Publicado por: Duarte | 28 Dezembro, 2014

Caminhamos para um Mundo Multipolar

Com a desintegração da União Soviética em 1991, o poder que até então era bipolar, face ao equilíbrio do poder económico e militar dos EUA e da URSS, passou a ser unipolar com os americanos a condicionar as questões sociais, económicas, militares e políticas, no planeta.

Começou desde então e numa primeira fase, de uma forma gradual, a desenvolver-se todo um conjunto de conceitos políticos liberais, do primado do individual sobre o coletivo, para uma segunda fase neoliberal, de que o Estado só atrapalha.

Esta postura foi de forma evidente praticada nos EUA após a queda do muro de Berlim em 1989, e na Europa, em Inglaterra, com a senhora Margaret Thatcher do Partido Conservador e posteriormente, pelo senhor Tony Blar do Partido Trabalhista, a quem o Social Democrata Alfred Gusenbauer, ex-primeiro Ministro da Áustria, o caracterizou como o Sr. Thatcher de calças.

As consequências de um Mundo polarizado num único País, os EUA, foram desastrosos para muitos povos que se viram privados de quem os defendesse da forma como eram espoliados dos seus recursos naturais, condenando-os a um vida de pobreza ou provocando a radicalização dos seus comportamentos, seja através de levantamentos armados ou atos terroristas, seja pelo recurso a conceitos religiosos fundamentalistas, como é ocaso da Al-Qaeda, e mais recentemente o auto intitulado Estado Islâmico (EI), no médio oriente.

A nova postura dos EUA, como polícia do Mundo, deu-se logo após a queda do Muro de Berlim com a invasão militar do Panamá, em 1989, e controlo do estratégico canal interoceânico.

Depois da dissolução da União Soviética em 1991, as intervenções políticas, económicas ou militares dos EUA, passaram a ser mais evidentes, utilizando vários protestos: como foi na Colômbia em 1997, alegando que combatiam o narcotráfico; em 1999 liderando os bombardeamentos na Servia, na concretização do desmembramento da Yugoslávia; em 2003 invadindo o Irak sob o protesto de que possuía armas de destruição massiva, que se veio a verificar ser falso, o que se pretendia era o controlo da petróleo desse País; no Haití em 2004 invadindo e derrubando o Padre Aristide, Presidente democraticamente eleito; em 2009 nas Honduras na organização e financiamento do derrube do presidente Zelaya; em 2011 derrubando Kadafi após bombardeamentos massivos da NATO que provocaram mais de 80.000 mortos, para poder controlar o petróleo do País; na Síria em 2012 com o apoio da CIA no envio de armas e milicianos fundamentalistas Islâmicos da Líbia, para derrube do governo de Al Assad.

Passados que estão 8 anos da grande crise económica do Subprime nos EUA, que levou à falência de centenas de Bancos americano, com repercussão em 2008 sobre as Bolsas de Valores de todo o mundo, nomeadamente na Europa onde ainda hoje se mantém uma situação de estagnação económica, o mundo despertou para uma nova realidade, revelada pelo relatório de Outubro deste ano, do Fundo Monetário Internacional (FMI), de que o Produto Interno Bruto da China (em paridade do poder de compra), tinha ultrapassado os EUA, tornando-se por esse facto a primeira potência económica do Mundo.

É evidente que no PIB per capita, os EUA estão numa situação muito mais confortável para os seus cidadão, mas os níveis elevados de crescimento económico anual da China, também se altera nesta vertente se tivermos em conta as previsões do FMI de que, em 2019, a economia do gigante asiático será 20% superior à dos EUA.

É consensual que, no âmbito das relações internacionais, o poder político é resultante do poder militar (a lei do mais forte), e o poder militar resulta do poder económico e financeiro (capacidade para criar e manter um exercito).

Recentemente o Jornal Argentino “La Nación” escrevia que a nova ordem mundial é Triangular pois o equilíbrio do Poder que “foi consagrado na recente cimeira do Fórum da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), reparte-se agora entre EUA, China e Rússia”.

Refere ainda o “La Nación” que a Casa Branca teve que aceitar a China e a Rússia como protagonistas de uma nova ordem geopolítica mundial, em resultado de acordos cruzados entre aliados e rivais.

Para esta nova realidade foi determinante o enorme crescimento da economia da China, conjugado com o seu crescente poderio militar e produtor de sofisticadas tecnologias cibernéticas.

A recente hostilidade dos EUA para com a Rússia, pressionada pelos neoliberais americanos do Partido Republicano (Tea Party), a que se associaram a direita conservadora na União Europeia, forçou a Rússia a estabelecer parcerias estratégicas com a China no campo económico/financeiro e militar, conjugando nesta área a capacidade tecnológica da Rússia com a financeira da China, relação esta que alterará no curto prazo a correlação de forças, como está a ser visível nas revistas da especialidade.

Outro dado interessante do recente relatório do FMI, prende-se com o facto de que entre os 10 Países com o PIB mais elevado (valor total final de bens e serviços produzidos num ano), 5 fazem parte do Bloco dos BRICS cuja soma do seu PIB representa 34.040 milhares de milhões de dólares (China 17.600 MM, India 7.270 MM, Rússia 3.550 MM, Brasil 3.070 MM, Indonésia 2.550 MM), enquanto que os outro 5 são os mais desenvolvidos dos que se designam ocidente, cujo PIB representa 30.790 milhares de milhões de dólares (EUA 17.400 MM, Japão 4.780 MM, Alemanha 3.600 MM, França 2.580 MM e Grã-Bretanha 2.430 MM).

Ou seja, o conjunto dos 5 Países do Grupo BRICS têm já um PIB superior ao dos 5 Países dos auto intitulados Ocidente, no montante de 3.250 MM de dólares, situação que o próprio relatório do FMI prevê venha acentuar-se de forma significativa, no curto prazo.

Há um dado que importa destacar para que se entenda que estes dados não são resultado do acaso, mas que, em grande parte, no caso dos BRICS, são resultantes de uma forte intervenção do Estado na economia, com o controlo dos monopólios naturais (energia, transportes, comunicações, água, saneamento, matérias-prima minerais e das principais infraestrutura), enquanto os Países ditos ocidentais, de governação neoliberal optaram pela privatização das empresas públicas e o resultado está à vista, como é visível no caso do Japão que está estagnado à mais de vinte anos, e a Europa há seis anos.

Em dois textos intitulados “A outra face das Privatizações” e “Quem foge ao pagamento de impostos?”, descrevo os objetivos e consequências das privatizações das empresas públicas, que se revelam de grande atualidade.

São já muitas as vozes que consideram que um mundo multipolar será determinante para que se respeite internacionalmente as diferentes formas de organização política, económica, social, cultural e religiosa dos diferentes povos, e de que nenhum País ou grupo de Países, tem o direito de impor a sua vontade sobre outros povos, salvo se estiver em causa graves violações dos direitos humanos, e a decisão seja das Nações Unidas.

Neste contexto de mudança não pode deixar de se referir o papel e intervenção do Papa Francisco e a sua crescente liderança Espiritual e Humana a nível mundial, no campo religioso, com o retorno aos princípios iniciais do cristianismo e aos modernos valores sociais da Igreja, no contexto da atual realidade política, económica e social, quando denuncia que “é intolerável que a especulação financeira determine os destinos dos povos.


Responses

  1. Sempre a velha questão. Mas afinal deve ou não o Estado ser forte na economia de um país. A resposta é… depende. Depende do grau de maturidade de um país. Por exemplo, aqui no Brasil, um Estado tentacular tem apenas ajudado a manter o status quo, pior ainda: o Estado omnipresente e protecionista (como é o caso brasileiro) tem estagnado de vez o país. O Brasil é um país atrasadíssimo ao nível social. Já numa Suécia, por exemplo, onde os cidadãos são educados e (muito) menos corruptos, faz muito mais sentido um Estado interventivo…
    O que não faz sentido nenhum é uma receita universal, uma espécie de remédio único para todas as panaceias. Um medicamento para a gripe pode não servir para uma indigestão…
    E é isso que são as ideologias ou credos políticos – medicamentos fora de prazo.
    Uma coisa curiosa em relação aos Estados Unidos, é que ciclicamente, as mais variadas personalidades, fugidas dos mais variados conflitos, vão lá parar… De forma alguma sou um pró-americano, mas ser anti-americano é uma coisa que também não sou. Os americanos fazem aquilo que todos os outros (de forma bem mais cruel) sempre fizeram ao longo da história: usar o poder para defender os seus interesses. Claro que todos esperamos que isso melhore muito mais do que já melhorou. Mas há que ter paciência. É que, afinal, corremos sempre o risco de aparecer uma super-potência bem pior que os Estados Unidos. Parece-me ser o caso de qualquer uma dessas que referiu – a Rússia ou a China.


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