugal fez menos cedências desta vez porque já foram todas feitas no passado. As cedências do Brasil são as que ficaram por fazer em 1945. Por favor, aprenda a história das reformas ortográficas.

    Outra questão, Duarte: Se temos a pretensão de que o português seja uma língua de projeção mundial, falada por 300 milhões de pessoas, é evidente que teremos de fazer acordos com os outros 7 países que, presentemente, falam a língua portuguesa.” Os ingleses e os americanos escrevem grafias diferentes, nem eles têm uma política comum de promoção de língua, e a língua inglesa é a língua franca do mundo. Mas é irónico que fale de acordos entre os 8 países, quando a maioria ainda não aplicou nem ratificou o acordo.

    Por último, Duarte: “Se o acordo não se tivesse concretizado, correríamos o risco de aprofundar a presente designação do “português do Brasil” ou o “português de Portugal”, este último escrito por 10 milhões de habitantes.” Essas designações continuarão a aprofundar-se no futuro, porque continuará a haver duas variantes claramente diferentes. Qualquer português ou brasileiro pode olhar para um texto escrito ao abrigo do AO90 e em poucos segundos detectará pequenos toques que distinguem uma variante da outra, no vocabulário, no uso de acentos – económico/econômico – na morfologia – polaco/polonês -, na toponímia – Moscovo/Moscou – na sintaxe. O sonho insano de que com o AO90, agora a escrita passará a ser a mesma nos documentos da ONU, UE, revistas científicas, etc. é uma fábula. Nenhum brasileiro quererá ver a palavra rapariga, que significa prostituta para eles, num documento oficial da ONU. Não tenha dúvidas, a cisão vai continuar, este acordo não vai servir para nada salvo apagar a presença do português de Portugal no mundo, o que poderia ser evitado se Portugal se preocupasse mais em defender os seus interesses – como o Brasil faz tão bem – em vez de continuar a acreditar no mito da Lusofonia.

  3. Em relação ao Inglês, convém desmistificar duas coisas.

    A primeira é que, de facto, existe um único inglês – as diferenças entre o inglês falado em vários sítios reside numa dúzia de irrelevantes diferenças em irrelevantes palavras; essas diferenças são mantidas suponho eu simplesmente para defesa dos editores locais – assim, um livro publicado em Inglaterra tem ser republicado nos EUA ou na Austrália em vez de ser importado – porque os países que sabem alguma coisa de economia cuidam muito bem de não importar nada que não possa ser produzido localmente.

    Portanto, os ingleses, contrariamente ao que é muitas vezes afirmado, garantiram que não há derivas locais na sua língua. Conseguir para o Português o mesmo que os Ingleses conseguiram para o Inglês é o primeiro objetivo do AO.

    A segunda coisa que é preciso desmistificar é que hoje ninguém pensa escrever em inglês sem usar um corretor ortográfico e as criancinhas perdem imensas horas na escola a aprender ortografia inglesa num mundo em que há tanto coisa para elas aprenderem. Isto é um problema do Inglês, não é uma qualidade nem uma vantagem. Um problema que os ingleses não sabem como resolver.

    Mas convenhamos que é algo ridículo que uma língua, que deve servir a comunicação humana com a máxima eficiência, esteja hoje dependente de máquinas – os computadores – para ser corretamente usada

    O Inglês sucedeu ao Francês que é uma língua lamentável do ponto de vista gramatical pela enormidade de excepções às regras.

    Para mim, tanto o Inglês como o Francês sofrem as consequências de terem sido “capturados” pelos académicos. Os académicos são especialistas em em organizar, conservar e transmitir o conhecimento, mas a evolução, a geração de novos conhecimentos, tem de ser feita por outras pessoas, pelas quais os académicos nutrem sempre, na altura, o maior desprezo. O Conhecimento orgulha-se do que sabe, a Sabedoria humilha-se perante o que ignora. Não sei quem disse isto, mas é muito acertado.

  4. Cada vez mais nos afastamos das línguas europeias, bem em sentido contrário à civilização

  5. Caro Alf, no tocante ao primeiro ponto, sobre a republicação de livros no mundo inglês, isso faz sentido de um ponto de vista económico. Sabe quais são os custos de importação? Um romance de Guimarães Rosa encomendado do Brasil, através da Livraria Brasileira em Santa Catarina, custou-me mais de 30 euros, um preço absurdo por um livro. Publicar livros é relativamente barato em comparação com a importação, que tem custos de transporte, seguradora, armazenamento, etc.

    Segundo ponto, quem é o senhor para decidir o que são palavras irrelevantes? Desde quando é que neighbor, color, labor, center, theater são irrelevantes? E mais, em que sentido é que color ou theater é mais irrelevante do que objecto ou aspecto? Noah Webster não andou a alterar a grafia de palavras mediante a sua relevância, fê-lo através de regras gerais para todas as palavras com dadas características. É por isso que color, labor, ardor, todas as que antigamente acabavam com o sufixo -our passaram a terminar com o sufixo -or. Tanto uma palavra usada no dia-a-dia como color como uma relativamente obscura como ardor.

    Pode argumentar como desejar, não convence ninguém de que não existem duas variantes do inglês. Insistir nisso é presumir-se mais inteligente do que milhares de linguistas anglo-americanos que afirmam o contrário. Pensa que sabe mais sobre o inglês do que eles? A sério, a sua arrogância vai tão longe no seu despeito pelos académicos?

    Terceiro ponto, os EUA e a Inglaterra têm taxas de alfabetismo superiores a Portugal e Brasil, com as suas ortografias pretensamente racionais e simples. E eu conheço muita gente que consegue escrever inglês sem erros ortográficos, e sem recurso a correctores. Para os ingleses não há nada a resolver, ainda mais tendo em conta que o inglês é a língua mais usada do mundo.

    Quarto ponto, o inglês sobrepôs-se ao francês por razões de ordem económica e política. Os EUA emergiram como a derradeira super-potência do pós-guerra no mundo ocidental, é a maior economia do mundo, exporta cultura aos rodos, é claro que o francês perdeu importância. Não teve nada que ver com excesso de regras gramaticais. Caso contrário, porque é que foi tão falado no passado? As pessoas eram mais inteligentes antes da II Guerra Mundial? Se calhar até eram, não precisavam de correctores, a escola bastava.

    Quanto ao ponto final, ao despeito pelos académicos, importa lembrar que este acordo foi cozinhado por académicos como Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, com o aval do académico Antônio Houaiss. E dado que eu também detecto neste ponto um velado ataque às gerações mais velhas, que desdenham da inovação e querem bloquear o progresso, convém lembrar que Bechara nasceu em 1928, o Malaca em 1936. Não estamos a falar de jovens radicais apaixonados que querem derrubar os académicos encastelados nas suas cátedras. A sua visão romântica do acordo como uma luta geracional não vai funcionar.

  6. Paulo Almeida, o Acordo não foi elaborado por Malaca Casteleiro, foi discutido e elaborado por muitos peritos, por exemplo Lindley Cintra e Antônio Houaiss. Os nomes estão na lei que foi aprovada, é só ir ver, o Malaca Casteleiro era só um dos membros da equipa. Sobre competência espero que estejamos conversados.

  7. Caro Miguel,
    Muitos parabéns pelo seu comentário.
    Apenas um reparo: é o próprio Houaiss a dizer que Portugal cedeu muito mais! Ver ao minuto 2:03

  8. Em 1910 a maioria dos portugueses eram analfabetos mas além disso a alteração da escrita foi devidamente elaborada e implantada. O AO 90 tem milhões de opositores não porque são contra mudanças mas sim porque o AO90 só faz confusão. Eu continuo a escrever como aprendi, o AO90 é uma paródia, nada mais nem menos.

  9. Como é domingo e tenho paciência, respondo à mensagem do Miguel, ponto por ponto, com a certeza de que não vai mudar de opinião, porque a opinião do Miguel é baseada na afirmação final, que mostra bem a raiz da sua discordância: o medo do papão Brasil e a oposição ao multilateralismo da CPLP. A alternativa era, imagino, que continuássemos, como antes fazíamos, a olhar com sobranceria e arrogância os outros países que têm como oficial a mesma língua que nós, ou até dizer que português é o nosso e os outros que se lixem e declarem as suas línguas.

    Mas vamos então aos pontos.

    MIGUEL
    “devo então depreender que considera o inglês uma língua irracional? (…) O Duarte tem o direito ao seu ponto de vista, mas eu temo que os ingleses se estejam a marimbar para um bloguista português que pensa que a língua deles é irracional.”

    Os cientistas de países de língua inglesa estão fartos de clamar unanimemente que a sua escrita tem graves consequências para a aprendizagem, com muito maior prevalência de erros, maior dificuldade de aprendizagem da leitura e da escrita, etc. Há décadas e décadas que o fazem. São é países ultranacionalistas, de cultura individualista, com estados fracos, que não conseguem impôr o sistema métrico, quanto mais uma reforma na ortografia. Mas, mais importante que isso, porque raio é que o inglês, língua de outros povos e culturas, deve ser exemplo para nós? Porque não olhar para o espanhol, o francês, o italiano, que são da nossa família linguística e cultura e também não escrevem consoantes etimológicas, a não ser que sejam mesmo pronunciadas?

    MIGUEL
    “as mudanças mais prementes são as que involvem a criação de novo vocabulário, suprindo lacunas em áreas da vida que anteriormente não existiam.”

    Isto não tem sustentação científica nenhuma. O Miguel diz que essas são as mudanças “mais prementes” porquê? Porque sim, porque ao Miguel lhe parece que sim? Na verdade, a língua muda ao longo do tempo em tudo: som, ordem de palavras, sentido das palavras e, sim, nas próprias palavras que são usadas. A ortografia não tem nada a ver com isso: é um norma de transposição da fala para a escrita, que como todas as normas pode ser melhorada, piorada, ou mumificada. Isso não tem a ver com a mudança que ocorre na fala nem na introdução de novas palavras.

    MIGUEL
    “Mudar pharmacia para farmácia, para que serviu isso? Não há um teste científico que possa provar que esta forma seja mais racional, objectiva ou prática. Foi uma alteração puramente subjectiva fabricada por alguém que achava que ficava melhor assim. Eu, que escrevo inglês todos os dias, subjectivamente acho que pharmacia é uma óptima grafia e não me importaria de voltar a usá-la.”

    Há, sim, veja bem a sua ignorância. Há milhares de estudos feitos. Comece por uma ponta (vai em inglês, como gosta): http://scholar.google.pt/scholar?hl=pt-PT&q=orthographic+depth&btnG=&lr=
    Faço-lhe um resumo: todos os “testes” mostram que há vantagem na aprendizagem da escrita e leitura de línguas com grafia não etimológica e que a grafia do inglês é um problema para a aprendizagem. Mas vá ver por si próprio. Leia qualquer coisa tão básica como o artigo da Wikipédia sobre a grafia do inglês, por exemplo.

    MIGUEL
    “A ortografia antes do século XVI era fonética, depois com o prestígio de classicistas como Camões e Sá de Miranda, passou a recorrer ao critério etimológico. Note que ninguém forçou ninguém a escrever português com etimologias greco-latinas; foi o prestígio dos nossos grandes poetas que fez com que quem soubesse escrever os imitasse – toda a gente culta obviamente queria escrever como o grande Camões. Isto é uma forma de mudança que eu tolero, o prestígio, porque é livre, é democrático.”

    Dou de barato que você é um ignorante de primeira em relação à história da grafia do português – a história que traça no seu comentário é simplista e falsa, não foi a grafia de Sá de Miranda ou de Camões a ditar o que quer que seja, mas antes algumas escolas de gramáticos e ortografistas que tinham grande influência na escrita ensinada no ensino. Mas isso é o menos, a questão é mais basilar do que isso.
    Segundo o Miguel, é democrático, portanto, exigir às pessoas que tenham todas o mesmo conhecimento da etimologia que os poetas têm para saberem escrever? Que para sermos avaliados num exame da primeira classe ou para escrevermos uma mera carta institucional tenhamos o mesmo labor que um poeta a escrever um poema? Ora aí está uma tese interessante. Duvido que alguém com juízo concorde consigo, mas é a sua tese.
    Ela cai, no entanto, numa coisa: ninguém é obrigado, como já não era, a escrever como quer que seja. Podemos aqui neste blogue escrever como bem nos apeteça. No seu trabalho, ou na escola, não tem essa “liberdade”, como nunca teve, nem no tempo dos emproados e “democraticíssimos” classicistas que andaram a inventar consoantes onde nem na etimologia elas existiam. Acha que o estado não devia ter uma ortografia uniformizada para o ensino, para a sua documentação, para a comunicação com os cidadãos? Havia de ser bonito. O que o Miguel acha, no fundo, é que o estado português não devia fazer um acordo com o Brasil. Acontece que o estado português, ou diferentes partidos eleitos democraticamente ao longo de duas décadas depois de terem dito nos seus programas eleitorais que aplicariam o acordo, foram eleitos democraticamente. O resto é treta: ninguém lhe tira liberdade nenhuma: já não a tinha, nem no estado nem no seu local de trabalho, e continua a não a ter, como não a têm os britânicos ou os americanos. Quanto ao resto, escreva como lhe apetecer, que ninguém o prenda.

    MIGUEL
    “Quando Samuel Johnson escreveu o seu famoso dicionário, no século XVIII, e fixou a grafia inglesa como hoje a conhecemos, a Coroa não obrigou ninguém a usar essa grafia, foram os escreventes que a adoptaram por livre vontade, porque Johnson era uma figura pública admirada. Quando o Noah Webster introduziu mudanças no inglês americano, no século XIX; o governo americano não obrigou ninguém a adoptá-las, o povo fê-lo de livre vontade. Está a ver aonde eu quero chegar? Só uma pessoa que acha que o estado tem o direito de meter o nariz na esfera privada, e eu não sou essa pessoa, é que defende um estado que obrigue 200 milhões de falantes a mudar de ortografia.”

    Sempre o inglês… A nossa língua não é o inglês, nós não somos anlófonos, não compramos com libras nem dólares, não usamos a milha, não votámos no Obama e no Cameron, não comemos ovos com bacon ao pequeno almoço (talvez o Miguel coma, tal é o amor). É curioso, mais uma vez, ver como segundo a sua opinião, ao que parece, devermos defender “a nossa identidade” seguindo as práticas do inglês. Impedir a influência brasileira – país fortemente relacionado com o nosso, histórica e culturalmente -, influência essa num idioma que partilha connosco e de que tem a larga maioria dos falantes, para em vez disso seguir os costumes de ingleses e americanos. Não eliminar as consoantes que não pronunciamos e nunca pronunciámos para a nossa língua ficar mais parecida com o inglês – que ainda por cima só escreve essas letras quando elas são pronunciadas. Venha falar-me de colonização…
    Para o português não houve um Johnson, além do mais. Quanto ao resto, é do mais ingénuo que pode existir: então os estados de língua inglesa não estabelecem a sua grafia? Cada pessoa escreve como quer, por exemplo no estado e no ensino? Aprendem por osmose, ou a ler os poetas em que segundo o Miguel o Johnson se baseou? Deu-nos a todos uma grande novidade. Ou será que aprendem, com muito mais dificudade do que as crianças que aprendem outras línguas, depois de insistentemente o estado tentar inculcar-lhes uma e apenas uma grafia? Está a brincar, certo?

    MIGUEL
    “Mas já agora, e voltando ao tópico da racionalidade, porque é que morcego não se escreve morsego? Morcego tem o mesmo som que sossego.”

    Porque a grafia muda lentamente. Não se faz reformas radicais à grafia em democracia. Há inúmeros estudos sobre isto. Esta reforma muda apenas um pouco as regras – cerca de 1,5%. É isso que tem que ir sendo feito, com tempo, como é em todas as línguas mais próximas do português aparte o inglês.

    MIGUEL
    “Mais um ponto, Duarte: “Para os que dizem que cedemos às exigências dos brasileiros, não estão a dizer a verdade pois é claramente visível que quem cedeu mais foram os brasileiros.” Esquece-se do seguinte: no acordo de 1945, Portugal fez muitas alterações à grafia, da mesma maneira que o Brasil deveria ter feito, se tivesse honrado a sua parte do acordo. Portugal fez menos cedências desta vez porque já foram todas feitas no passado. As cedências do Brasil são as que ficaram por fazer em 1945. Por favor, aprenda a história das reformas ortográficas.”

    Isso é falso: o Brasil nunca ratificou a reforma de 1945, ao contrário do que fez Portugal com a de 1990. A reforma de 1945 não tinha cedência nenhuma de Portugal ao Brasil: pelo contrário, queria obrigar os brasileiros a reintroduzirem as consoantes mudas e a escreverem “António”, entre outras coisas. Ou seja, queria obrigar, sem mais, o Brasil a usar a grafia portuguesa, coisa que o Brasil, por razões óbvias recusou. O Brasil fez uma reforma nos anos 70 muito mais profunda do que a portuguesa da mesma altura para aproximar a sua grafia da portuguesa. Por favor, aprenda você a história das reformas ortográficas antes de andar arrogantemente a pregar aos outros que o façam. Em 1990 os países cederam igualmente: o Brasil em número de regras, Portugal apenas numa, mas na regra com mais impacto, a das consoantes mudas, coisa que até Houaiss dizia que era uma cedência maior do que todas as que o Brasil fez. Alguns brasileiros mais nacionalistas também acham que não tinham nada que mudar agora a grafia “por imposição de Portugal”, que “lhes faz falta o trema”, que “ideia vai fazer mudar a pronúncia”, etc. Ignorância há em todo o lado.

    MIGUEL
    “Outra questão, Duarte: Se temos a pretensão de que o português seja uma língua de projeção mundial, falada por 300 milhões de pessoas, é evidente que teremos de fazer acordos com os outros 7 países que, presentemente, falam a língua portuguesa.” Os ingleses e os americanos escrevem grafias diferentes, nem eles têm uma política comum de promoção de língua, e a língua inglesa é a língua franca do mundo. Mas é irónico que fale de acordos entre os 8 países, quando a maioria ainda não aplicou nem ratificou o acordo.”

    Os “ingleses e os americanos” não têm uma lei a determinar as regras da sua grafia, até porque a grafia do inglês não é baseada em “regras”, mas em grafias individuais. Se tivessem duas leis nacionais vinculativas, como tinham Brasil e Portugal, talvez também tivessem que chegar a um acordo para tornar essa lei numa coisa única, como os países de língua portuguesa fizeram em 1990. O resto é mais uma mentira sua (ou então é mesmo ignorância, mas duvido): a maioria dos países de língua portuguesa já ratificou o acordo, como é mais que sabido.

    MIGUEL
    “Essas designações continuarão a aprofundar-se no futuro, porque continuará a haver duas variantes claramente diferentes. Qualquer português ou brasileiro pode olhar para um texto escrito ao abrigo do AO90 e em poucos segundos detectará pequenos toques que distinguem uma variante da outra.”

    Do mesmo modo que podemos olhar para um texto dos EUA e um do RU e distingui-los, e o mesmo para França e Quebeque, Espanha e Argentina, etc. O acordo não é uma unificação linguística, é uma unificação das regras de escrita. Mas deixamos de poder fazer essa distinção com tanta facilidade com base na ortografia, por muito que isso lhe doa. As grafias das palavras foram muito fortemente unificadas e as regras de escrita foram-no completamente. Deixou de haver idéia e ideia, antiiglês e anti-inglês, actual e atual, vôo e voo, etc, etc, etc. Só não se unificou o que se pronuncia de maneira diferente, como convém e como acontece em todas as outras línguas: quando a pronúncia o exige há grafias diferentes (até dentro de Portugal as há, caramba, e muitas).

    MIGUEL
    “O sonho insano de que com o AO90, agora a escrita passará a ser a mesma nos documentos da ONU, UE, revistas científicas, etc. é uma fábula. Nenhum brasileiro quererá ver a palavra rapariga, que significa prostituta para eles, num documento oficial da ONU.”

    Isso é uma conversa que nada tem a ver com a grafia. Rapariga pode ser desadequado em parte do Brasil (e apenas em parte, sabia?), mas não há uma lei de âmbito nacional a determinar que se use essa ou qualquer outra palavra – além de que isso é só um exemplo isolado de uma coisa isolada, como faz dentro de Portugal quando quer escrever um texto que seja entendido por todos (piaçá ou piaçaba?, panito ou pãozinho? moça, cachopa, miúda ou rapariga?). Agora se quisesse escrever a palavra ideia (a mesma palavra em todo o lado), não podia fazê-lo sem desrespeitar a lei de um dos países. Entendeu agora?

    MIGUEL
    Não tenha dúvidas, a cisão vai continuar, este acordo não vai servir para nada salvo apagar a presença do português de Portugal no mundo, o que poderia ser evitado se Portugal se preocupasse mais em defender os seus interesses – como o Brasil faz tão bem – em vez de continuar a acreditar no mito da Lusofonia.”

    E voltamos aqui, ao cerne da questão. Aqui nem discordo de si nem concordo com o que diz: é política. Escusava era de ter disparado arrogantemente mentiras, ingenuidades e ignorância para exprimir a sua opinião política de que “isto é tudo jogatana dos mauzões dos brasileiros que querem colonizar-nos e ficar com o “nosso” mercado africano e nós estávamos melhor era sozinhos e a seguir as (muito boas, excelentes) práticas dos ingleses e dos americanos, que são nossos amigos e o nosso farol cultural, etc, etc”. Estamos conversados, espero.

  10. Caro Alguém, obrigado pela sua resposta detalhado. Tentarei responder conforme.

    1
    “Os cientistas de países de língua inglesa estão fartos de clamar unanimemente que a sua escrita tem graves consequências para a aprendizagem, com muito maior prevalência de erros, maior dificuldade de aprendizagem da leitura e da escrita, etc. Há décadas e décadas que o fazem. São é países ultranacionalistas, de cultura individualista, com estados fracos, que não conseguem impôr o sistema métrico, quanto mais uma reforma na ortografia. Mas, mais importante que isso, porque raio é que o inglês, língua de outros povos e culturas, deve ser exemplo para nós? Porque não olhar para o espanhol, o francês, o italiano, que são da nossa família linguística e cultura e também não escrevem consoantes etimológicas, a não ser que sejam mesmo pronunciadas?”

    Em todos os países do mundo há sempre pessoas que nunca estão satisfeitas. Como é que esses cientistas explicam o facto que o inglês é uma das línguas mais faladas do mundo, e que a Inglaterra e os EUA têm taxas de alfabetismo superiores às de Portugal e Brasil? Onde vê estados fracos, eu vejo estados que limitam a interferência na esfera privada dos cidadãos. Talvez gostasse que fossem mais como em Portugal, onde o estado tem tentáculos em tudo. Mas o mundo anglo-americano tem uma tradição de vive e deixa viver. Têm toda a razão, são individualistas, e não há nada melhor do que indivíduos. Grupos e comunidades, e o bem maior, para mim, nunca passam de desculpas para justificar atropelos de justiça e intromissões.

    Agora, porquê olhar para o inglês? Bem, porque um dos objectivos claros do acordo é a expansão do português no mundo, logo não faz sentido olhar para o italiano, falado apenas na Itália, e para o francês, que anda a perder lugar para o inglês, o espanhol e, presumo, o chinês. O inglês é o inimigo a ser derrotado. Mas estas línguas expandam-se não por causa de ortografias simples, mas por motivos económicos e geopolíticos. O português, mesmo sem o acordo, vai certamente ganhar alguma força pelo simples facto que o Brasil e a Angola são países em clara ascensão.

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    “Isto não tem sustentação científica nenhuma. O Miguel diz que essas são as mudanças “mais prementes” porquê? Porque sim, porque ao Miguel lhe parece que sim? Na verdade, a língua muda ao longo do tempo em tudo: som, ordem de palavras, sentido das palavras e, sim, nas próprias palavras que são usadas. A ortografia não tem nada a ver com isso: é um norma de transposição da fala para a escrita, que como todas as normas pode ser melhorada, piorada, ou mumificada. Isso não tem a ver com a mudança que ocorre na fala nem na introdução de novas palavras.”

    Bem, sem o vocabulário informático que entrou na língua nos últimos anos, por exemplo, não conseguiríamos falar sobre uma considerável parte da nova realidade do mundo pós-informático. Como a realidade está sempre a mudar, convém ter vocabulário para pensarmos sobre ela. Caso contrário, então sim, estaríamos parados no tempo. Agora, quando à ortografia, pode-se pensar sobre a realidade tanto com a de 1945 como com a de 1990. É por isso que para mim a ortografia não é um questão premente.

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    Há, sim, veja bem a sua ignorância. Há milhares de estudos feitos. Comece por uma ponta (vai em inglês, como gosta): http://scholar.google.pt/scholar?hl=pt-PT&q=orthographic+depth&btnG=&lr=
    Faço-lhe um resumo: todos os “testes” mostram que há vantagem na aprendizagem da escrita e leitura de línguas com grafia não etimológica e que a grafia do inglês é um problema para a aprendizagem. Mas vá ver por si próprio. Leia qualquer coisa tão básica como o artigo da Wikipédia sobre a grafia do inglês, por exemplo.”

    Verifico, porém, que é uma hipótese, portanto não provada. Se todos os testes realmente provassem o que afirma, isto não seria uma hipótese. Nem chegou sequer ao estágio de teoria. Como deve saber, na ciência a diferença entre uma teoria e uma hipótese é que a última ainda carece de resultados rigorosos. Ficarei à espera deles. De qualquer modo, volto a reiterar: a Inglaterra tem uma melhor taxa de alfabetização do que nós.

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    “Dou de barato que você é um ignorante de primeira em relação à história da grafia do português – a história que traça no seu comentário é simplista e falsa, não foi a grafia de Sá de Miranda ou de Camões a ditar o que quer que seja, mas antes algumas escolas de gramáticos e ortografistas que tinham grande influência na escrita ensinada no ensino. Mas isso é o menos, a questão é mais basilar do que isso.
    Segundo o Miguel, é democrático, portanto, exigir às pessoas que tenham todas o mesmo conhecimento da etimologia que os poetas têm para saberem escrever? Que para sermos avaliados num exame da primeira classe ou para escrevermos uma mera carta institucional tenhamos o mesmo labor que um poeta a escrever um poema? Ora aí está uma tese interessante. Duvido que alguém com juízo concorde consigo, mas é a sua tese.”

    Tanto esses gramáticos – presumo que se refira, por exemplo, a Duarte Nunes de Leão – como Sá de Miranda e Camões foram animados pelo mesmos espírito Renascentista, profundamente classicista, virado para o Latim. Não discordo que as gramáticas pseudo-etimológicas precedem Os Lusíadas, mas a ortografia do Camões foi importante na fixação desse modelo.

    Quanto ao saber dos poetas e das pessoas, bem, eu não sei Latim, mas tenho o poder da memória, e sei reter ensinamentos. Alguém que aprenda a escrever a palavra orthographia na escola, basta recorrer a essa capacidade que é universal a todos os seres humanos. Nenhum poeta, afinal, nasceu sabido, também foi alguém que um dia teve de aprender.

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    “Ela cai, no entanto, numa coisa: ninguém é obrigado, como já não era, a escrever como quer que seja. Podemos aqui neste blogue escrever como bem nos apeteça. No seu trabalho, ou na escola, não tem essa “liberdade”, como nunca teve, nem no tempo dos emproados e “democraticíssimos” classicistas que andaram a inventar consoantes onde nem na etimologia elas existiam. Acha que o estado não devia ter uma ortografia uniformizada para o ensino, para a sua documentação, para a comunicação com os cidadãos? Havia de ser bonito. O que o Miguel acha, no fundo, é que o estado português não devia fazer um acordo com o Brasil. Acontece que o estado português, ou diferentes partidos eleitos democraticamente ao longo de duas décadas depois de terem dito nos seus programas eleitorais que aplicariam o acordo, foram eleitos democraticamente. O resto é treta: ninguém lhe tira liberdade nenhuma: já não a tinha, nem no estado nem no seu local de trabalho, e continua a não a ter, como não a têm os britânicos ou os americanos. Quanto ao resto, escreva como lhe apetecer, que ninguém o prenda.”

    Não sei como funcionava, mas creio que até ao século XX se escrevia como se queria. Era a consequência de não haver um sistema de ensino nacional. Obviamente penso que é preciso haver uma norma, mas tendo ela sido criada em 1911 e, a partir de então, imposta pelo ensino nacional, não vejo qualquer motivo para mais alterações. Quando uma norma é ensinada ela não vai mudar por si mesma, porque está sempre a ser corrigida, em casa, nos meios de comunicação, na escola, etc.

    Quanto aos partidos eleitos e à democracia, convém lembrar que o acordo de 1986 foi rechaçado. De resto, todos nós sabemos que os portugueses não fazem a menor ideia dos programas em que votam, eles querem lá saber. Não somos a Islândia, onde a auditoria das contas foi um bestseller. Aqui os bestsellers são a Margarida Rebelo Pinto. Os portugueses só querem é que alguém lhes prometa que os impostos vão baixar. Posto isso, o povo tem-se batido contra o acordo através de sondagens, petições, pareceres de várias instituições – do próprio ministério da educação – o que quer dizer que não é tão simples como pensa. A sua ideia da democracia não tem nada que ver com a minha. Para mim a democracia não é ir votar num domingo a cada 4 anos, a democracia vive-se todos os dias. Um povo pode muito bem eleger um partido e ser contra aspectos do seu programa. E uma nota final sobre a democracia: espero que esteja a par do caso do dramaturgo Abel Neves, cuja obra foi rejeitada pela Imprensa Nacional por não seguir o acordo. Espero que se orgulhe daquilo que a imposição a todo o custo deste acordo está a fazer pelos direitos em Portugal:

    6
    “Sempre o inglês… A nossa língua não é o inglês, nós não somos anlófonos, não compramos com libras nem dólares, não usamos a milha, não votámos no Obama e no Cameron, não comemos ovos com bacon ao pequeno almoço (talvez o Miguel coma, tal é o amor). É curioso, mais uma vez, ver como segundo a sua opinião, ao que parece, devermos defender “a nossa identidade” seguindo as práticas do inglês. Impedir a influência brasileira – país fortemente relacionado com o nosso, histórica e culturalmente -, influência essa num idioma que partilha connosco e de que tem a larga maioria dos falantes, para em vez disso seguir os costumes de ingleses e americanos. Não eliminar as consoantes que não pronunciamos e nunca pronunciámos para a nossa língua ficar mais parecida com o inglês – que ainda por cima só escreve essas letras quando elas são pronunciadas. Venha falar-me de colonização…”

    Bem, eu tenho uma licenciatura em Estudos Ingleses, não em Estudos Brasileiros, confesso por isso que tenho certos preconceitos nesta matéria. Mas convém notar que também não compramos com reais nem votámos na Dilma, nem bebemos cerva. Eu acho a posição do mundo anglo-americano louvável, sim, no tocante a questões ortográficas: oficialmente estão-se nas tintas, vivem relaxados, os filhos escrevem na mesma grafia que os pais e os avós, os livros nunca precisam de ser actualizados. Nós é que vivemos agitados, nervosos e ansiosos a respeito da uniformização das variantes, movidos, talvez, pela égide daquele progresso que aparece estampado na bandeira brasileira, progresso esse comezinho, pois em vez de tratar dos problemas sociais do povo brasileiro, brinca com ortografias que não vão tirar crianças da miséria das favelas.

    De resto, quanto à influência do Brasil, as pessoas da minha idade – 29 anos – marimbam-se para ela. Sabemos mais da história dos EUA do que da do Brasil, falamos com mais anglicismos do que brasileirmos – aliás, nunca usamos brasileirismos – vemos os filmes deles, as séries deles, falamos no Facebook deles. E sabe que mais? Antes da massificação da cultura anglo-americana, naquela idade das trevas da televisão portuguesa, onde só havia um canal e ele só passava telenovelas brasileiras, nem então queríamos saber do Brasil, eu nunca crescia a ouvir os meus amigos a falarem com brasileirismos, da maneira como agora ouço adultos a falar anglicismos. Por mais que insista, a relação entre os dois países é artificial, mantida viva por esquemas políticos, mas a população é livre de escolher, e escolhe a cultura anglo-americana, mas vital, mais divertida, mais generosa, mais bem feita.

    “Para o português não houve um Johnson, além do mais. Quanto ao resto, é do mais ingénuo que pode existir: então os estados de língua inglesa não estabelecem a sua grafia? Cada pessoa escreve como quer, por exemplo no estado e no ensino? Aprendem por osmose, ou a ler os poetas em que segundo o Miguel o Johnson se baseou? Deu-nos a todos uma grande novidade. Ou será que aprendem, com muito mais dificudade do que as crianças que aprendem outras línguas, depois de insistentemente o estado tentar inculcar-lhes uma e apenas uma grafia? Está a brincar, certo?”

    O que quis dizer foi que o processo foi mais natural e com menos intervenção do estado. O Dicionário do Johnson não foi subvencionado pela Coroa, ao contrário da reforma de Gonçalves Viana. Quando um sistema de ensino nacional se começou a formar na inglaterra, já tinha aquele dicionário feito, e dado o prestígio de Johnson, ele foi-se tornando a norma. Obviamente que após algum tempo ela passou a ser a norma educacional, adoptada pelo governo. Mas convém notar aqui a inversão dos papéis: aqui foi um privado que influenciou o estado; em Portugal é o estado que contrata uns peritos e mandas-lhe criar uma grafia totalmente nova que vai mudar tudo. Osmose? Não, mas pelo menos foi mais orgânico.

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    “Porque a grafia muda lentamente. Não se faz reformas radicais à grafia em democracia. Há inúmeros estudos sobre isto. Esta reforma muda apenas um pouco as regras – cerca de 1,5%. É isso que tem que ir sendo feito, com tempo, como é em todas as línguas mais próximas do português aparte o inglês.”

    A sério? Acertar morcego com sossego em 1911 teria sido uma reforma radical? Mais do que todas as reformas radicais feitas em 1911? E tendo em conta que ainda não desta que o lapso foi resolvido, isso quer dizer que vai haver mais um acordo no futuro? Quando é que isto vai acabar? Quando é vamos viver em paz, em vez de andarmos agitados e nervosos sobre a ortografia? Que autoridade reclama para andar sempre a interferir na vida e hábitos das pessoas?

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    “Isso é falso: o Brasil nunca ratificou a reforma de 1945, ao contrário do que fez Portugal com a de 1990. A reforma de 1945 não tinha cedência nenhuma de Portugal ao Brasil: pelo contrário, queria obrigar os brasileiros a reintroduzirem as consoantes mudas e a escreverem “António”, entre outras coisas. Ou seja, queria obrigar, sem mais, o Brasil a usar a grafia portuguesa, coisa que o Brasil, por razões óbvias recusou. O Brasil fez uma reforma nos anos 70 muito mais profunda do que a portuguesa da mesma altura para aproximar a sua grafia da portuguesa. Por favor, aprenda você a história das reformas ortográficas antes de andar arrogantemente a pregar aos outros que o façam. Em 1990 os países cederam igualmente: o Brasil em número de regras, Portugal apenas numa, mas na regra com mais impacto, a das consoantes mudas, coisa que até Houaiss dizia que era uma cedência maior do que todas as que o Brasil fez. Alguns brasileiros mais nacionalistas também acham que não tinham nada que mudar agora a grafia “por imposição de Portugal”, que “lhes faz falta o trema”, que “ideia vai fazer mudar a pronúncia”, etc. Ignorância há em todo o lado.”

    Quanto à questão do acordo de 1945, recomendo que leia este texto, escrito por um brasileiro, de “opinião insuspeita”:

    http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5%2815%2958-67.html

    Eis a parte mais relevante:

    “Mas se a intenção de realizar uma unificação completa revelou-se negativa, como se poderá verificar posteriormente, não se pode negar que o reconhecimento de peculiaridades do falar brasileiro foi bastante positivo, fazendo jus às contumazes tentativas, por parte do Brasil, de viabilizar um discurso nacionalista: de fato, após todo um período de intolerância, em maior (1911) ou menor (1931) grau, a conferência de 1945 foi aquela que mais transigente se mostrou para com as variantes ortográficas do Brasil; basta que se verifiquem as palavras de Sá Nunes, um dos integrantes brasileiros da dita conferência e, por isso mesmo, de opinião insuspeita: “quem se der ao trabalho de averiguar os documentos oriundos da Conferência Interacadêmica de Lisboa, há de certificar-se de que muito mais concessões fizeram eles (os portugueses) à nossa maneira de escrever do que nós à deles”. Tais concessões, contudo, não foram suficientes para que o Brasil amainasse de todo sua posição nacionalista, que continuou prevalecendo em suas decisões finais: a reforma, no final das contas, acabou se inviabilizando, e as principais causas do malogro encontram-se na relutância do Brasil em aceitar pelo menos duas modificações ortográficas: a conservação das consoantes mudas não-articuladas, o que corresponderia a voltar a uma situação já há muito abolida no país; a adoção do acento agudo, em vez do circunflexo, nas vogais tônicas e e o, antes de consoantes nasais, ainda que tais acentos marcassem apenas a tonicidade e não o timbre destas vogais. Permaneceu, portanto, uma situação de divergência entre as duas nações signatárias do acordo, já que o mesmo foi, num primeiro momento, adotado por Portugal (Decreto 35.228, de 08.12.1945) e pelo Brasil (Decreto-lei 8.286, de 05.12.1945), mas posteriormente rejeitado por este (Decreto-lei 2.623, de 21.10.1955).”

    Portanto, Portugal fez muitas concessões em 1945, implementou essas mudanças, mas o Brasil cortou-se. Logo, tinha um excesso de reformas por fazer de forma a ficar equilibrado connosco.

    9
    “Os “ingleses e os americanos” não têm uma lei a determinar as regras da sua grafia, até porque a grafia do inglês não é baseada em “regras”, mas em grafias individuais. Se tivessem duas leis nacionais vinculativas, como tinham Brasil e Portugal, talvez também tivessem que chegar a um acordo para tornar essa lei numa coisa única, como os países de língua portuguesa fizeram em 1990. O resto é mais uma mentira sua (ou então é mesmo ignorância, mas duvido): a maioria dos países de língua portuguesa já ratificou o acordo, como é mais que sabido.”

    Portugal e Brasil podiam muito bem ter evitado o drama dos acordos se cada um tivesse ido para o seu lado, como fizeram a Inglaterra e os EUA. Esta é a diferença: eles não querem saber ‘duma coisa única,’ nós e os brasileiros é que vivemos obcecados por isso. Quando à restante Lusofonia, Angola, Moçambique, etc ou ainda não ratificaram ou ainda não começaram a implementar o acordo. Só nós estamos com pressa.

    10
    “Do mesmo modo que podemos olhar para um texto dos EUA e um do RU e distingui-los, e o mesmo para França e Quebeque, Espanha e Argentina, etc. O acordo não é uma unificação linguística, é uma unificação das regras de escrita. Mas deixamos de poder fazer essa distinção com tanta facilidade com base na ortografia, por muito que isso lhe doa. As grafias das palavras foram muito fortemente unificadas e as regras de escrita foram-no completamente. Deixou de haver idéia e ideia, antiiglês e anti-inglês, actual e atual, vôo e voo, etc, etc, etc. Só não se unificou o que se pronuncia de maneira diferente, como convém e como acontece em todas as outras línguas: quando a pronúncia o exige há grafias diferentes (até dentro de Portugal as há, caramba, e muitas).”

    Basta olhar para a posição do pronome… Talvez isso seja corrigido no próximo acordo. Aposto que está ansioso.

    11
    “Isso é uma conversa que nada tem a ver com a grafia. Rapariga pode ser desadequado em parte do Brasil (e apenas em parte, sabia?), mas não há uma lei de âmbito nacional a determinar que se use essa ou qualquer outra palavra – além de que isso é só um exemplo isolado de uma coisa isolada, como faz dentro de Portugal quando quer escrever um texto que seja entendido por todos (piaçá ou piaçaba?, panito ou pãozinho? moça, cachopa, miúda ou rapariga?). Agora se quisesse escrever a palavra ideia (a mesma palavra em todo o lado), não podia fazê-lo sem desrespeitar a lei de um dos países. Entendeu agora?”

    Mas tem que ver com o acordo. Como afirma Bechara:

    http://pontofinalmacau.wordpress.com/2011/04/12/%E2%80%9Ca-reforma-ortografica-e-o-guarda-chuva-da-diversidade%E2%80%9D/

    “Passados mais de 100 anos, a tentativa de unificação passou a ter outro sentido, tão importante como o peso didáctico-pedagógico da simplificação: o bloco lusófono passou a ter uma importância maior no concerto universal. Esse concerto precisava de uma língua escrita unificada. Nos grandes escritórios internacionais saía um texto em francês que servia França, Canadá e outros países francófonos, que tinham diferenças gramaticais, mas a unificação ortográfica sobrepunha tudo isso. A mesma coisa com Espanha. Aparecia um texto em espanhol, grafado unificado, e sabemos que as diferenças do espanhol da Europa e da América são muito grandes. Não saía texto em português, porque havia o problema: na ortografia brasileira ou na ortografia portuguesa? Agora não. A reforma ortográfica é o guarda-chuva da diversidade, mas ela, no seu sentido de unificação, vem facilitar a presença do bloco de língua portuguesa – oito nações – no grande debate universal da economia, da tecnologia, cultura, etc.”

    Agora diga-me, quando um destes textos unificados sobre a Polónia ou a Rússia aparecer, como é que vai ser redigido? Polaco ou polonês, Moscovo ou Moscou? Duas versões terão de continuar a ser feitas, a não ser que tenha perdido por completo o seu amor-próprio que esteja pronto a ver documentos oficiais escritos à brasileira.

    Em vez de estarmos preocupados com unificações de grafias, acho que os dois países deviam era ter promovido uma mútua tolerância pelas grafias diferentes, coisa que julgo nunca ter havido. O problema que temos hoje em dia é que os portugueses não gostam de ler em brasileiro e os brasileiros não gostam de ler em português. É por isso que há décadas que cada um anda a ‘traduzir’ os livros do outro, certamente por chauvinismo e casmurrice, pois eu não imagino um brasileiro a não compreender objecto da mesma forma que não imagino um português bloqueado por aspeto. Ora, os livros com grafia do RU são vendidos e lidos nos EUA, e vice-versa. Isso é tolerância, isso é um intercâmbio cultural livre, isso é desejável e saudável. Uniformizações à força? Sem antes produzir um verdadeiro aproximamento entre os dois povos? Isso é que vai gerar mais xenofobia, mais ressentimento, mais desdém. Iremos ver se a uniformização valeu a pena.

    12
    “E voltamos aqui, ao cerne da questão. Aqui nem discordo de si nem concordo com o que diz: é política. Escusava era de ter disparado arrogantemente mentiras, ingenuidades e ignorância para exprimir a sua opinião política de que “isto é tudo jogatana dos mauzões dos brasileiros que querem colonizar-nos e ficar com o “nosso” mercado africano e nós estávamos melhor era sozinhos e a seguir as (muito boas, excelentes) práticas dos ingleses e dos americanos, que são nossos amigos e o nosso farol cultural, etc, etc”. Estamos conversados, espero.”

    Não creio estarmos conversados, até estou a gostar bastante deste debate. Num ponto concordamos, isto é tudo política. Já o disse Malaca Casteleiro antes de nós. Mas está a pôr palavras na minha boca. Eu não falei dos mercados cobiçados pelas editoras brasileiras, apesar de isso ser verdade, isso nem me preocupa. Nunca haverá um mercado único de livros, as duplas edições continuarão dado que as diferenças vão muito além da ortografia. Os interesses de que falava eram mais no sentido de o Brasil estar determinado a fazer do português uma língua oficial da ONU, objectivo embotado pela dupla grafia, segundo alguns pensam. Não ponho de parte também que a antiga colónia esteja a sofrer de um complexo de inferioridade. Para os brasileiros, uma ascendente super-potência, deve ser embaraçoso não terem uma língua própria, mas apenas um português “do Brasil.” A casa-mãe da língua fica num país decrépito, na bancarrota, habitado por gente cuja história terminou e ainda nem sabem, está errado, está sim senhor. Pensa que eu sou xenófobo e chauvinista, mas as cartas escritas por Jorge de Sena onde ele descreve a perseguição e sabotagem que sofreu dos seus colegas académicos brasileiros apenas por ser português, não fui eu que as imaginei. Assim como não imaginei as crónicas de Adolfo Casais Monteiro onde ele deu a conhecer críticos literários que achavam que a poesia portuguesa, nos anos 60, não valia para nada – era apenas a poesia de Sena, Eugénio de Andrade, Sophia, etc., realmente literatura menor – e que aos brasileiros cabia levar a literatura de expressão portuguesa para a frente, pois só eles tinham o génio para isso. E também não fui eu que imaginei uma actriz de meia-tigela a cuspir numa fonte centenária de Sintra.

    O desdém do Brasil por Portugal está amplamente documentado. A Lusofonia, como Eduardo Lourenço uma vez escreveu, é um mito em que apenas Portugal acredita. E existe para ser explorado pelos outros, que, através dele, conseguem de Portugal aval para tudo. A Lusofonia justifica tudo, até o nosso suicídio.

    Sabe, eu gosto da literatura brasileira, eu gosto de Jorge Amado, Carlos Drummond, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, Euclides da Cunha. Mas há claramente uma veia maquiavélica ou hobbesiana nos políticos brasileiros, um povo que sabe o que quer e que pratica realpolitik com brio, explorando ténues laços culturais. Ah, se nós os soubéssemos imitar! Mas sempre fomos um povo bacoco.

  11. […] https://duartenuno.wordpress.com/2014/01/25/ainda-sobre-o-acordo-ortografico-5/ […]

  12. Nisto do acordo ortográfico quem é a favor é porque sim e quem é contra é também porque sim. Ainda assim tentarei lançar alguma luz na discussão, dividindo a minha análise em 3 partes:

    a) O acordo ortográfico enquanto reforma ortográfica:

    Qualquer reforma ortográfica implica alguma perturbação até que as pessoas se habituem à nova forma de escrever. Resta saber é se os ganhos para a língua justificam essa perturbação.
    Na reforma de 1911 parece-me que sim, simplificou muitíssimo a ortografia. Nesta, sinceramente não consigo ver qualquer vantagem – não vejo que tenha simplificado a língua e não vejo que tenha melhorado alguma coisa.

    Alguém escreveu aqui que as crianças começaram a dar menos erros ortográficos depois do acordo ter entrado em vigor – com todo o respeito mas isto é um dos argumentos mais ridículos que já li. Há algum estudo sobre isto ? Obviamente que não.

    Eu não consigo explicar aos meus filhos porque é que teta se lê ‘têta’ e teto não se lê ‘têto’.
    Porque é que coreto se lê ‘corêto’ e correto não se lê ‘corrêto’ ?
    Porque é que dotar se lê ‘dutar’ e adotar não se lê ‘adutar’ ?
    Porque é que nativo se lê ‘nâtivo’ e ativo não lê ‘âtivo’ ?

    Admito que a consoante muda em palavras como óptimo, actual ou lacticínio não fazia falta nenhuma mas noutras palavras era importante. Seria necessário ter sido analisada palavra a palavra. Pois… mas para isso era necessário gente competente a fazer o acordo ortográfico…
    Cortar a direito é sempre mais fácil e dá menos trabalho – infelizmente os resultados é que nem sempre são os melhores.

    b) A unificação ortográfica:

    Tanto quanto sei o acordo ortográfico está a ser amplamente utilizado tanto em Portugal como no Brasil. No entanto, ainda não vi qualquer texto ou qualquer documento escrito nessa tal ortografia unificada e comum tanto a Portugal como ao Brasil.
    Se calhar não vi porque não existe. A ortografia brasileira continua diferente da portuguesa e tão afastadas como sempre.

    Aliás, penso que o objectivo desta reforma nunca foi unificar as ortografias. O objectivo foi apenas fingir que se unificava. Repare-se nas palavras húmido/úmido e andebol/handebol – não deviam os brasileiros tirar o ‘h’ de handebol, nós tirávamos de húmido e passávamos a escrever de forma igual ?
    Pois… mas não foi isso que foi feito e preferiu-se deixar tudo na mesma porque o objectivo era apenas fingir a unificação.

    c) A participação dos restantes países lusófonos:

    Lê-se constantemente que este acordo foi o resultado de estudos aprofundados com representantes de todos os países de língua portuguesa… blá, blá, blá…

    Não tenhamos ilusões. Este acordo foi combinado apenas entre portugueses e brasileiros ponto. Os restantes assinaram de cruz.

    Repare-se no exemplo de Angola e Moçambique. Em 1990 estavam envolvidos numa guerra civil e assinavam tudo o que se lhes pusesse à frente. Actualmente que já estão mais estabilizados nem sequer ratificam o acordo ortográfico… quanto mais aplicá-lo…
    Os restantes países de facto já ratificaram o acordo. Só que… não estão a aplicá-lo nem pretendem fazê-lo. Macau inclui-se neste grupo.

    Felizmente os manuais escolares de português dos 7º, 8º e 9ºano espelham esta realidade com toda a clareza. Há uns anos atrás diziam que havia duas normas de ortografia de português: a brasileira e a luso-africana.

    Agora descrevem ‘com todas as letras’ que há três: a brasileira, a europeia e a afro-asiática. Mas como oficialmente já só existe uma norma passaram a chamar de ‘variedade geográfica’.
    A variedade geográfica afro-asiática era aquela que se usava em Portugal antes da entrada em vigor do acordo ortográfico.

    E agora ? O que fazer ? Se calhar, voltar atrás e deixar tudo como estava talvez seja a melhor atitude…

  13. A obra de Abel Neves não terá sido rejeitada pela Impresa Nacional. Terá sido o autor a recusar-se a publicar pela ortografia do Acordo de 1990, adotada pela editora do Estado. Note-se que é a editora do Estado, que publica o Diário da República pela mesma norma, por disposição governamental.
    Será que o autor se recusa a levar os filhos, se os tiver, à escola?

  14. A obra de Abel Neves foi rejeitada pela Imprensa Nacional porque o autor se recusou a autorizar a tradução da obra para o português do acordo.

    Actualmente ambas as normas estão em vigor. Inclusivamente, o AO-45 continua a ser a norma utilizada em todos os países de língua oficial portuguesa excepto o Brasil e Portugal (Angola e Moçambique não ratificaram o acordo e os restantes apesar de o ratificarem não o utilizam).

    O autor quis escrever pelo AO-45 porque apenas em Portugal se utiliza o AO-90 e daria assim um carácter mais universal à obra por seguir a ortografia dos PALOP e de Timor.

    Neste caso, houve alguma prepotência da Imprensa Nacional. Se o autor fosse angolano e escrevesse pela ortografia que está em vigor no seu país, a obra também teria sido recusada ?
    E se fosse brasileiro a escrever pelo AO-90 do Brasil, também o obrigavam a traduzir para a ortografia portuguesa ?

    Pedro Oliveira Reis

  15. Pedro, não gaste o português; tentar explicar a esta gente porque é que recusar a publicação de um livro com base na ortografia é repugnante, é pura perda de tempo. De resto, são hábitos enraizados na nossa sociedade, basta pensarmos no julgamento de Aquilino, das Três Marias, e da censura contra o romance de Saramago. É tudo política, e este acordo é político, por isso não me admira que os seus defensores olhem para o lado quando liberdades civis estão a ser ameaçadas.


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