Publicado por: Duarte | 14 Dezembro, 2015

Como interpretar as eleições venezuelanas

Nas eleições Legislativas do passado domingo, na Venezuela, o Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), perdeu por larga maioria as eleições para uma coligação de partidos de direita moderada e outros de direita neoliberal.

Este resultado é surpreendente tendo em conta que o PSUV tinha ganho, por larga maioria, todos os 18 atos eleitorais anteriores.

Para se entender o que motivou o mérito da vitória, da oposição ao “chavismo”, ou o demérito na derrota de “Maduro”, impõem-se que se determine o que levou à elevada motivação dos partidos da oposição e uma profunda desmotivação de grande parte dos eleitores do PSUV.

A 1ª causa está na forma, muito acentuada, como o presidente Maduro se referia à designada Revolução Bolivariana, dando grande destaque ao seu rumo eminentemente operário, e que seriam estes a determinar os destinos da Nação.

Este conceito Marxista, das revoluções operárias, faziam sentido nas primeiras décadas do século passado, quando a designada classe operária era maioritária na sociedade, e era simultaneamente determinante no aperfeiçoamento e evolução do modo de produção.

Na atualidade, a classe média passou a desempenhar o papel determinante no modo de produção, na inovação tecnológica, na informática, biologia, química, astronomia, cibernética, e muitas outra especialidades cientificas, nomeadamente, na educação, agricultura, economia, justiça, forças de segurança, nos equipamentos de produção, no desporto, assim com nas atividades criativas, cultura e artes.

Mas também integram a classe média o sector dos pequenos e médios empresários, na indústria, na agricultura, no comercio e serviços, em grande parte da função pública, assim como na economia social e também por um numeroso grupo de trabalhadores com o estatuto de individuais.

Acresce ainda que anualmente saem das universidades e politécnicos, milhares de novos licenciados com projetos pessoais de sucesso na sua vida profissional.

Nesta classe média não é de forma alguma aceite, nos dias de hoje, que o conjunto da sociedade seja dirigido pela classe operária, tal como o Presidente Madura repetia permanentemente.

Não se entenda com isto que a classe média é conservadora ou de direita, o que pretendemos deixar claro é que os valores da esquerda política não pode ser atributo exclusivo dos operários, mas que devem sim constituir valores do conjunto da sociedade e não, desta ou daquela parte da sociedade, mas dos que, presentemente, se identificam de esquerda plural e democrática.

A 2ª causa, para queda no apoio eleitoral ao PSUV, tem a ver com a proclamada “Guerra Económica”, pelo Presidente Maduro, face à denúncia de que “os comerciantes estavam a aumentar os preços dos bens alimentares e, posteriormente, outras mercadorias, promovendo o açambarcamento com o objetivo de especular e criar dificuldades à Revolução Bolivariana”.

A primeira medida tomada, para contrariar a subida dos preços, resultou na determinação de que a margem de lucro, na produção e na comercialização, não podia ultrapassar os 25%.

Esta decisão resultou em dois erros monumentais, não só por ter aberto um grande conflito com os pequenos e médios comerciantes, industriais, agricultores e prestadores de serviços, como por ter utilizado uma estratégia económica pública que nem os sistemas capitalistas já praticam, e que nos países de economia estatizada se revelaram num fracasso.

É inquestionável que houve uma grande incapacidade para perceber que o governo, ao iniciar um processo de redistribuir a riqueza, de uma forma mais equitativa, colocou na população uma massa monetária muito volumosa, que teria que ser compensada com mais oferta de bens e serviços, o que não aconteceu, daí o aumento dos preços (lei da oferta e da procura, “quando há pouca batata no mercado, ou qualquer outro produto, o preço sobe).

A decisão de tabelar os preços, na sua fase inicial, obrigou o governo a criar um aparelho com milhares de funcionários para controlar os preços, no País todo, e numa segunda fase a montar uma cadeia de super-mercados e a criar um aparelho de importação de produtos, desde o alimentar aos vulgares alfinetes.

Esta decisão levou a um descontentamento generalizado deste setor da classe média, quando este problema na atualidade é resolvido de uma forma extremamente simples. Pelo aumento da oferta de bens e serviços, pois se for muita e disseminada, quem pratica preços baixos vende muito, quem faz preços altos vende pouco e corre o risco de falir.

Nestas situações, o comerciante ou industrial que vá à falência, por praticar preços altos e vender pouco não pode criticar o governo, pois quem coloca em causa o seu negócio são os consumidores, com base na regra da oferta e da procura.

Pese embora os muitos êxitos que o Governo da Venezuela obteve, como a Escola Pública gratuita, a todos os níveis de ensino, a Saúde Pública gratuita, incluindo os medicamentos, a redução do Índice de pobreza de 25% para 6%, a atribuição a todos os idosos de reforma, de reduzir o trabalho informal de 60% para 40%, de ter construido mais de 1 milhão de habitações aos moradores das favelas e bairros de lata, de ter reduzido de forma significativa a criminalidade e os raptos, o que é um facto é que os dois erros acima referidos, foram determinantes na hora de votar.

Erros estes difíceis de colmatar, mesmo que o atual Presidente Maduro venha a ter a perceção dos mesmos, porque não tem revelado o mesmo entendimento da sociedade que Hugo Chaves tinha, quando referia que queria o Socialismo Democrático, para todos os Venezuelanos.


Responses

  1. Parece-me sobremaneira interessante a tua abordagem sobre as razões substantivas para explicar o descalabro eleitoral de Maduro. Há provavelmente outras razões (o preço do petróleo, a crise internacional, a pressão e animosidade dos seus vizinhos e dos EUA..) que podem concorrer para explicar estes factos. Contudo, o que dizes é primoroso e acerta na mosca, sem sombra de dúvidas. Parabéns.


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