Publicado por: Duarte | 2 Setembro, 2014

Porque apoio António Costa nas primárias do PS

Historiando os antecedentes deste processo, importa referir alguns factos, sem adjetivar os mesmos para não inquinar uma análise justa e serena, que sobre os mesmos cada um possa tirar conclusões.

Destacamos assim um conjunto de situações que ocorreram após a tomada de posse do governo de Passos Coelho/Paulo Portas, e a eleição de António José Seguro (AJS) para liderar o Partido Socialista.

1ª – A sistemática recusa de Seguro de desmontar a campanha do PSD/CDS de responsabilizar o governo de José Sócrates da crise económica que o País atravessou, quando já nessa data era claro que a crise foi Europeia e desencadeada em 2006 pelo Subprime nos EUA, com o seu auge em 2008. Seguro ao aceitar a justificação da direita neoliberal ficou sem condições para criticar as gravosas medidas do governo.

2ª – Seguro efetuou diversas reuniões a sós com Passos Coelho, recusando-se, após as mesmas, a esclarecer quem quer que seja, o que questionou ou acordou com o 1º Ministro Passos Coelho. Nem à Comunicação Social deu qualquer palavra de circunstância.

3ª – Seguro deixou instalar a convicção na opinião pública de que não havia alternativa ás gravosas medidas do governo, seja nos cortes de salários, nas reformas ou aumento de impostos, pois quando o governo dizia que cortava dois subsídios, defendia que o corte fosse só de um subsídio ou quando Passos Coelho aumentava impostos, perguntava “porquê que não aumenta só metade”.

3ª – Tornou-se voz corrente entre comentadores na Comunicação Social de que o PS não era alternativa ao governo do PSD/CDS, utilizando-se a expressão de que “O Secretário Geral do PS era o seguro da atual maioria”, como o demonstravam as sondagens regularmente publicadas.

4ª – Seguro nunca foi capaz de desmontar as afirmações de Passos, Portas, Gaspar ou dos comentadores de serviço do governo, de júbilo que manifestavam por terem conseguido ir aos mercados em condições mais favoráveis, quando o que deveria ter denunciado era que o governo estava a aumentar a Dívida Pública do País.

Recorde-se que o governo quando tomou posse prometia reduzir a divida pública que era de 97% do PIB, mas presentemente a Dívida Pública é de 132% do PIB, não obstante a obtenção de receitas extraordinárias com a venda ao desbarato das Empresas Públicas lucrativas, do escandaloso aumento de impostos e na redução de despesas, com os cortes salariais na função pública e nas pensões.

5ª – Não tomou posição firme contra as privatizações, salvo no caso da RTP, quando declarou que anularia a decisão logo que assumisse funções governativas, o que travou a decisão do Governo.

Declaração idêntica poderia ter sido feita quando o governo manifestou a intenção de alienar as participações financeiras que tinham peso relevante nos monopólios naturais, como é o caso da PT, GALP, EDP, CTT, REN, Seguros da CGD, ANA-aeroportos e muitas outras.

6ª – Seguro destaca que o PS com a sua liderança ganhou as eleições Autárquicas e as Europeias, só não diz é que nas Autárquicas de 2013, o PS teve menos 265.802 votos que nas de 2009, e que nas Europeias de 2014 teve menos 97.085 votos que nas eleições de 2009.

Ou seja, o PS ganhou por grande ausência de votantes da direita, mas uma parte significativa de eleitores do PS também ficaram em casa, ou dito de outra forma o PS teve uma “vitória pequenina” que a repetir-se, nas próximas legislativas, não dará para ter peso político.

7ª – Diversas outras questões poderiam ser aduzidas, que tornariam extenso este texto, mas que podem ser encontradas num elucidativo e brilhante artigo do politólogo André Freire, que pode ser lido aqui.

Colocadas que foram estas questões prévias, procurarei justificar o porquê que apoio António Costa nas primárias promovidas pelo PS, que vão ocorrer no dia 28 deste mês.

Na tomada de decisão, para optar entre António J. Seguro e António Costa, comecei por tentar recordar quais os factos ou atividade relevante dos candidatos na sua vida política e social, pública ou partidária e não só dos seus programas de estratégia governativa, pois a credibilidade dos Programas passa também pelos comportamentos, as práticas, a obra realizada dos candidatos, que permita dizer que “este” tem obra feita e postura dignificante.

De António J. Seguro só consegui recordar a sua passagem pela liderança da Juventude Socialista, sem que tenha ocorrido alguma iniciativa relevante, e mais recentemente a contestação que regularmente fazia ao governo de Sócrates, estrategicamente divulgada pela Comunicação Social afeta aos partidos de direita, mas sem repercussão na generalidade dos cidadãos.

Na vigência do atual governo, como refere André Freire, a tibieza da oposição do PS no Parlamento, traduziu-se, até ao final de 2012, na aprovação de 58,3% das medidas do PSD/CDS ou absteve-se em 25,0% ou seja, deixou passar sem oposição 83,3% das medidas que estão na base do atual desastre económico e social que o País atravessa.

Quanto a António Costa podemos recordar com facilidade o seu percurso:

– deputado e Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa;

  • como Ministro dos Assuntos Parlamentares demonstrou a sua grande capacidade para obter consensos à esquerda e ao centro, como foi o caso da grande reforma da Segurança Social;

  • Presidente do Grupo Parlamentar do PS, na Assembleia da República;

  • vice-Presidente no Parlamento Europeu;

  • na sua atuação como Ministro de Estado e da Administração Interna, com destaque para o grande reforço do sistema de Proteção Civil;

  • como Ministro da Justiça fez a reforma de proximidade na Justiça, criou os Julgados de Paz, tribunais para redimir conflitos de baixo custo para o Estado e para os cidadãos. Tribunais estes que o atual governo tem vindo a bloquear, não só na sua expansão mas também na não criação de um tribunal de apelação, no âmbito dos Julgados de Paz;

  • Ministro no Governo responsável pela concretização da Expo98.

  • eleito em 2007 Presidente da Câmara de Lisboa, onde tem revelado uma enorme capacidade de trabalho, de gerar consensos, com destaque para reforma e reorganização administrativa do Concelho, postura que o tem projetado para novas funções de interesse nacional;

No meu caso está facilitada a opção pelo facto de, nos meus 16 anos como vereador da Câmara de Loures, ter tido em 1993 contacto direto com António Costa, há época em Partidos Políticos diferentes, mas que deu para ver a sua enorme capacidade de trabalho, merecendo destaque o processo da criação da Valorsul, em Loures (estação de queima de resíduos sólidos urbanos), processo este que teve repercussão nacional.

A concretização deste projeto só foi possível pela capacidade de liderança e visão estratégica de dois homens: Demétrio Alves da CDU, então Presidente da Câmara, e António Costa do PS como líder do grupo de vereadores do PS, que assumiram o confronto político nas inúmeras reuniões de Câmara e Assembleia Municipal, assim como em reuniões com as populações, onde grupos de extrema esquerda e direita, acompanhados pelos fundamentalista ecológicos, tudo fizeram para impedir a aceitação do projeto e a sua concretização, hoje de reconhecido interesse nacional e referência na área do ambiente e saúde pública.

É em alturas como estas que se vê quem tem capacidade de liderança e quem se acomoda na última fila de uma qualquer bancada parlamentar.


Responses

  1. Boa tarde, Duarte Nuno,

    Li o este teu artigo atentamente; não aqui mas no “Badaladas”.

    O Costa poderia ter avançado antes; não o fez e compreende-se: não perder a oportunidade de ganhar Lisboa e depois preparar o “assalto”.

    Uma imagem triste de jogo rasteiro e golpismo. Os debates nas TVs, entre eles, não poderiam ser mais convincentes desta afirmação.

    Se a esquerda perdeu o norte, o PS perdeu a bússola. E há muito tempo.

    Cumprimentos,

    João Coelho

  2. Sempre ouvi dizer que os Políticos são todos iguais. Não acredito totalmente porque reconheço que exceptuando serem realmente todos mentirosos, haverá diferenças “A porcaria é a mesma o que muda são as moscas” Mas há sempre a esperança de que alguém (não me importa de que Partido) ouse usar o verdadeiro insecticida e limpe toda a sujeira existente.


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